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Mas afinal, a alegria entrou em crise?

A cada um de nós é sempre possível abrir-se à bela experiência do encontro pessoal com Jesus: Ele mesmo nos fará participar dessa corrente de alegria, que pode salvar o mundo de cair no abismo do desespero.

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Uma palavra que veio “no pacote” da pandemia em que vivemos e que assumiu um significado tão negativo quanto os efeitos do coronavírus na vida humana é a palavra “crise”. Não é difícil encontrar nos noticiários, por exemplo, a relação entre a pandemia e o termo “crise” em praticamente todas as dimensões da vida de cada um de nós: crise na saúde pública, crise na economia, crise na educação, crise nas relações…

Num panorama que parece nos desanimar em todos os sentidos, ficamos a nos perguntar se ainda restou lugar no mundo para coisas belas, como a alegria. Afinal, ainda há motivos para ser alegre? Não seria uma postura ingênua buscar a alegria enquanto o barco afunda? Que tipo de alegria é possível num cenário que parece anunciar o pior para o futuro da humanidade?

Sim, para muita gente, o mais coerente a se fazer num tempo de crise como o que vivemos é deixar-se arrastar pela forma trágica e desesperadora como os acontecimentos nos são apresentados, e como nós também podemos percebê-los. Nessa lógica, não há sentido em falar e em viver a alegria. O convite de São Paulo a estarmos sempre alegres e a louvarmos em toda e qualquer ocasião (1 Ts 5, 16-18) parece desconexo da realidade.

Mas a novidade cristã anuncia uma forma diferente de alegria: a alegria pascal, que nasce inclusive nas situações onde, ao olhar humano, tudo parece estar perdido. É a alegria forte e invencível, porque brota mesmo nas fontes que a morte e o sofrimento tornaram amargas; alegria que surge de um encontro transformante, com Aquele que venceu a morte e transformou o sofrimento em graça. Ele tornou saudáveis as águas da morte na nossa vida (Ez 47,8) e transformou nosso choro em riso (Sl 29,12). Com Cristo, não se pode falar de uma crise da alegria, pois Ele, ressuscitado e vitorioso, é a própria alegria, e comunica este dom a todos os que entram em comunhão com Ele (Jo 20,20).

Encontrar Cristo é encontrar o Sentido da vida, e uma vida alegre é consequência de uma vida cheia de sentido.

Viktor Frankl, grande neurologista judeu e fundador da Logoterapia, afirmava que o homem sadio e feliz é aquele que encontra e realiza o sentido da própria vida. Frankl estava convicto de que mesmo em situações de sofrimento é possível encontrar sentido e tornar-se pleno, e que a saúde mental de alguém depende mais da atitude que toma ante a própria existência do que das circunstâncias em que se encontra, mesmo as mais desafiantes.

Os santos são, para nós, as testemunhas mais confiáveis de que a alegria que vem do Céu supera infinitamente as contrariedades desta vida e que, na própria dor, ela pode ser encontrada: os apóstolos experimentaram deste gozo ao serem açoitados por causa de Jesus (Atos 5,41); os mártires dos primeiros séculos caminhavam para a morte com cânticos de louvor em seus lábios; os homens e mulheres de Deus das diversas épocas fizeram resplandecer em suas vidas, até nas situações mais corriqueiras, o júbilo de pertencer a Cristo. É marcante, por exemplo, a alegria e o bom humor de Santa Teresinha nos seus últimos meses de vida, mesmo nas dores atrozes da tuberculose que a atingiu. Fala-nos também o belo sorriso do beato Carlo Acutis, que não deixou o seu rosto, mesmo acometido pela doença que o levou à morte.

Seriam incontáveis os exemplos dos santos que nos dão a certeza de que a vida humana, apesar das dores nela presentes, não é uma história trágica. A cada um de nós é sempre possível abrir-se à bela experiência do encontro pessoal com Jesus: Ele mesmo nos fará participar dessa corrente de alegria, que pode salvar o mundo de cair no abismo do desespero.

Seja o nosso sorriso um farol de esperança no mar agitado dos tempos atuais. À nossa frente está Jesus: sigamo-Lo confiantes, pois Ele é a razão da nossa alegria.

José Airton Nogueira Júnior

Comunidade Católica Shalom


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