Formação

Pode alguém se sentir chamado ao celibato nos dias atuais?

Neste mês das vocações, peçamos ao Senhor que envie para a Igreja novas vocações ao celibato, pessoas que reconhecem que são amadas por Deus, que reconhecem esse chamado em suas vidas.

O celibato pelo Reino dos Céus é um chamado feito pelo próprio Deus a homens e mulheres de todos os tempos a viverem um amor total a Ele, e também um amor a todos no amor dEle sem excluir ninguém, sem se deixarem levar por suas preferências ou preconceitos. O celibatário, acima de todos, deve amar como o próprio Jesus nos amou.

Hoje, o mundo pós-moderno parece questionar todos os valores que foram construídos na civilização ocidental: pureza, castidade, verdade, fidelidade, a perpetuidade de uma escolha e muitos outros. A Igreja, e o que ela diz, não é mais o grande referencial da sociedade. Vivemos uma modernidade líquida, como afirma Zigmunt Bauman, onde tudo é efêmero e relativo.

O virgem consagrado é uma pessoa extraída deste mundo, mas que permanece nesse mundo respondendo o seu chamado nele, por isso, traz as marcas deste mundo, pois experimentou dele coisas boas e ruins antes do seu chamado. No entanto, o celibatário muitas vezes parece estar se tornando obsoleto, parece que esta vocação perdeu sua força.

No início do cristianismo, o celibato era visto como um ato de grande sacrifício, mas hoje não é mais assim. Como ser celibatário num mundo tão marcado pelo pecado, pelo individualismo, relativismo e hedonismo?

É necessário tornar a vida consagrada atrativa

Podemos dizer que muitas são as razões pelas quais o celibato pelo Reino dos Céus perdeu sua força, ele não atrai mais os jovens. Raniero Catalamessa vai dizer que é necessário tornar a vida consagrada atrativa mais uma vez “não apesar da virgindade e do celibato, mas por causa deles, ou pelo menos, também por causa deles” [1].

Num mundo consumido pelo prazer nas relações, muitas pessoas se veem incapazes de viver o celibato, pois foram quase “educadas” para uma vida sexualmente ativa e viver o celibato seria quase uma “castração”, uma prisão, uma infelicidade. Muitos vão compreender o celibato pelo Reino dos Céus desta forma porque o veem apenas com um olhar humano e superficial.

Um dos problemas que encontramos aqui é que, muitas vezes, enxergamos este chamado de forma puramente humana e, na verdade, não é assim. São João Paulo II, em suas catequeses sobre a Teologia do Corpo, comenta a passagem de Mateus capítulo 19, 3-12, que fala sobre o celibato, e diz que existe um caráter voluntário que encontramos no “se fizeram eunucos” e um caráter sobrenatural no “para o Reino dos Céus” [2].

O celibato tem um aspecto da vontade, mas que é uma resposta a um chamado de Deus, a um chamado sobrenatural. Podemos dizer, então, que esta vocação é para quem realmente é capaz de compreendê-la, ou seja, é chamado a vivê-la.

Pode ainda uma pessoa se sentir chamado ao celibato?

O celibatário para o Reino dos Céus, quando vive a sua vocação, transparece a alegria de ser chamado, é uma pessoa que, ao contrário do que se possa pensar, não vive na solidão, não é amargurada, não é alguém decepcionado com a vida. São João Paulo II nos diz que essa motivação por ‘amor ao Reino dos Céus’ leva a um regular desenvolvimento da paternidade ou maternidade espiritual, que este enunciado tem um conteúdo adequado, concreto e objetivo [3].

Por ser pai e mãe espiritual, o celibatário não pode, de forma alguma, ser considerado alguém solitário, mas sim alguém que, de alguma forma, compreendeu o mistério da redenção do corpo, do negar-se a si mesmo, do tomar a sua cruz a um ponto tal, que é capaz de renunciar ao desejo de contrair matrimônio e ter uma família, para servir exclusivamente a Deus, encontrando nisto a sua felicidade.

No nosso tempo, marcado pelo individualismo e pela banalização do sexo, pode ainda uma pessoa se sentir chamado ao celibato? Ainda que se sinta, quando se confronta com seus pecados, essa pessoa se vê capaz de corresponder a este chamado? Vivemos, então, um grande confronto interior.

Para viver o celibato verdadeiramente fecundo e feliz, devemos buscar tais meios naturais que favoreçam a saúde mental e espiritual do celibatário. Temos que entender que o celibato não pode ser visto como um heroísmo do espírito e dos sentidos, mas deve ser fruto da certeza de uma experiência de amor recebido do Senhor.

Compartilhar o amor recebido

“Uma genuína opção pelo celibato não deriva, ‘não pode’ derivar, consciente ou inconscientemente, de uma situação de vazio afetivo (a ser preenchido) ou de necessidade psicológica (a ser gratificada), mas ao contrário deriva da consciência de ter recebido um dom, um dom que não é só amor, mas a capacidade de compartilhá-lo. Seria totalmente inautêntica a decisão de abraçar a virgindade por causa do Reino que não nascesse da terra fecunda da gratidão, da consciência psicológica do dom” [4].

O celibatário é aquele que aprendeu a reconhecer este amor em sua vida e reconhece os traços deste amor no seu dia a dia, sabe o que vem deste amor e sabe renunciar ao que não vem deste amor. Neste mês das vocações, peçamos ao Senhor que envie para a Igreja novas vocações ao celibato, pessoas que reconhecem que são amadas por Deus, que reconhecem esse chamado em suas vidas e que estão dispostas a ir na contramão das mentalidades do mundo de hoje para anunciar um amor que não passa.

Por Diácono Neilson Pereira Alves

Referências

1 – CANTALAMESSA, Raniero, Virgindade. Aparecida: Santuário 1995. p. 9.

2 – PAULO II, João. Audiência geral. 17 de março de 1982.

3 – Cf. PAULO II, João. Audiência geral. 14 de abril de 1982.

4 – 108Cf. CENCINI, Amadeo. Com amor: liberdade e maturidade afetiva no celibato consagrado. São Paulo: Paulinas. 1997 p. 46-47.


Comentários

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  1. Boa noite.
    Gostaria que tivessem mais conteúdo sobre o celibato. Algo que motive . Ñ precisa ter um direcionamento só pra pessoas também pode haver um despertar diante de informações.