Igreja

Pontificado do Papa Francisco: As surpresas de Deus, a alegria do Evangelho e a esperança dos povos

7 anos de Pontificado: Confira frases que marcaram os primeiros dias do Papa Francisco

Acontecimentos inéditos

Se voltarmos o nosso olhar para estes 50 anos após o Concilio Vaticano II, e inclusive muito antes deste grande evento eclesial, não podemos menos do que nos maravilhar pela sucessão de pontífices de tão diversas biografias, vindos de tão diferentes contextos culturais, com temperamentos, formação, trajetórias, sensibilidades e estilos tão próprios de cada um.

Tanto é assim, que cada um deles parece ter sido desenhado e definido como a pessoa adequada para responder às exigências e necessidades da missão da Igreja nas variadas conjunturas históricas. É precisamente através de personalidades tão diversas que o Espírito de Deus vai entrelaçando a sólida e irrompível continuidade da grande tradição católica, do patrimônio de fé que vem desde o testemunho dos apóstolos, por meio dos Sucessores de Pedro e, ao mesmo tempo, nos surpreende com a sua novidade dentro de tal continuidade. 

Uma sucessão de santos após Pedro! São João XXIII, o muito prestativo, São Paulo VI, Papa João Paulo I, São João Paulo II, já mais perto de nós, o Papa emérito Bento XVI e o atual Papa Francisco. Antes disso, podemos, com toda razão, expressar a alegria e gratidão com a qual o Papa Francisco intitula a sua recente Exortação Apostólica sobre a santidade: “Gaudete et Exultate”. No entanto, o demônio, que é príncipe da divisão e da mentira, manipula os pobres diabos que pretendem se opor, inclusive contrapor aos sucessivos papas entre si. Não tolera que reine um Espírito que enriquece sempre a unidade a diversidade.

São João Paulo II

Eu lembro bem a surpresa ante a novidade do primeiro Papa não italiano no decorrer dos séculos. Os pobres diabos chamavam ironicamente a Karol Wojtyla de “o Papa polonês”, mas os que confiaram verdadeiramente na ação do Espírito se importaram em conhecê-lo melhor, conhecer sua biografia, sua formação, a Igreja e a nação que o forjaram, sua intervenção no Concílio Vaticano II e sua obra como arcebispo de Cracóvia. Conhecer melhor para entrar em maior comunhão afetiva e efetiva com o novo Pontífice.

Lembro com muitos de vocês, o quanto lhe devemos ao Centro de Estudos da Europa Oriental e ao Padre Francesco Ricci, a Rocco Buttiglione sobre o “pensamento de Karol Wojtila”, os quais nos introduziram na história de Polônia, de seus grandes prelados, poetas e teólogos.

Papa Francisco

Novidade ainda maior foi a eleição de Jorge Mario Bergoglio. O Papa saia pela primeira vez do círculo cultural europeu. Filho da tradição católica inculturada na história e na vida dos povos latino-americanos, ali onde moram quase o 50% dos católicos do mundo todo. Filho de uma Igreja, de um povo, embora tudo que viveu de forma fecunda e tumultuosa, a renovação provocada pelo Concílio Vaticano II, para o serviço de seus povos e que foi capaz de tempos de discernimento e sedimentação, até a sua maturidade expressa na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Aparecida. Passagem pela qual a Providência conduziu a Jorge Mario Bergoglio à Sé de Pedro. Por isso existe um fio condutor entre o documento de Aparecida e a Exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’, que é o documento programático que preside estes cinco anos de pontificado[1].

Um católico “porteño”, tão “porteño”! Um católico argentino e tão argentino! Um católico latino-americano e tão latino-americano! Um católico jesuíta e tão jesuíta! Chamado a ser Pastor Universal. Só se alcança a universalidade a partir da própria particularidade. Se tivermos presente que os países com maior número de católicos batizados são Brasil e México, seguidos pelas Filipinas e os Estados Unidos, e que dentro de poucos anos Congo, Colômbia, Argentina, inclusive Nigéria, vão superar os países europeus, onde só Itália resiste; podemos dizer que as periferias eclesiásticas estão em irrupção na catolicidade. Há todo um despontar e enriquecimento da sua unidade através das mais variadas formas de inculturação da fé na vida dos povos. Isto desconcerta muito a quem se aferra a considerar a fé católica apenas em padrões eurocêntricos.

Devemos agradecer a Austen Ivereigh e a Massimo Borghese que, no dilúvio de livros escritos sobre o pontificado atual, tem nos ajudado a conhecê-lo melhor. Estamos, portanto, felizes e orgulhosos como latino-americanos, mas além de certas euforias latino-americanas, lembro-me sempre do que meu professor e amigo Alberto Methol Ferré repetia ao alertar que “enquanto ainda queimam as brasas do que foi o grande incêndio da tradição católica europeia, nós latino-americanos estamos apenas acendendo os fósforos”. Nossas Igrejas estão à altura da tarefa em que a Providência de Deus as colocou?

