Formação

Quem é Karol Józef Wojtyla, ou São João Paulo II?

Confira, a seguir, aspectos importantes da pessoa de Karol Josef Wojtyla através de elementos biográficos. Sua personalidade foi permeada de valores evangélicos, patrióticos e intelectuais.

Quem é Karol Józef Wojtyla ou São João Paulo II?

Karol Józef Wojtyla nasceu em 18 de maio de 1920 em Wadowice – uma pequena cidade da Polônia – e é o terceiro filho concebido do casal Karol e Emília Wojtyla. Seu pai era um militar. Sua mãe, de saúde frágil, viera a falecer em 1929.

Seu irmão mais velho, Edmund Wojtyla, formado em medicina, começou a exercer a sua profissão aos 25 anos de idade, mas viera falecer após contrair escarlatina de um de seus pacientes ainda no início da sua carreira, em dezembro de 1932. Sua irmã, Olga Wojtyla, veio a falecer no parto, uma gravidez anterior a que Karol fora concebido.

Patriotismo

Depois de ter perdido a mãe e o irmão mais velho em períodos tão próximos, o jovem Karol cresce à forte influência do “capitão” Wojtyla. Seu pai foi o responsável por formá-lo, dedicando-se a ele de maneira exclusiva e passando os valores patrióticos, religiosos e espirituais, sendo para seu filho também uma referência de disciplina e responsabilidade.

Acerca desta relação, dedica algumas páginas o biógrafo Bernard Lecomte e conjunta elementos preciosos que permitem inferir a origem de muitos traços da personalidade do líder religioso. Sobre a influência paterna, escreve Lecomte (2005, p. 37):

Educação e oração, jogos e disciplina, moral e devoções. Lolek não recebeu uma educação banal. Por um lado, foi particularmente bem criado por esse pai exigente e disponível que lhe ofereceu uma educação estrita, inculcou-lhe princípios morais elevados, transmitiu-lhe uma fé profunda. Por outro, reverso do luto por que foi atingido mais de uma vez, o pequeno Karol terá vivido a infância e a adolescência num contexto relativamente confortável e superprotegido, quase “estéril” no sentido medicinal do termo. […]

Seu pai foi ainda, como já dito, o responsável por semear e cultivar o amor pela cultura polonesa e pela nação. Este valor enraizado em sua pessoa esteve visível durante toda a sua vida e de modo específico se manifestou diante do mundo inteiro durante o seu pontificado: em seus discursos, em sua posição de defesa da integridade das nações, e em suas oito viagens à Polônia, sendo a última datada ao ano de 2002, três anos antes de seu falecimento.

No colóquio Memória e Identidade, o papa manifesta o amadurecido espírito patriótico: 

Patriotismo significa amor a tudo o que faz parte da pátria: a sua história, as suas tradições, a sua língua, a sua própria configuração natural; um tal amor estende-se também às obras dos nossos concidadãos e aos frutos do seu gênio. Qualquer perigo que ameace este grande bem que é a pátria é ocasião para testar um tal amor. A nossa história ensina que os poloneses sempre foram capazes de grandes sacrifícios para preservar este bem ou para reconquistá-lo; testemunho disso mesmo são os numerosos túmulos de soldados que lutaram pela Polônia em várias frentes de batalha no mundo, encontrando-se eles espalhados tanto na pátria como fora das suas fronteiras. Mas creio que esta seja a experiência de todo o país e nação na Europa e no mundo. (JOÃO PAULO II, 2005, p. 78 – 79).

Liberdade – uma contínua conquista

Por ocasião das tensões referentes as atividades alemãs, que mais tarde se desdobrariam numa invasão violenta ao seu país, marcando o início da Segunda Guerra Mundial, o jovem Wojtyla, que havia se apresentado ao serviço militar em conjunto com os jovens de sua idade, precisou se mostrar mais solícito do que a formalidade do rito de passagem para a idade adulta, tendo um treinamento mais robusto, movido pela prudência diante dos acordos ambíguos e imprevisíveis de Adolf Hitler (LECOMTE, 2005, p. 57).

Vê-se disposto, assim como seu pai há alguns anos, a provar aquele amor, que mais tarde viria exteriorizar em palavras, com as vestes brancas da liderança universal que o Ministério Petrino configura. Wojtyla tornou-se o mais importante representante de uma fé de amplitude internacional, mas a sua alma tinha uma identidade. Esta, por sua vez, não causou divisões interiores, nem conflitos frente à sua missão, mas o confirmou diante de sua responsabilidade singular dentro do mundo católico.

