Costuma-se dizer que a fé é alcançada através dos sentidos, a liturgia é toda ela sensorial. Permeada por orações, cânticos, silêncio e gestos concretos, como lavar com água as mãos ou derramar água sobre a cabeça de um catecúmeno, ungir com óleo, comunhão com o Pão Eucarístico, a imposição das mãos por parte do sacerdote, as mãos do povo erguidas em louvor e adoração e tantas outras atitudes que cativam os sentidos e levam o homem à oração.
“Dou-te, sem partilha, vida e coração;
Pois de amor me inflamo na contemplação.
Tato e vista falham, bem como o sabor;
Só por meu ouvido tem a fé vigor”.
Santo Tomás de Aquino, no célebre hino Adoro Te Devote, diz que diante do mistério Eucarístico os sentidos falham diante da presença de Jesus na Eucaristia. De fato, aos olhos humanos se vê um pão e vinho, se sentem o sabor e a textura do pão e do vinho. Aos olhos da fé inflamada na contemplação, se vê o Corpo e o Sangue de Jesus. Porém, os sentidos estão muito presentes na vida litúrgica de uma pessoa. Quando o orante reza, ele o faz com todo o seu ser, o corpo, a alma e o espírito se colocam na presença de Deus e expressam essa oração.
“O corpo também «fala», tem a sua linguagem, tanto na vida social como na litúrgica. É a pessoa inteira, desde a sua interioridade e da sua corporeidade, a que se encontra diante de Deus e lhe exprime a sua súplica, o seu louvor ou a sua alegria.” – José Aldazábal.
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‘Nunca vi algo assim na vida!’
Vamos agora fazer um caminho através dos nossos sentidos e ver como cada um deles é alcançado pelos sinais sagrados a cada ação litúrgica. Mas antes eu gostaria de contar-lhes um pequeno testemunho:
Em 2019, eu estava em missão na diocese de Santo Amaro em São Paulo, lá desenvolvemos um trabalho de evangelização num centro universitário católico, a UNIÍTALO. No dia 25 de janeiro desse mesmo ano, organizamos uma missa para comemorar o aniversário dessa instituição. A missa foi muito bela, presidida pelo bispo daquela diocese, Dom José Negri, e concelebrada por vários sacerdotes. A organização da liturgia havia disposto muito bem os ícones, havia flores nobres no altar, o incenso utilizado era muito bom. Os cânticos eram harmoniosos e a assembleia estava muito fervorosa. Ao final da missa, o Chanceler da Universidade me apresentou um rapaz, ele era evangélico, funcionário da instituição e estava lá a serviço. Ele me disse:
“Nunca vi algo assim na minha vida! Eu fiz uma experiência sensorial aqui nesta celebração. Se foi assim pra mim que não posso comungar, eu imagino como deve ser para vocês”.
É a partir desse testemunho, tendo como pano de fundo tudo o que falamos nos artigos passados, que eu gostaria de iniciar com vocês, este caminho, para que se desperte em nós a consciência de que, como dissemos acima, é todo o nosso ser que reza.
O sentido da visão na liturgia
Quando se fala em beleza, tende-se a considerar aquilo que veem os olhos. Nossos olhos enxergam a beleza do céu e de toda a criação, uma imagem, um quadro, uma roupa, uma bela arquitetura… tudo isso envolve o nosso olhar. Nós sabemos que a liturgia é uma celebração do Mistério (cf. CIC 1069-1070), ou seja, uma realidade invisível ao olhar humano.
O aspecto visual pode ser melhor entendido à luz da diferença entre ver, olhar e contemplar. As imagens ou os ícones de uma igreja podem nos levar a conhecer e contemplar as realidades invisíveis a partir do que ensina a tradição e o Magistério da Igreja. Aquele que vê o mistério ali representado é catequizado por ele, a Palavra lhe é anunciada através da visão, então ela começa a se demorar e perceber (olhar) os detalhes, é através da percepção dos detalhes que se abre a porta da contemplação. A iconografia em uma Igreja não pode ser meramente decorativa, mas deve ser ministerial, ou seja, estar a serviço do culto.
Não podemos deixar de falar também da contemplação da beleza através das flores em uma celebração, que adornam o altar e as imagens sagradas, elas celebram a beleza da criação e demonstram a alegria, o louvor e a adoração que se deve dar a Deus. Também da elegância e dignidade dos vasos sagrados, das toalhas, dos castiçais e velas, dos livros… Lembro-me também de Bento XVI, que trazia viva na sua memória a imagem das toalhas do altar da igreja que ele frequentava quando era uma criança. Nós também certamente trazemos à memória imagens que logo despertam o sentido da visão, conduzindo o olhar para uma contemplação do Belo.

O sentido da audição na liturgia
Tomemos então o aspecto da audição: o ouvido é desafiado em sua capacidade de ouvir, escutar e ainda mais, de interiorizar. O som comunica a beleza, e essa entra pelos ouvidos, é escutada e meditada. O orante sabe guardar a Palavra no coração, assim como fazia Maria (cf. Lc 2,19.51). Quantas vezes, ao ouvir um canto em uma de nossas assembleias, não fazemos a experiência de fechar os olhos e exclamar com a alma: “Como é belo!” Quantas vezes também a palavra proclamada nas leituras e orações não nos fez desejar a santidade?
Olhemos um instante para a Liturgia da Palavra, que possui uma potência de beleza particular, pois essa palavra sai da boca do Altíssimo (cf. Eclo 24,3). Nesse rito, não se ouve apenas um som, mas é a voz de Alguém, é a voz de Deus, que está ali e nos fala realmente, “pois é Ele quem fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura.” É essa Palavra que constantemente nos interpela dizendo: Segue-me! Não é algo abstrato ou coletivo, ao contrário, é pessoal. Ele se dirige a mim, faz vibrar as cordas do meu coração e eu posso lhe responder: Eis-me aqui!
Falando da Liturgia da Palavra, ou mesmo da sua proclamação, é importante ressaltar que não é uma leitura qualquer. Não se proclama a Palavra como se lê o texto de um livro de crônicas sociais, por exemplo. É muito importante que se observe o timbre da voz, a pronúncia correta, a pontuação e até a intenção que tem aquela Palavra. Recordemos Jesus que, na sinagoga, ao ao proclamar a palavra, prendeu o olhar de todos sobre ele (cf. Lc 4,20). Mas falaremos disso nos próximos artigos.

Voltemos para o nosso itinerário, pois em se falando da audição tocamos também na voz da Igreja unida em oração, a voz do povo, a voz da Esposa que unida ao Espírito dizem: “Maranata! Vem Senhor Jesus!” (Ap 22,20). As nossas liturgias estão repletas de cânticos, que existem para o louvor de Deus e para acompanhar os atos litúrgicos. Um canto por mais belo e harmonioso que seja, se for executado fora do lugar não nos ajuda a entender e até mesmo a viver a beleza daquele momento particular. Você já parou para pensar em um “canto de aleluia”, em lugar de canto de apresentação das ofertas? Totalmente fora de propósito não é? Daí compreendermos a diferença entre uma ação litúrgica e um show. A propósito disso, nosso Fundador e Moderador Geral, Moysés Azevedo costuma dizer: “Há uma unção para um show e há uma unção diferente para uma missa.”
Tendo percorrido esse caminho até agora, desejo que você participe da missa de uma forma nova, totalmente diferente. Peço ao Espírito Santo, que disponha todo o teu ser para celebrar os mistérios do Senhor.
Até a próxima semana!
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