O Papa Francisco é um verdadeiro latino-americano, mas ao mesmo tempo se poderia dizer que é um europeu, por ser filho de migrantes piemonteses; porque encontra as suas raízes nas expansões da cristandade europeia, porque é cidadão daquele “extremo ocidente” que é a América-latina; porque, sobretudo, formado pelos autores e pelas escolas de pensamento católico europeu que foram tão importantes para os conteúdos do ensinamento do Concílio Vaticano II; e porque foi arcebispo de uma grande metrópole, a mais europeizada, de toda a América-latina. Por isso podemos afirmar que é precisamente em tempos de certa esterilidade europeia — esterilidade demográfica, cultural e política — que aquela grande herança comunicada à América-latina, se apresenta hoje com um novo rosto e interpela à tradição, à cultura, a vida dos europeus e, especialmente, à Igreja na Europa.

Acredito que nesta relação euro-latino-americana vive atualmente o desafio e o eixo portador da catolicidade, enquanto a Igreja dos Estados Unidos parece ser atualmente de grande vitalidade, no entanto ainda um pouco provinciana e muito jovem e apesar do crescimento intenso, a Igreja da África e de alguns países asiáticos.

Características do seu pontificado

Permitam-me, para concluir, sublinhar muito sinteticamente, alguns traços distintivos do pontificado do Papa Francisco, que são dons do Espírito Santo para a Igreja e para o mundo contemporâneo. Digo, em primeiro lugar, que este pontificado nos mergulhou pedagogicamente no mistério da Misericórdia. É claro que este atributo inaudito de Deus, que é o centro do desenho de salvação, tenha sido considerado pelos pontífices precedentes, porém, nunca como hoje parece tão claro que a misericórdia é a modalidade adequada de viver e de transmitir o cristianismo.

Viver de misericórdia

Viver a misericórdia, pois sabemos da miséria que carregamos nós, cristãos, junto com a graça batismal; sabemos, como dizia o apóstolo Paulo, que fomos tratados com misericórdia. Viver a misericórdia no meio de nós, porque para ser dignas testemunhas dela, este pontificado nos chama com força e ao mesmo tempo com certa rudeza, a uma conversão, por um renovado encontro com Cristo, deixando penetrar nossa vida com seu evangelho, mais afiada que espada de dois gumes, para deixar atrás o nosso aburguesamento mundano, virando verdadeiros discípulos-missionários do Senhor;  de transmitir a misericórdia, com compaixão e ternura, a uma humanidade ferida, abraçando-a inclusive nas suas misérias (mas não às suas misérias), como modalidade de andar ao encontro dos homens e mulheres de nosso tempo, tão frequentemente afastados da igreja, sem excluir ninguém — porque o amor de Deus não exclui ninguém —  sem pôr pré-condicionamentos morais para esse encontro.

Francisco tem a convicção de que só a proximidade desse amor misericordioso rompe preconceitos e resistências, e leva consigo uma atração, abre os corações, dá espaço a diálogos verdadeiros, permite autênticos intercâmbios de humanidade, suscita perguntas esperanças prepara para o anúncio e a acolhida do Evangelho.

Conversão Pastoral

Um segundo dom do atual pontificado é o seu forte apelo a uma “conversão pastoral”, entendida como reforma “in capite e in membris”, para que a Igreja seja e se apresente cada vez mais fiel ao seu Senhor. Daí, ressaltar que a conversão pastoral implica, em primeiro lugar, à conversão dos pastores. Não é o Papa Francisco que pede e vive a “conversão do papado” e mostra o que espera dos pastores como homens de oração e de proximidade misericordiosa, solidária e missionária com o povo a eles confiado? As situações mais do que sofridas vividas na Igreja, que envolveram bispos e sacerdotes, têm raízes distantes; poderiam ser encontradas na primeira fase do período pós-conciliar e chegaram ao pontificado do Papa Ratzinger e de Bergoglio, ferindo profundamente a credibilidade da Igreja.

Talvez a Providência de Deus queira que passemos por este difícil período de provação para suscitar uma grande purificação da Sua Igreja. Mas, ao mesmo tempo, os grandes poderes, que são sempre discretos, mas muito ativos e com meios poderosos, servem-se de fariseus e inquisidores, daqueles que odeiam a Igreja, para jogar lenha na fogueira.  Estou convencido de que não se tolera que, apesar de todas as nossas misérias, a Igreja Católica seja a alternativa indomável de salvação do que é humano, que permanece dentro de um mundo controlado por poderes cada vez mais desumanos.

Guzmán M. Carriquiry Lecour 
Ex-Secretário com função de Vice-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina

Tradução: Esteban Gómez e Padre João Wilkes

[1] Agora sete, no momento de tradução.


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