Ainda sobre a sua educação, o jovem Karol mostrava-se um bom aluno. A disciplina que permeava as suas atividades o confirmava como um jovem centrado e capaz de administrar bem o seu tempo com seriedade, dando espaço à vida espiritual, estudos, descanso e distrações.

Mais tarde, ele se matricula na Universidade Jagellonica localizada em Cracóvia, em “polonistika” (língua, literatura e filologia polonesa). O amor pela língua o confirmou no rumo do teatro. Entretanto, a invasão da Polônia pelos nazistas e a Segunda Guerra Mundial mudaram os seus planos. Em seu segundo ano como universitário, acontece o fechamento da Universidade. Este evento foi marcado por uma intervenção daqueles que ocupavam o território polonês, os alemães:

[…] três dias antes do reinício oficial do ano letivo, marcado para 6 de novembro, um certo Obersturmbannführer Müller anuncia que nesse dia fará uma conferência sobre “o Terceiro Reich e a ciência”, solicitando insistentemente que seja convidado o maior número possível de professores da Jagellona. Chegado o dia, quando soam as doze badaladas do meio-dia na Igreja de Santa Ana, cerca de 200 convidados se acotovelam na sala 22 para ouvir o orador. O conferencista sobe à tribuna. Surpresa: vem acompanhado por dez oficiais das SS armados até os dentes. Ele vai logo acusando a universidade de ser um antro de “propaganda antigermânica” e anuncia seu iminente fechamento. Todos os presentes encontram-se detidos. Outros soldados das SS aparecem, bloqueiam as saídas e imediatamente deportam os 183 presentes para o campo de concentração de Sachsenhausen-Oraniemburgo. (LECOMTE, 2005, p. 73)

Estes 183 são parte da elite intelectual do país. Os que voltaram vivos do campo de concentração se encontravam em condições lastimáveis. É comum que, nestes casos, os que tomam o poder de modo ilegítimo realizem aquilo que atualmente é nomeado como “genocídio cultural”: são destruídas as bibliotecas e são mortos os intelectuais. A arte, os artistas, o teatro, o saber e os pensadores, enfim: tudo que reserva uma cultura é suplantado.

Contudo, o povo polonês tinha vivo na memória o valor da liberdade. Sua independência recuperada em 1918, tão recente, não tornou esquecida a resistência dessa nação. Alguns ergueram as armas; outros, a palavra. E há uma palavra que definiria a condição formativa dos jovens poloneses nos anos seguintes, após o início da Segunda Guerra, uma vez que era necessário semear a cultura: o clandestino.

O teatro, as aulas de filologia e de história, os livros salvaguardados durante a ocupação, ganharam novo espaço: os porões. Era essa a forma de resistência daqueles que compactuavam com o gênio de Wojtyla: a resistência da palavra. Mieczyslaw Kotlarczyk, um professor de língua polonesa e companheiro das artes, sonhava em retomar às atividades com uma companhia de teatro cujo nome era “Teatro da Palavra Viva” ou ainda, “Teatro Rapsódico” (“Teatr Rapsodiczny”), para barrar o empenho atroz de “despolonização” por parte dos alemães.

Wojtyla tinha em sua pessoa as raízes de sua cultura. A palavra era uma arma que ele bem sabia manusear. E evocar o valor da liberdade era uma especialidade sua desde muito cedo. Sua produção filosófica, teológica, literária e poética tem a liberdade como tema transversal. Sua paixão pelas questões humanas implicaria isto, afinal, em tudo o que é humano está impresso a liberdade.

Em Memória e Identidade, o papa João Paulo II (2005, p. 87 – 88) cita trechos de uma poesia autoral de sua juventude cujo título é Pensando Pátria: 

A liberdade – uma continua conquista.
Não pode ser apenas uma posse!
Vem como um dom, mas conserva-se por meio da luta.
Dom e luta estão ambos inscritos em cartas secretas e todavia claras.
A liberdade, tu a pagas com todo o teu ser – por isso chama-se liberdade
Aquela que, enquanto a pagas, permite possuir-te sempre de novo.
Por este preço, entramos na história, tocamos as suas épocas.
Por onde passa a divisória entre gerações
que não pagaram o suficiente e gerações que pagaram demasiado?
Nós, de que lado estamos?

