Formação

O amor não exige recompensas

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Todo Natal era a mesma coisa: minha avó escrevia dezenas de cartões à mão, um por um, personalizado, e essa delicadeza expressava que cada mensagem era tão singular quanto o remetente. Mas poucos retornavam à sua gentileza.

Com os anos, apesar de não ser retribuída, ela não reduzia o número de destinatários, mas nossa árvore estava cada vez mais vazia de cartões recebidos. E eu lembro que aquilo causava, em mim, uma angústia danada. Eu ficava aflita, meio desesperada: Será que vovó vai chorar? Será que ela vai achar que ninguém se importa com ela?

Bobagem minha. Minha avó era uma mulher absurdamente repleta de amor, escandalosamente feliz e seus gestos transbordavam essa plenitude. Era dona de uma gargalhada gostosa e de uma grande convicção de que era amada. Enquanto eu, a menina insegura que era, em seu lugar, teria chorado e desistido na primeira tentativa de demonstração de carinho não correspondido.

É, dona Fiúca, a senhora é que sabia das coisas.

Vozinha, acredita que hoje em dia existem relacionamentos que são interrompidos da noite para o dia por causa de uma mensagem de WhatsApp visualizada e não respondida? Tenho um amigo que ficou revoltadíssimo porque se esqueceram de convidá-lo para o programa de sábado com a galera. E ainda uma colega que ficou toda ressentida porque alguém não se lembrou de seu aniversário.

Será que, aí do céu, a senhora já descobriu de onde nos vêm esses sentimentos à flor da pele? Por que todo esse caos emocional dentro da gente? Por que sofremos tanto se o outro não corresponde às nossas expectativas?

Vó, existe gente que pode ficar tão presa dentro dos próprios “grandes problemas”, que uma atitude do outro, ou a falta dela, é capaz de lhe fazer abandonar suas próprias convicções. Existe gente que passa uma vida inteira permitindo que fatores externos tenham impacto sobre suas emoções. Até que se emburra e se fecha em si mesma. E isso tudo vai à contramão do que você me ensinou, do que nós duas entendemos por felicidade, que está em autoprojetar-se, doar-se, lançar-se. Livremente. Em direção aos outros.

Um tempo atrás andei lendo umas coisas por aí, e não é que os estudiosos parecem concordar com você?

Tem um cara, Richard Barret, que estudou as motivações humanas e ele diz que depois de suprir necessidades básicas, como comer, dormir, vestir-se, relacionar-se com outras pessoas e ter amigos, o homem passa a sonhar mais alto, quer adquirir um bom emprego e crescer na carreira, mas, que sua alma só se dá realmente por satisfeita quando está em unidade, ou seja, quando se identifica com a humanidade a ponto de realizar ações direcionadas ao bem comum. Ele escreveu que o homem, por natureza, quer servir, quer cumprir sua missão de realizar propósitos desinteressadamente.

Depois teve outro também. O psiquiatra Victor Frankl falou sobre a autotranscedência da existência humana. Ele escreveu que quem tem tudo para viver, mas não encontra um “para quê” viver frustra-se e cai no vazio existencial, enquanto que aquele que tem um sentido – por meio da consciência espiritual – é feliz e tem seus valores muito claros, antes de tudo, para si mesmo.

Ah, vozinha. Hoje tenho para mim que tanto quanto esses pesquisadores, tu eras igualmente sábia. Ou até mais. Porque quanto mais eu me mostrasse sensível ou preocupada com a possível falta de reciprocidade, mais deliciosa era a sua gargalhada.

Você já sabia: O retorno não importa para quem sabe amar.


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