Institucional

O Amor do Consagrado é o Amor deitado e esponsal de Cristo na Cruz

comshalom

HOMILIA – OITAVAS DA PÁSCOA
PRIMEIRAS PROMESSAS
COMUNIDADE CATÓLICA SHALOM

At 2,36-41 || Sl 32 (33) || Jo 20,11-18

O AMOR DO CONSAGRADO É O AMOR DEITADO E ESPONSAL DE CRISTO NA CRUZ, CHEIO DE MISERICÓRDIA E PRONTO A FAZER-SE ÊXODO NAS ESTRADAS DO MUNDO

Como são belas as orações propostas para estes dias da Oitava da Páscoa, uma delas nos diz: “Ó Deus, que pela riqueza da vossa graça multiplicais os povos que creem em Vós, contemplai solícito aqueles que escolhestes e dai aos que renasceram pelo batismo a veste da imortalidade”. Trata da oração da coleta do sábado da oitava. Neste Tempo Solene da Páscoa, o drama crítico da luz e das trevas alcança o seu auge final, as trevas não puderam mais recorrer à sua última arma, à morte. A Luz venceu, reina gloriosamente pelas estradas do mundo, O Esposo Ressuscitado vai à nossa frente, como um Esposo cheio de Misercórdia exodal, toma a nossa fragilidade e nos conduz pelas sendas do mundo, nos conduz pelos abismos que marcam os tempos de hoje. Na Páscoa, Bondade, Verdade e Beleza tornam-se o nome completo de Deus que se funde na carne dos homens.

A riqueza da graça de Deus se multiplica sobre nós que somos o seu povo, o povo crente e depositário do Seu Amor Esponsal. Sim! O Amor Esponsal é inicialmente um ato querido por Deus, Ele nos amou por primeiro, e somente na inicitiativa Dele, é que podemos amá-Lo perdidamente. Esse amor perdido do consagrado dá-se na noite do mundo, pois este vive numa escuridão sem precedentes, vive dessa forma porque tirou Deus do centro, mas não podemos tirar da nossa memória que a noite do mundo é uma noite na qual está acesa uma luz. “Quando Cristo voltar, será dia para sempre. Esse drama da história, no qual se processa a nossa própria vida, é sempre o pano de fundo daquela liturgia do círio pascal com a qual começa a celebração da nooite da Páscoa.” (Bento XVI)
“Deus sabe dessa noite.” Eis aqui a palavra de anúncio do consagrado nas estradas do mundo. Deve levar essa consolação a todos os homens, Deus se interessa por nossas escuridões, Ele pousa o seu olhar misericordioso sobre os que o temem e nos alimenta quando nos falta a fartura de sentido existencial.

Detenhamo-nos um pouco agora sobre as palavras do Evangelho. Elas mostram o desdobramento do túmulo vazio, Cristo, Luz do mundo, não está mais morto, Ele Vive no meio de nós! O Evangelho joanino narra que Maria se encontrava do lado de fora do túmulo, e que estava a chorar. Mas se escutamos com atenção, percebemos que ela faz movimentos contemporâneos: ela fica do lado de fora do túmulo, ela chora, ela se inclina, e ao mesmo tempo, ela olha para a interioridade do túmulo de Jesus (Jo 20,11). Como deve agir um consagrado da Igreja, num carisma especifício, no coração do mundo?! Deve ter os mesmos sentimentos da Mulher do Evangelho de hoje, deve colocar-se aos pés do lugar que deitou o Corpo Morto do Amor que antes deitou na cruz, o consagrado precisa ter a mesma esperança corajosa de Maria Madalena, a coragem de aproximar-se dos sepulcros da humanidade, das dores que assolam o mundo que vira às costas a Cristo. Tenhamos essa esperança, que por vezes precisará ser forjada no choro, nas lágrimas de uma vida que se dobra, que se volta contra si. O choro do consagrado não pode ser ditado pelo absolutismo do sentimentalismo que tem entrado de cheio na Igreja, na nossa comunidade, como se uma vida que se oferta a Cristo e a Igreja, passasse pelas consolações humanas. Não, tenhamos a coragem de sair dessas distrações e fantasias que só nos faz desconhecer a Vontade de Deus.

O amor do consagrado precisa ser semelhante ao Amor que deitou no altar da cruz. Um amor livre e desinteressado, que simplesmente subiu nas alturas da cruz e nos atraiu para o alto. Todo amor autêntico, e assim deve ser o amor do consagrado, deve ser marcado pela inclinação ao Mistério, deve deter os olhos para dentro do Mistério de Cristo Morto e Ressuscitado. Ninguém consagra a vida para si próprio! Saiamos dessa informação cerebral e assumamos o lugar da cruz, pois Cristo, que se torna o rei do mundo no sacrifício total de si mesmo, na entrega radical de si no madeiro da cruz, cujo abraço é generoso e plenamente amplo, para apanhar a todos, este Cristo é o oposto de Adão, que continua a cair na nossa carne. No primeiro Adão, está tudo aquilo que não deve fazer um consagrado: vida centralizada em si, vida de oração a partir de medidas humanas, orgulho e divinização de si. Assumamos o lugar que proclama com alegria para o mundo: ‘Eu vi o Senhor!’ (Jo 20,18), o lugar daqueles que têm a coragem, por pura graça de Deus, de por-se diante do Mistério, de chorar com as dores de tantos homens e mulheres que nem ao menos conhecemos seus rostos, de inclinar nossa vida Àquele que se importa com as escuridões do mundo, e,  de dentro Dele e apartir Dele, consumirmos alegremente nosso sim, como um rastro luminoso nas estradas que o Senhor nos enviar! Que a Virgem Maria, a Senhora da Páscoa, nos tome pela mão e nos eduque na permanente passagem das trevas para à luz.
Amem!

Pe. Marcelo Monte
Arquidiocese da Paraíba


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