A pedreira

A Polônia estava dividida entre o Reich e o Governo-Geral, que tinha como capital a Cracóvia. Hans Frank fora designado por Hitler para governar esta região e tinha “como missão transformar essa vasta zona num reservatório de mão-de-obra, de escravos a serviço da raça superior” (LECOMTE, 2005, p. 74). Ordenou o trabalho obrigatório para todos os poloneses com idade entre 18 e 60 anos. Para evitar o risco de deportação para Alemanha, “em Cracóvia, todos devem imperativamente justificar o emprego para receber uma Arbeitskarte (carteira de trabalho) […], onde a indústria de guerra carece de braços” (LECOMTE, 2005, p.78). Em Don y mistério o papa Juan Pablo II (1996, p. 4) testemunha que começou a trabalhar como obreiro numa pedreira ligada à fábrica de produtos químicos Solvay que se localizava em Zacrzówek, a meia hora de sua residência em Debniki. Na mesma ocasião expressa que “pelo trabalho manual sabia bem o que significava o cansaço físico (JUAN PABLO II, 1996, p. 8).

As raízes espirituais

No período em que trabalhava na pedreira, seu pai viera a falecer. Era 18 de fevereiro de 1941. O papa João Paulo II, em 1996, nas circunstâncias em que se celebravam as suas bodas de ouro sacerdotais, testemunhou desprendido de formalidade a história da sua vocação. Suas palavras foram documentadas sob o título Don y Misterio. Nesse texto, ele expressa a influência doméstica no desenvolvimento da sua espiritualidade e destaca a presença do seu pai como chama acesa de piedade.

Segundo o papa, seu pai “era um homem profundamente religioso”. Como sua mãe e seu irmão faleceram quando ele era ainda muito jovem, seu pai foi uma referência direta em muitos aspectos da sua alma polonesa. Um deles foi a espiritualidade. “Eu podia diariamente observar sua vida, que era muito austera” – disse o Sumo Pontífice. A verdade é que esta disciplina inflexível condicionava aquele homem de idade avançada e hábitos militares a dobrar seus joelhos, e não hesitar na vida de oração: “Às vezes, acordei à noite e encontrei meu pai ajoelhado, como eu sempre o via na igreja da paróquia” – recorda João Paulo II(1996, p. 7). 

Em Cruzando o Limiar da Esperança escreve o polonês em memória afetuosa de sua infância: “Lembro que, certo dia, meu pai me deu um livro de orações em que havia a oração ao Espirito Santo. Disse-me para rezá-la diariamente. É o que procuro fazer, desde aquele dia” (JOÃO PAULO II, 1994, p. 139).

Jan Tyranowki e São João da Cruz

Após a morte do seu pai, Wojtyla conhece um leigo piedoso chamado Jan Tyranowski. Tornam-se amigos influentes. Segundo Bernard Lecomte (2005, p. 103), durante os seus encontros, Tyranowski empresta livros a Karol e o apresenta “os místicos do Carmelo”: Santa Tereza d’Ávila, Santa Terezinha do Menino Jesus e “sobretudo, acima de todos os outros, São João da Cruz”, enfatiza o biógrafo. A espiritualidade deste santo é um verdadeiro divisor de águas na vida de Karol, que um dia também seria elevado aos altares da Igreja.

A doutrina de São João da Cruz marcou não somente a espiritualidade de Wojtyla, mas também o seu trajeto intelectual. Sete anos após este primeiro contato com as obras do místico espanhol, na Universidade de Santo Tomás, em Roma, Karol Wojtyla, tendo como orientador Réginald Garrigou-Lagrange, defendeu a tese de doutorado A doutrina da fé segundo São João da Cruz (SILVA, 2001, p. 19).

O Bispo de Roma contou suas impressões sobre o amigo Tyranowski e sobre a iniciação às leituras das obras de João da Cruz:

[…] Antes de entrar no seminário, encontrei um leigo de nome Jan Tyranowski, que era um autêntico místico. Aquele homem, que considero um santo, “apresentou-me” aos grandes místicos espanhóis e, de modo particular, a São João da Cruz. Antes mesmo de entrar no seminário ocultamente, lia as obras daquele místico, especialmente as poesias. Para poder fazê-lo na edição original, estudei a língua espanhola. Aquela foi uma etapa muito importante na minha vida (JOÃO PAULO II, 1994, p. 139 – 140).

Não é de surpreender que aquele jovem poliglota empreendesse tal esforço para ler as obras no original. Wojtyla sabia que as palavras transmitem o espírito de suas fontes e desviar do caminho da originalidade é arriscar o acesso a esse espírito.

Tyranowski é um nome que se repete em seus testemunhos autobiográficos, como, por exemplo, em entrevista ao seu amigo André Frossard (1988, p. 21): “um homem muito simples”, disse-lhe o papa, “um desses santos desconhecidos, escondidos no meio dos outros como uma luz maravilhosa no fundo da vida, numa profundeza em que geralmente reina a noite”

Essa amizade foi um sustentáculo, uma ação da Providência naquele período descolorido do domínio alemão: estava difícil encontrar Deus na Polônia. Jan Tyranowski, unido à escola mística do Carmelo, apontou a direção, primeiramente com a própria vida e com a marcante espiritualidade de São João da Cruz: Deus estava dentro. Em gratidão, disse ainda: “devo ao admirável desconhecido de quem acabo de evocar a lembrança a revelação de um universo” – confessou-lhe o Santo Padre.

A vocação sacerdotal

A despeito de todas as fichas voltadas para uma carreira artística, não se pode dizer que a vida de Karol Wojtyla fosse privada de apostas para o sacerdócio, como ele mesmo confessou sobre as aspirações de sua mãe para Frossard (1988, p. 16): “Ela queria dois filhos, um médico, outro padre. Meu irmão era médico, e, apesar de tudo, eu me tornei padre”. Em Don y mistério, o papa relata, às primeiras páginas, o processo de amadurecimento da sua vocação. Ao tratar sobre os primeiros sinais desta, assim está: “[…] a vocação sacerdotal não estava ainda madura, apesar de que ao meu redor eram muitos os que acreditavam que eu devia entrar no seminário” (JOÃO PAULO II, 1996, p. 2).

Naquele contexto de opressão, o estado de espírito dos poloneses era de resistência. E esta se manifestava em Karol pela palavra artística do teatro e pela literatura. O jovem de vinte anos gritava a sua cultura no silêncio dos porões pela salvaguarda da palavra. Palavra que apesar de sutil, ganhava força e vida em seu espírito. Todos apostavam que depois de tudo aquilo, quando aquele terror passasse, Karol seguiria neste caminho da literatura e das artes com sucesso, e ele mesmo sonhava com isso mais do que qualquer um. Ora, acreditar que aquela situação iria mudar, manifesta, ainda que discretamente, outro elemento de resistência presente no espírito daquele povo padecente: a fé.

O amadurecimento definitivo de minha vocação sacerdotal […] teve lugar no período da segunda guerra mundial, durante a ocupação nazista. Foi uma simples coincidência temporal ou havia um sentido mais profundo entre o que amadurecia dentro de mim e o contexto histórico? É difícil responder a tal pergunta. É certo que nos planos de Deus nada é casual. O que posso afirmar é que a tragédia da guerra deu um tom particular ao processo de amadurecimento de minha opção de vida. Ajudou-me a enxergar, partindo de uma nova perspectiva, o valor e a importância da vocação. Frente a difusão do mal e as atrocidades da guerra, era cada vez mais claro para mim o sentido do sacerdócio e de sua missão no mundo. (JUAN PABLO II, 1996, p. 12)

No meio das trevas abissais daquele resto de vida polonesa, a fé permitiu que ele despertasse para uma aurora interior. Não se tratava de um devaneio. Não era uma fuga, mas um encontro. O horizonte da vida de Karol Wojtyla assumia então um sentido pastoral:

[…] em minha consciência então se manifestava cada vez mais uma luz: o Senhor quer que eu seja sacerdote. Um dia percebi com muita clareza: era como uma iluminação interior que trazia consigo a alegria e a firmeza de uma nova vocação. E esta consciência me encheu de grande paz interior (JUAN PABLO II, 1996, p. 13).

É pertinente falar de fé para apresentar a pessoa de Karol Wojtyla. Não basta “pincelar” sobre a sua religiosidade. Todos sabem que ele foi um homem religioso. Para ir mais além, faz-se oportuno reconhecer sobre a sua espiritualidade, que consistia principalmente em seu amor a Jesus Cristo e a Virgem Maria, mas também em seu amor pelo que é humano.

Observa bem o elemento basilar da espiritualidade do polonês o biógrafo Andrea Riccardi (2011, p. 101): “Karol Wojtyła é um intelectual com uma curiosidade intensa pelo mundo, pelas leituras e pelos encontros. O substrato profundo da sua visão do mundo é tecido de oração, de liturgia e de familiaridade com a Bíblia, que formam a sua espiritualidade e a sua cultura e afloram como referências essenciais”. 

Sua paixão pelo que constitui a natureza humana, por um lado manifesta-se em sua paixão pela literatura e em seu desenvolvimento filosófico e teológico; e, por outro lado, em seu sentido transcendente de viver, que se concretizava em suas atividades pastorais.

Em seu livro-entrevista a Vittorio Missori, confessou: 

[…] O que sempre me apaixonou foi o ser humano: quando estudava na Faculdade de Letras, interessava-me enquanto artífice da língua e objeto da literatura; em seguida, quando descobri a vocação sacerdotal, comecei a ocupar-me dele como tema central da atividade pastoral” (JOÃO PAULO II, 1994, p. 185).

O seminário clandestino e o fim da Segunda Guerra

Em 1942, o jovem vocacionado se decide pelo ingresso no seminário de Cracóvia. E, obviamente, como toda a resistência polonesa, este caminho formativo também seria discreto. Como expressou Frossard (1988, p. 19), com ironia tardia, “se o invasor nazista fechava as universidades, não era para abrir seminários”.

Durante a ocupação alemã, o Cardeal Adam Stefan Sapieha, então Arcebispo Metropolitano de Cracóvia, abriu o seminário clandestino em sua própria residência. A sua coragem e responsabilidade eram virtudes que geraram admiração em Karol. O Bispo de Roma relevou mais tarde o grande risco que essa atividade representava para a Igreja resistente no país e à vida dos envolvidos, uma vez que o espírito do invasor era de repressão (JUAN PABLO II, 1996, p. 5). 

Em 18 de Janeiro de 1945, durante a noite, o Exército Vermelho se aproximou dos arredores da capital polonesa para atacar. Para fugir, os alemães explodiram a ponte de Debniki. Os seminaristas estavam no Palácio Episcopal unidos ao Arcebispo em uma celebração, quando o impacto comprometeu as estruturas vitrais da residência de Sapieha. A Polônia estava livre dos nazistas, mas Wojtyla desconfiava desta liberdade patente a presença do Exército Vermelho. 

Os alemães se foram, mas deixaram uma marca de morte e destruição. O mal assumiu outro aspecto e a Polônia estaria, a partir de então, à sombra de outra ideologia totalitária: o comunismo soviético.

O padre Karol e a sua missão

Em 1° de novembro de 1946, Karol Wojtyla foi ordenado sacerdote com seis meses de antecipação. O cardeal Sapieha tinha pressa. Qual seria o motivo? A independência conquistada em 1918 reservou à Igreja local apenas 20 anos de liberdade.

Com a Segunda Guerra, a Igreja polonesa perdera 25% de seu clero. Dentro deste número, 6 bispos. Enquanto um quinto dos templos havia de ser reconstruído ou restaurado (RICCARDI, 2011, p. 94). Sapieha convivia com um curto horizonte de vida, mas a sua projeção se lançava para além do que os seus olhos haveriam de ver: ele tinha planos para a Igreja polonesa e Wojtyla haveria de assumir papel importante nesses planos.

[…] Em cinco anos de ocupação, violências e destruição, todos os esforços realizados em vinte anos foram reduzidos a zero. E não só por causa dos milhares de padres vítimas da guerra. Conventos e seminários, movimentos de ação católica, editoras, imprensa confessional, ensino, organismos caritativos: em 1945-1946, tudo precisa ser reconstruído. A prioridade máxima é fornecer pastores o mais rápido possível a uma população mortificada. Wojtyla, naturalmente, seria um deles. (LECOMTE, 2005, p. 119)

Sapieha tinha planos de enviar o jovem para Roma assim que fosse ordenado, lá ele prosseguiria os seus estudos. A Igreja precisava de pastores, mas estes deveriam estar bem preparados. No dia 26 do mesmo mês, o Padre Karol matricula-se no curso de Licenciatura do Pontificium Institutum Angelicum de Urbe. Ali ele é assistido por intelectuais considerados relevantes internacionalmente.

