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Moysés Azevedo fala sobre o primeiro encontro com São João Paulo II

Confira entrevista completa.

Foto: Rolando de Freitas/ Estadão

comshalom: Há quase 40 anos, o Papa João Paulo II esteve em Fortaleza. Quais as recordações que você tem dos dias que antecederam essa visita, o clima na cidade, como estava as ruas por onde ele passou?

Moysés Azevedo: Todos estávamos em uma grande expectativa! Era a primeira vez que um Papa visitava o Brasil. Ainda mais: o objetivo da visita no Brasil era exatamente Fortaleza onde abriria o X Congresso Eucarístico Nacional. Todos estávamos em grande expectativa, tanto do ponto de vista da cidade se preparando para receber o Papa, do povo que pela primeira vez veria um Papa pessoalmente, pois naquele período os papas anteriores pouco saíram da Europa, e da Igreja que com alegria esperava a visita do seu Pastor, o Vigário de Cristo sobre a terra. O povo se aglutinava nas ruas. Todos estavam profundamente entusiasmados para ver e ouvir o Papa. Enfim, em uma palavra: alegria!

comshalom: Qual era o sentimento que você tinha no anseio dessa visita?

Eu, como maior parte das pessoas da cidade, nunca tinha visto o Papa de perto. Ainda mais aquele Papa! Um Papa polonês, que tinha vindo do leste europeu que naquele tempo ainda estava sob a cortina de ferro do comunismo. Um homem que tinha experimentado as consequências dolorosas das ideologias do nazismo e do comunismo na sua própria pele. Alguém de imensa profundidade humana, intelectual e espiritual. Um homem que por onde passava deixava uma experiência tão impactante de Misericórdia e Paz. Que anunciava a Jesus Cristo e a sua Misericórdia. Cristo sempre foi o centro da sua pregação. Não foi por acaso que ele iniciou seu pontificado dizendo: “Não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!”

comshalom: Quais as lembranças que o senhor guarda do dia em que encontrou o papa? Você tinha que idade, como foi que lhe escolheram para entregar a carta? O que tinha escrito nela? O que o papa lhe disse?

Eu tinha 20 anos. Fazia parte do movimento de jovens da Arquidiocese de Fortaleza. Dom Aloísio Lorsheider então nos pediu para dar um presente ao Papa em nome de todos os jovens da cidade. Eu fiquei feliz! Perguntei o que seria o presente. A resposta de Dom Aloísio foi: você é que deve escolher o presente! De feliz fiquei perplexo… O que um jovem de 20 anos pode dar de presente a um Papa? Pus-me em oração e logo veio-me a inspiração. Estava claro! Nada mais e nada menos do que própria vida! Assim escrevi uma carta onde ofertava minha vida e minha juventude para dar de graça o que de graça eu recebi: a felicidade que é Jesus Cristo! Evangelizar os jovens, especialmente os mais distantes de Cristo e da Igreja.

O momento foi simples e forte! Eu me ajoelhei diante do Papa e entreguei minha carta. Tinha preparado umas palavras para dizer. Não consegui dizer nada! Lembro-me dos olhos do Papa olhando para mim, traspassando o meu coração. Era como se ele me dissesse: não se preocupe, não precisa dizer nada. Em nome de Cristo, acolho a tua oferta! Ele me abraçou, tocou minha face e me abençoou! Posso dizer com convicção: esse encontro mudou minha vida.

comshalom: O que o você acredita que surgiu a partir desse encontro? Quais os desdobramentos daquele dia na sua vida?

Sai dali convicto que tinha recebido uma graça muito maior que eu podia imaginar. Uma graça que me transcendia completamente. O meu coração foi sendo invadido por essa inquietação: Como ir ao encontro dos jovens da minha idade, mais distantes da Igreja, para comunicar Cristo que é a alegria e a felicidade da minha juventude? Como fazer isso como o Papa propunha, com novos meios, novos métodos, e novas formas de evangelizar?

Pouco a pouco a oração foi desenhando no meu coração a forma de concretizar a oferta que tinha feito diante de São João Paulo II. Uma ideia que parecia ao primeiro olhar meio louca: uma lanchonete para evangelizar! Uma lanchonete igual a qualquer outra que nos anos 80 os jovens tanto frequentavam, mas ao mesmo tempo bem diferente. Os sanduíches e as pizzas com nomes bíblicos, um Evangelho em cada mesa e nós mesmos éramos os garçons que acolhíamos os jovens e assim terminávamos sempre os escutando em suas dores e alegrias.

Em meio ao diálogo, tínhamos a oportunidade de dar o nosso testemunho de uma juventude transformada por Cristo. Estas conversas, respeitando a liberdade de cada um, muitas vezes terminavam na capela atrás da lanchonete, com o Santíssimo Sacramento exposto, para um momento de oração e adoração. A partir desta experiência com Deus a vida de muitos jovens foi sendo transformada. Eles chegavam para mim e diziam: eu também quero ofertar minha vida e minha juventude como você fez diante do Papa! Assim, sem nenhum planejamento humano, mas como um dom do Espírito Santo e sob a benção de São João Paulo II nasceu aquilo que hoje nós conhecemos como Comunidade Católica Shalom!

Fruto do encontro com São João Paulo II

Hoje, a Comunidade Católica Shalom, uma Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício, é composta por milhares de jovens, famílias, sacerdotes, celibatários, todos missionários espalhados em mais de 30 países do mundo evangelizando os Jovens, os Pobres, as Famílias, enfim o homem e a mulher do nosso tempo que mais do que nunca tem fome e sede da felicidade que para nós é uma pessoa: Jesus Cristo! Com São Joao Paulo II dizemos: “Abri, escancarai as portas a Cristo!”


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