Formação

O lugar da Palavra: ambão

comshalom

Neste mês de setembro, a Igreja convida os fieis a voltarem seu olhar para a Palavra de Deus. “É enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as ações e os sinais.” [1]

Cada ação litúrgica é impregnada da Palavra de Deus. A Liturgia da Palavra é um grande diálogo de Deus com o homem, nela Deus fala com o seu povo. Cristo estabelece um colóquio conosco através do Espírito Santo, assim como naquele diálogo da aliança do Êxodo (Ex 19ss) e naquele dos Discípulos de Emaús (Lc 24,27). Nas duas situações, Deus fala, exorta e o povo escuta e responde. Em todos os séculos, esse é o lugar privilegiado onde, nos momentos da vida da Igreja, Deus fala aos seus, que o escutam e respondem. A Liturgia da Palavra é um elemento decisivo na celebração de cada um dos sacramentos da Igreja, nenhum deles se distancia da Palavra que é sempre proclamada e ensinada.

Falaremos um pouco sobre o lugar da Liturgia da Palavra na Celebração da Eucaristia. A Sacrossantum Concílium orienta que “prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus”, por isso, hoje mergulharemos na simbologia e sentido do ambão, ou Mesa da Palavra.

A palavra “ambão” deriva do grego anabeinein, que significa subir, elevar, lugar para onde se sobe (os ambões antigos tinham sempre degraus). O Livro de Neemias (Nm 8,1-6) narra que após o retorno do exílio, para proclamar a lei, “Esdras, o escriba estava sobre um estrado de madeira, preparado para aquela ocasião.” O ambão deriva exatamente daí, nas sinagogas haviam púlpitos ou estrados que os rabinos utilizavam para comentar a Torá. Ao longo dos anos, a tradição sagrada conferiu ao ambão a identidade de sepulcro vazio de Cristo Ressuscitado.

A instrução geral para o Missal Romano diz que “a importância da Palavra exige que exista na igreja um lugar apto do qual esta seja anunciada, e em direção ao qual, durante a liturgia da Palavra, espontaneamente se dirija a atenção dos fiéis” [2]. A colocação do ambão deve, portanto, ser próxima da assembleia, dentro do presbitério ou fora dele; colocado ao lado, deve estar em relação com a sede e com o altar, do qual, porém, não deve ocultar a prioridade e a centralidade, e tornar possível a procissão com o evangeliário, a sua incensação e a colocação das velas. Deve ser funcional para a proclamação da Palavra, disposto de modo tal que os ministros estejam bem visíveis e sua voz seja ouvida pela assembleia.

Convém, ainda, que o ambão seja construído com material nobre (pedra, mármore, bronze, madeira etc). Deve ser digno de tal forma a constituir um sinal da Palavra, ainda que esta não esteja sendo proclamada. A decoração pode contribuir para o esplendor do ambão. Em muitas Igrejas, a iconografia se utiliza das representações dos profetas ou dos evangelistas, imagens que remetam à Ressurreição do Senhor ou à sua encarnação. Porém, é importante que seja sempre sóbria a iconografia utilizada, apontando apenas o essencial. É possível, ainda, ornamentá-lo com flores, desde que estas não apresentem uma dignidade maior que a da peça sagrada, nem o cubram totalmente. Para o ambão e o altar, vale sempre a regra de que sua beleza e dignidade deve ser independente daquilo que se coloca ao seu redor. Durante o Tempo da Páscoa, está prevista a possibilidade de colocar ao lado do ambão o círio pascal.

Do ambão são proclamadas somente as leituras, o salmo, o Evangelho [3] . Pode-se ainda fazer dali a homilia e a oração dos fieis [4].  É bom observar que o precônio pascal (exulted), as sequências das grandes solenidades e as kalendas [5] na noite santa do Natal também são proferidos da mesa da palavra. Desta forma, compreendemos que nenhum outro tipo de leitura ou anúncio deve ser feito de lá. O ambão não é lugar para comentaristas. Para os demais avisos e motivações, em um outro lugar deve-se preparar uma estante que não é um “segundo ambão”, onde tudo isso pode ser realizado, dentro daquilo que prescreve a liturgia. A dignidade do ambão exige que ele seja reservado à Palavra.

 

[1]    Cf: SACROSANCTUM CONCILIUM, 24.

[2]    Cf: IGMR, 309.

[3]    Cf. IGMR, 58

[4]    Idem,2.

[5]    Texto que contém o anúncio do Natal do Senhor sob o aspecto cronológico, no qual são elencados os principais momentos históricos da Salvação

 

Vinícius Cordeiro Ribeiro
Secretário de Liturgia do Shalom Fortaleza


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *