No artigo passado, iniciamos este itinerário, em que estamos percorrendo os sentidos para compreender que todo o nosso ser reza na liturgia. Você deve se recordar da experiência daquele rapaz com a Celebração Eucarística, ele, na sua sensibilidade e ao mesmo tempo na sua abertura a Deus, foi percebendo por meio dos sentidos os sinais sagrados da celebração.
Se tomarmos a vivência das celebrações litúrgicas, especialmente da Eucaristia, como verdadeiros encontros com Deus, com a pessoa viva de Jesus Cristo, e a liturgia nos garante esse encontro, certamente poderemos abrir mais ainda nosso ser a uma participação mais concreta. Na Carta Apostólica Desiderio Desideravi, sobre a formação litúrgica do povo de Deus, o Papa Francisco sublinhou que “a potência salvífica do sacrifício de Cristo, de qualquer das suas palavras, de todos os seus gestos, olhares e sentimentos, alcança-nos na celebração dos sacramentos.”
Esse alcance é tão profundo que, numa celebração, eu me torno como aqueles personagens do Evangelho, encontrados por Jesus, curados, perdoados, libertados, ressuscitados até, pois, na força dos Sacramentos, é Jesus que continua a realizar sua obra de amor e salvação.
“A Missa nos salva hoje!” (Papa Leão XIV em Audiência com os coroinhas franceses)
A liturgia possui outros códigos comunicativos que se expressam para além da visão e da audição. A partir de agora, vamos nos deter um pouco falando de como o olfato e o tato são também alcançados numa liturgia.
O sentido do olfato na liturgia
O olfato é um sentido que nos ajuda a ter uma sensação de bem-estar, pois quem não se sente tranquilo sentindo uma fragrância agradável, ou mesmo sentindo aquele aroma que traz recordações? O perfume da mãe, por exemplo, ou das flores do jardim da casa da sua avó, o cheiro bom que tem a brisa da praia e muitos outros aromas que tomam conta da nossa memória. Na liturgia, também o olfato é envolvido nesse movimento oracional.
O incenso, símbolo das orações dos santos (cf. Ap 5,8; 8,3-4), é um dos elementos que se comunica diretamente com o olfato. O perfume da oração da Igreja, na fumaça do incenso que sobe aos céus, coloca em relevo aquele mistério, aquela santidade divina da presença de Deus como naquela nuvem da shekinah, que pairava sobre a Tenda da Reunião (cf. Ex 33,1-11; 40,34-35). A experiência do incenso pode até ser sentida de forma multissensorial, como na liturgia oriental, onde o turíbulo está cheio de campainhas e, quando se incensa, se ouve o som e se enxerga a fumaça que sobe aos céus.

Falamos do incenso, mas também podemos falar do perfume das flores e também do óleo do Crisma que deve ser de puro azeite de oliveira acrescentado de um bálsamo, que aqui no Brasil, é de essências de ervas da Amazônia e lhe confere um cheiro agradável.
Na dedicação de uma Igreja, o óleo é derramado sobre o altar e passado em forma de cruz nas paredes, e toda a Igreja fica tomada daquele suave aroma, assim como a casa onde Maria de Betânia derramou nardo puro aos pés de Jesus (cf. Jo 12,3). Também no mesmo rito, ao colocar o incenso sobre o novo altar, o bispo diz: “Assim como esta casa suavemente perfumada, também a vossa Igreja faça sentir a fragrância de Cristo”. Se com um belo e harmonioso canto podemos fechar os olhos e dizer: “Como é belo!”, também com o bom odor podemos fechar os olhos e dizer ao Senhor: “É bom estarmos aqui.”
Por fim, lembramos o que São Paulo diz: “Em verdade, somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem; para uns, odor que da morte leva à morte; para outros, odor que da vida leva à vida. E quem estaria à altura de tal missão?” (2Cor 2,15-16).
O sentido do tato na liturgia
Jesus tocou o leproso (cf. Mt 8,3), o surdo-mudo (cf. Mc 7,33), os dois cegos de Jericó (cf. Mt 20,34), segurou a mão da filha de Jairo (cf. Lc 8,54). A hemorroíssa tocou a orla do manto de Jesus (cf. Lc 8,44), Tomé queria “tocar” para crer (cf. Jo 20,25.27), tocar é como ver e ouvir. E São João pôde testemunhar: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida” (1Jo 1,1).
Na liturgia, a comunicação por meio do tato aparece em muitos ritos sacramentais: na dedicação de uma igreja, se ungem o altar e as paredes da nova igreja; nas ordenações, o bispo unge as mãos do neo-sacerdote com o óleo do Crisma; a fronte do crismando é ungida com o óleo do Santo Crisma; o altar é beijado, enfim, são muitas as formas de uma comunicação táctil, isso sem falar nos gestos e nas posições do corpo por parte dos fiéis (cf. Sl 47(46),2).

Não é uma questão simplesmente de ver ou ouvir algo bonito, é mais do que isso, é cruzar uma fronteira que vai além dos sentidos e permite-nos entrar com o coração no mistério. É através do olho e do ouvido que a beleza do mistério celebrado chega ao coração, é aí que o orante faz aquela experiência de conversão, de mudança e tudo isso se expressa em gestos e palavras, isto é, através do corpo e da boca. Nossas atitudes externas (em pé, ajoelhar-se, sentar, prostrar, de braços erguidos, palmas etc.) expressam o sentimento do coração, bem como as palavras que pronunciamos com a boca (orações, canções, invocações, louvores), que manifestam a reação de nossa alma.
Gostaria de lhes propor um pensamento sobre os gestos que o povo faz de forma espontânea numa celebração. Já o salmista convidava a assembleia em (Sl 81(80),2-4): “Gritai de alegria ao Deus, nossa força, aclamai ao Deus de Jacó. Elevai a música, soai o tamborim, a harpa melodiosa e a cítara; soai a trombeta pelo novo mês, na lua cheia, no dia da nossa festa.” (Sl 81(80),2-4).
Como falamos anteriormente, isso tudo é uma expressão do que está em nosso interior. Se erguemos os braços, o fazemos como que tentando expandir o nosso corpo, elevando nossas mãos em direção ao Altíssimo (cf. Sl 134(133),2). Este gesto pode ser entendido como um sinal do coração que é elevado a Deus (cf. Lm 3,41). Este é também o sinal do pobre, que reconhece que depende do seu Senhor e a Ele estende suas mãos. Esse gesto não é prescrito na liturgia, mas a tradição popular, a tradição do orante, o consagrou desde os primórdios do cristianismo como um sinal de oração e diálogo com o Pai. Sobre isso nos falam muito os mosaicos antigos que, para representar os cristãos em oração, os representavam com as mãos erguidas.

Tenho certeza de que viver uma celebração em uma assembleia cheia de fervor, que reza acima de tudo, e que, rezando, expressa-se por meio das palavras, do canto e dos gestos, é algo profundamente renovador, uma verdadeira experiência de céu. Em momentos assim, se percebe que não se está assistindo a um culto, e sim participando ativamente, não uma participação passiva, mas uma verdadeira comunhão e unidade. O sacerdote preside, o povo reza e reage com suas emoções, com alegria, júbilo e lágrimas até, mas principalmente com a decisão em aderir àquela chamada de Jesus a cada liturgia: “Segue-me!” Felizes os convidados, feliz de quem se descobriu convidado e não troca essa experiência por nada nessa vida!
Até a próxima semana!
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