Qual o valor da vida humana? Quando ela tem início? Que direitos e deveres temos sobre a ela? Este artigo nos ajudará a encontrar respostas para estas e outras perguntas, apresentando aspectos importantes que revelam a grandeza e o valor precioso da vida humana

A vida é muito mais do que isso! Ela é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações. A vida é um bem indivisível e faz parte de um plano divino. Deus Pai preparou um plano maravilhoso para a sua vida e deseja que você seja feliz. Quando nos damos conta de que Deus tem um plano para nós, entendemos o motivo de vivermos. Deus quer que todos os seus filhos progridam e se tornem mais semelhantes a Ele.
A vida humana tem em si mesma um valor inestimável, é sempre um bem, mas, infelizmente, a maioria das pessoas não consegue reconhecê-lo. É imprescindível, para que o homem conduza de forma correta a sua vida e a daqueles por quem é responsável, conhecer o valor da vida humana. Existem alguns aspectos importantes que revelam a grandeza e o valor precioso da vida. Por que motivos ela é um bem? Entre tantos, podemos falar sobre alguns:
A vida humana é dom de Deus
Só Deus é propriamente eterno, isto é, não tem princípio nem fim. Em Deus, não existe passado nem futuro, mas um presente imutável. Deus sempre existiu, mas em determinado momento quis criar o mundo sem utilizar nenhum material pré-existente. A criação inteira é fruto do amor e da onipotência de Deus.
Deus é o autor da vida e criou o homem e a mulher do nada
O autor da vida é Deus. Só Ele pode dar a vida. Criar é uma prerrogativa só de Deus. Criar quer dizer “fazer que exista algo que antes não existia, tirando-o do nada”. Por si só, o homem não é capaz de dar a vida. O homem não pode criar; ele pode modificar, por exemplo, o curso de um rio, ou fabricar um tecido, um carro, construir uma casa.
Deus criou o homem do nada: “Façamos o homem…”2. Deus fez o homem do barro, com o trabalho de suas mãos, com grande atenção, desvelo e ternura: “Então o Senhor Deus modelou o homem da argila do solo, soprou alento de vida em seu nariz, e o homem se transformou em ser vivo”3.
Deus criou o homem do barro e da água, criaturas inanimadas, sem alma, e soprou sobre ele o “nefesh”, o sopro da vida. Deus deu ao homem uma alma só dele; alma bela, pura, santa, imaculada, feita para viver unida a Ele4.
Deus criou a mulher, também do nada, apesar de tê-la criado a partir de um homem vivente, não precisava disso para criá-la, porque Deus é Deus e tudo criou a partir do nada. A origem da mulher também é Deus. Foi Ele quem decidiu criá-la, como o homem, do nada.
É importante saber que quando Deus usou da metade do homem para criar a mulher, usou também seu desejo de ser feliz, os anseios mais sinceros do seu coração, sua vocação para cuidar e ser cuidado, para proteger e ser protegido, seu chamado para amar e ser amado, sua necessidade de ser complementado por alguém semelhante a ele, sua humilde e sincera abertura à felicidade que vem da complementação e da partilha de vida5.
A origem e o fim do homem é Deus
Portanto, a origem do homem é Deus. O homem veio de Deus e seu destino é Deus. A vida do homem é dom e é o maior talento que Deus deu a ele; ela encerra uma infinidade de graças, de potencialidades. A partir da vida, o homem pode desenvolver-se, crescer, experimentar as suas capacidades, contribuir para o crescimento da humanidade e do mundo.
Deus “criou cada homem fazendo dele um prodígio”6. Só pelo fato de a vida ser um dom de Deus já explica o valor inestimável da mesma. Por esta razão, o Beato João Paulo II conclama o homem a ter um olhar contemplativo diante da vida, “é o olhar de quem observa a vida em toda a sua profundidade, reconhecendo nela as dimensões de generosidade, beleza, apelo à liberdade e à responsabilidade. É o olhar de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas a acolhe como um dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do Criador e em cada pessoa a sua imagem viva”7.
Deus é o único Senhor da vida e da morte
A Bíblia afirma que Deus é o único Senhor da vida e da morte: “Só eu é que dou a vida e a morte”8; “Vós, Senhor, tendes o poder da vida e da morte, e conduzis os fortes à porta do Hades e de lá os tirais”9; “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor”10.
O homem não tem o poder de apropriar-se da vida e da morte para decidir sobre elas. O homem não pode reivindicar para si a mais completa autonomia moral de decisão sobre a vida e a morte; ele não pode dispor da própria vida nem da dos outros como quer, porque o valor da vida não é relativo, não é um “bem simplesmente relativo, confrontada e ponderada com outros bens, segundo uma lógica proporcionalista ou de puro cálculo”11.
Muitas pessoas afirmam que são “donas” de sua própria vida, portanto, podem fazer dela o que quiserem. O Beato João Paulo II afirma: “A vida do homem provém de Deus, é dom seu, é imagem e figura dele, participação do seu sopro vital. Desta vida, portanto, Deus é o único Senhor: o homem não pode dispor dela. Deus mesmo o confirma a Noé, depois do dilúvio: ‘Ao homem, pedirei contas da vida do homem, seu irmão’ (Gn 9,5). E o texto bíblico preocupa-se em sublinhar como a sacralidade da vida tem seu fundamento em Deus e na sua ação criadora: ‘Porque Deus fez o homem à sua imagem’ (Gn 9,6) Portanto, a vida e a morte do homem estão nas mãos de Deus, em seu poder.”12
Diante da sua própria vida e da dos seus irmãos, não raramente o homem se apossa da liberdade que Deus deu a ele para fazer da vida, independente de Deus, o que deseja. Mas a liberdade do homem só é autêntica se for baseada na verdade sobre o homem e sobre o mundo; verdade esta que não pode ser aparente, portanto, “Cristo continua a aparecer-nos como aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que espedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência”13.
O homem deve dispor a sua vida nas mãos de Deus
Ter a vida nas mãos de Deus jamais será um risco, como alguns pensam, porque Deus é “amor em atos”, ou seja, tudo o que realiza é por amor. Todas as ações de Deus são amor. Deus age amando. Estar em suas mãos, em seu poder, é estar em lugar seguro, porque Deus não exerce esse poder como arbítrio ameaçador, mas, sim, como cuidado e solicitude amorosa pelas criaturas.
Se é verdade que a vida do homem está nas mãos de Deus, não o é menos que estas são mãos amorosas como as de uma mãe que acolhe, nutre e toma conta do seu filho. Por isto o homem pode dizer: “Fico sossegado e tranquilo como criança deitada nos braços de sua mãe, como um menino deitado é a minha alma”14.
Referências:
2 Gn 2,26
3 Gn 2,7.
4 Cf. Nogueira, Emmir. Ao amor da minha vida, Fortaleza: Edições Shalom, 2004, p.13.
5 cf. ibidem p.15
6 cf. Sl 139(138),14.
7 Carta Encíclica Evangelium Vitae, 83.
8 Dt 32,39.
9 Sb 16,13; cf. Tb 13,2.
10 Rm 14,7-8.
11 Carta Encíclica Evangelium Vitae, 68.
12 ibidem, 39.
13 Carta Encíclica O Redentor do Homem, p. 34 e 35, Edições Paulinas.
14 Carta Encíclica Evangelium Vitae 39, p. 77 e 78, Edições Paulinas.
Germana Perdigão
Missionária da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE