Formação

Paulo, o perseguidor atingido

O que fazia de Paulo um pregador tão eloquente que o fez semear o Evangelho por quase todo o Império Romano? O que impulsionava esse homem?

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Paulo estava com 28 anos de idade. Tinha poder e prestígio. Em nome do Sinédrio liderava a perseguição contra os cristãos. Pediu licença para segui-los até em Damasco da Síria (cf. At 9,1-2; 26,9-12), a mais de 200 Km de distância. Sete dias de viagem! Enquanto caminhava para lá, de repente, uma luz aparece. Paulo cai e ouve uma voz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). Paulo estava perseguindo a comunidade de cristãos… Jesus se identifica com a comunidade.” (Mesters, 1991: p.24).

São Paulo é para nós um exemplo da ação do Espírito na vida de uma pessoa tocada pela graça da conversão. Ele cumpre em si a palavra de Jesus ao dizer que o Reino dos Céus é dos violentos (cf. Mt 11,12). Claro que essa violência não vem unicamente do esforço humano para vencer as suas barreiras de preconceitos e sofismas são assumidos como verdades absolutas, mas do homem impulsionado pela experiência da verdade que liberta e transforma por inteiro a sua existência.

Quem era Saulo de Tarso? Ele mesmo vai nos dar a sua autobiografia: “… eu, circunciso no oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus; quanto à Lei fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que se encontra na Lei, tornado irrepreensível” (Fl 2,5-6). O que significou para ele o encontro com Cristo? Ter tudo isso como esterco, como lixo em comparação com o bem supremo que é conhecer a Jesus Cristo (cf. Fl 2,7-8).

O que há de mais impressionante que um homem considerar os valores que cultivou durante toda a vida como lixo? Hoje poderíamos taxar facilmente essa atitude como “fanatismo”. Quão facilmente se confunde a radicalidade evangélica com fanatismo! Esta palavra serve às vezes para aliviar as consciências dos tíbios, dos medíocres.

Durante toda a História da Igreja, homens e mulheres destemidos e ousados foram duramente perseguidos por aqueles que não tinham, como eles, a coragem de ser diferentes, de ousar. Mas é claro que isso não se faz simplesmente com coragem humana.

Paulo, homem cheio de si, cheio da razão humana, educado aos pés do grande mestre Gamaliel, seguro de suas convicções; o “inabalável” que deixa-se abalar por uma… visão?! Mas não era só uma visão como tantos dizem ter hoje, era algo mais real que os devaneios dos filósofos, ou a imaginação dos que pensam mudar o mundo pela força da palavra; era algo mais profundo… Paulo conheceu a Cristo, no sentido bíblico da palavra; teve uma real experiência com Aquele a quem perseguia sem saber. Ele achava que perseguia uma seita nova, uma doutrina estranha que manchava a pureza mosaica no meio de Israel e, na verdade, descobriu que perseguia uma Pessoa. Esta Pessoa ele encontrou a caminho de Damasco, foi atingido por sua luz e resolveu que jamais deixaria de persegui-lo até o fim de sua vida.

“Da bondade com que Cristo se compadeceu dele, Paulo recebeu a maior lição da teologia cristã: de nada valem o querer e o correr do homem; a única coisa que importa é a misericórdia de Deus (cf. Rm 9,16).” (Holzner,1994: p.51).

Paulo, o evangelizador

“Nós anunciamos Cristo crucificado que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus quanto gregos é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24). Esse é o conteúdo da pregação de São Paulo, pois sua experiência é a de Cristo ressuscitado que passou pela cruz e traz as marcas gloriosas da paixão como testemunho de seu amor por todos os homens, gentios ou judeus, escravos ou livres, homens ou mulheres, ricos ou pobres… Em Cristo, todos somos eleitos; eleitos pela misericórdia. Esta é a grande verdade que Paulo vai reconhecer, contradizendo todos os seus conceitos de fariseu fervoroso, estrito observante da Lei.

Podemos perguntar: Que método ele usava? O que fazia de Paulo um pregador tão eloquente que o fez semear o Evangelho por quase todo o Império Romano? O que impulsionava esse homem? Parece que nada o fazia parar: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada, naufrágios, açoites, penúria, lutas, prisões, vigílias… A resposta a essas questões já foi dada: o Espírito Santo de Deus! “… a minha palavra e a minha pregação nada tinham dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração feita pelo poder do Espírito, a fim de que a vossa fé não se fundasse na sabedoria dos homens mas no poder de Deus” (1Cor 2,4-5).

Este era o método de São Paulo: a fraqueza para que a fortaleza de Cristo se manifestasse, o poder do Espírito Santo que age nos fracos.
Podemos recordar alguns ensinamentos de Paulo a seus filhos na fé; eles são princípios eternos imutáveis que muito nos falam ainda hoje:

Alegria: “Alegrai-vos no Senhor o tempo todo; eu repito, alegrai-vos.” “Ficai sempre alegres” (Fl 4,4; 1Ts 5,16).

Unidade: “Aplicai-vos a guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” “Pois todos nós fomos batizados em um só Espírito, para formarmos um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou homens livres, e todos nós bebemos de um só Espírito” (Ef 4,3; 1Cor 12, 13).

Oração: “Orai incessantemente.” “Que o Espírito suscite a vossa oração sob todas as suas formas, vossos pedidos, em todas as circunstâncias; empregai as vossas vigílias em uma infatigável intercessão por todos os santos” (1Ts 5,17; Ef 6,18)

Louvor: “Dai graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus.” “Entoai juntos salmos e cânticos inspirados; cantai e celebrai o Senhor de todo o vosso coração. Em todo tempo e a propósito de tudo rendei graças a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5,18; Ef 5,19-20).

Nesses princípios podemos encontrar a força, o encorajamento, o alento de um pai para com seus filhos. Quando os cristãos de todas as épocas lêem essas palavras renovam o seu desejo de viver mais radical e autenticamente sua fé, seu batismo.

Cremos que as palavras de Paulo às suas comunidades não caducaram, ao contrário, estão vivas, cheias de fé, animadas pela esperança e repletas de caridade, que jamais passará. As dificuldades podem ser outras, os motivos de tristeza podem mudar sempre e talvez até aumentar, mas teremos sempre que encontrar motivos para a alegria, motivos e um sentido novo para dar graças em meio às lutas e tribulações do dia a dia.

Aparecerão sempre tentações contra a unidade, contra a caridade fraterna, mas isso faz parte da natureza humana, e, com a graça de Deus, iluminados por sua Palavra que liberta, poderemos sempre superá-las. Ao olharmos as primeiras comunidades, com seus problemas e dificuldades, percebemos que de certa forma não estamos sós, outros que vieram antes de nós sofreram e venceram tudo, eles são para nós conforto e esperança, alegria e certeza que na caminhada chegaremos ao rumo certo da vontade de Deus.

Bibliografia
– Bíblia Sagrada – Ed. TEB
– Holzner, Josef. Paulo de Tarso. São Paulo: Quadrante, 1994.
– Mesters, Carlos. Pulo Apóstolo; um trabalhador que anuncia o Evangelho. 4a Ed. São Paulo: Paulus, 1991.

Padre Leonardo Henrique de Almeida Wagner

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