O que poderia ser apenas mais um encontro casual na movimentada Avenida Paulista tornou-se uma oportunidade de evangelização para centenas de milhares de pessoas. Maria Fernanda Tolentino, jovem consagrada da Comunidade Católica Shalom na missão de Goiânia, estava em São Paulo a trabalho quando encontrou o influenciador Andrew Zero produzindo conteúdo sobre curiosidades na avenida.
O cenário lhe pareceu familiar. “Quando eu vi, me lembrei na hora de tantos vídeos que já tinha visto nas redes sociais sobre curiosidades”, conta. Como naquele momento Andrew não entrevistava ninguém, Maria Fernanda decidiu se aproximar. A questão era: qual curiosidade contar? Foram necessários, segundo ela, apenas “alguns míseros segundos” para que lhe viesse à mente o Venerável Fulton J. Sheen.
Sheen foi uma das grandes personalidades da televisão norte-americana do século XX. Bispo católico e comunicador, alcançou milhões de espectadores com seus programas e recebeu um prêmio Emmy em 1953 pelo seu famoso programa semanal Life Is Worth Living (A vida vale a pena ser vivida), superando até o cantor, ator e produtor Frank Sinatra, considerado um dos maiores artistas de todos os tempos.
Maria Fernanda havia conhecido melhor Fulton Sheen alguns anos antes, durante a Quaresma de São Miguel conduzida por Frei Gilson, e guardava desde então a curiosidade que contou no vídeo. Ainda assim, ela própria se surpreendeu com a lembrança naquele instante. “Acho que só mesmo o Espírito Santo para explicar por que, dentre todas as curiosidades, religiosas ou não, me lembrei justamente dessa.”
O vídeo publicado na última quarta-feira, 13 de agosto, se espalhou e já ultrapassou 500 mil visualizações.
Confira aqui o vídeo que viralizou
Uma oportunidade para furar a bolha
Mais do que o número de visualizações, chama atenção o espaço em que o anúncio aconteceu. Maria Fernanda não estava falando em uma igreja, em um encontro católico ou para um público que já procurava conteúdos de evangelização. Uma conversa comum, no coração de São Paulo, fez com que a história de Fulton Sheen chegasse a pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar dele.
É um movimento que dialoga com a própria experiência do futuro beato. Sheen soube compreender os meios de comunicação de seu tempo e ocupar uma linguagem popular sem abrir mão da profundidade da mensagem cristã. Hoje, televisão e rádio dividem espaço com vídeos curtos, influenciadores e algoritmos, mas permanece a mesma pergunta missionária: como alcançar o homem de hoje nos lugares em que ele está?
Desde o início da Comunidade Católica Shalom, essa disposição de sair ao encontro está no centro da experiência missionária. A própria origem da Obra Shalom, em uma lanchonete criada para evangelizar jovens, manifesta uma intuição que atravessa sua história: não apenas esperar que as pessoas cheguem, mas ocupar os diferentes espaços da sociedade com ousadia e parresia.
Nas redes sociais, essa missionariedade encontra hoje um dos seus grandes campos. Evangelizar “oportuna e inoportunamente” pode significar também perceber uma oportunidade aparentemente pequena — um influenciador parado em uma calçada, uma pergunta sobre curiosidades, alguns segundos para pensar — e não deixar que ela passe.

Autenticidade e comunicação
Para Maria Fernanda, que trabalha diretamente com redes sociais, é justamente essa capacidade de comunicar-se com o mundo que torna Fulton Sheen uma referência: “Para mim, de coração, Fulton Sheen é a prova do poder de sermos autênticos e improváveis e de como isso pode mudar a forma como evangelizamos”, afirma.
Ela destaca sobretudo a habilidade do bispo de abordar questões importantes de seu tempo à luz do Evangelho sem tornar a comunicação distante ou inacessível. “Ele tinha a coragem, o ímpeto e, ao mesmo tempo em que suas falas geravam incômodo pelo peso da verdade, elas não geravam fechamento.”
Na leitura da jovem missionária, havia em Sheen uma naturalidade que vinha da preocupação em ser coerente com aquilo que anunciava. Uma característica que ela considera particularmente necessária para quem deseja evangelizar através da comunicação: “Como comunicadora, futura publicitária e, principalmente, missionária, essa habilidade é mais que importante: é essencial. Falar sobre o mundo, andar no meio dele e se destacar por não ser capaz de se perder; e ainda ter uma graça tão transbordante que, mesmo em meio ao desconforto de assuntos difíceis, seja capaz de atrair.”
Providência às vésperas da beatificação
O episódio ganha um significado particular porque acontece pouco antes da beatificação de Fulton J. Sheen, marcada para 24 de setembro de 2026, nos Estados Unidos. Um homem que dedicou grande parte da vida a anunciar o Evangelho pelos meios de comunicação volta a ser apresentado ao grande público, décadas depois, através das novas linguagens da mídia.
Uma jovem missionária encontra um influenciador por acaso na Avenida Paulista, recorda-se de Fulton Sheen, conta sua história e, poucos dias depois, centenas de milhares de pessoas são alcançadas por aquela conversa. As plataformas mudam, as linguagens mudam e os meios mudam. A missão permanece.