Entre eles, está a figura sobreposta do teólogo francês Réginald Garrigou-Lagrange, que dentre as suas virtudes intelectuais se destaca com a profundidade no pensamento de São Tomás de Aquino, que encontraria lugar basilar no pensamento filosófico de Wojtyla. Garrigou-Lagrange fora o seu orientador durante a elaboração de sua tese em Teologia, defendida em 1948.

Em 1947, Karol retorna à Polônia para exercer atividades pastorais em Niegowice, uma paróquia rural onde permaneceu pouco mais de um ano. Como presbítero, permanece ao menos 3 anos em uma outra paróquia. Há a necessidade de um diálogo com a ideologia crescente no país, e o Padre Karol é a pessoa mais adequada para a missão entre os jovens universitários.

O discurso marxista que ecoava então pelo país intrigava e encantava. Deste modo, Sapieha realiza o retorno de Karol a Cracóvia e confia a paróquia de São Floriano ao seu presbiterado. Apesar de não ser a paróquia universitária, mas sim a Igreja de Santa Ana, confiada ao padre Jan Pietraszko, o número de universitários naquele período de reconstrução era muito grande, demandando o auxílio à pastoral da juventude, prestado pela Igreja de São Floriano.

Doutor em Teologia e Filosofia

Na formação intelectual de Wojtyla, há ainda uma figura muito importante: o padre Ignacy Rozycki. Wojtyla defendeu a sua tese de doutorado em teologia em 1948: Doctrina de fide apud S. Joannem de Cruce (A doutrina da fé segundo São João da Cruz). Em 19 de Junho daquele mesmo ano, concluíra, assim, seu doutorado no Angelicum com caráter de excelência. Vimos anteriormente que o contato com a doutrina de São João da Cruz foi proporcionado pelo seu amigo Jan Tyranowski.

Em 23 de Junho de 1951, o cardeal Arcebispo Sapieha falece. Dias depois do seu memorável funeral, o padre Rozycki, pondo em prática os planos do falecido príncipe, procura o monsenhor Eugeniusz Baziak, eleito para a administração interina da arquidiocese, para tratar de suas intenções. O padre Rozycki, por sua vez, recebe o padre Karol em sua residência após este ter recebido dispensa de Dom Baziak das suas atividades na paróquia de São Floriano.

Qual o motivo da dispensa? Os estudos.

Narra Lecomte (2005, p. 143) que “seu anfitrião cede-lhe um aposento escuro, que logo se enche de livros e papéis. Entre eles, as obras completas – em alemão – do filósofo Max Scheler”. Destes estudos, o fruto: uma tese filosófica cujo título era Avaliação sobre a possibilidade de construir a ética cristã sobre as bases do sistema de Max Scheler, defendida em 1954 e publicada em 1959 com o título Max Scheler e a ética cristã.

Estes estudos sobre o pensamento personalista de Scheler marcaram o pensamento de Karol Wojtyla. Foi este contato que o inseriu na corrente contemporânea do personalismo filosófico. E assim, sobre sua precedente formação aristotélico-tomista se enxertava o método fenomenológico (JUAN PABLO II, 1996, p. 32). 

Padre Karol e os jovens

Karol Wojtyla mantinha um contato muito próximo com os jovens. Além dos trabalhos pastorais em São Floriano, ele prestava colaborações intelectuais em sua querida Universidade de Jagellona. As suas homilias, pregações em retiros espirituais e a sua dedicação às confissões atraíam o coração dos jovens: o cardeal Sapieha não havia errado em seus planos. Com eles, Karol desenvolveu ainda exercícios de canto gregoriano, firmando um compromisso com jovens, rapazes e moças para ensaios em corais e atividades campais.

O jovem padre iniciou caminhadas e acampamentos nas montanhas, passeios em canoa e caiaque. Nem tudo saia da cabeça do padre Karol, os jovens também estavam inspirados: a natureza e a amizade inspirava a todos eles. Essas aventuras proporcionavam meditações e fomentavam espiritualidade. Acordavam cedo durante os acampamentos e se preparavam para a missa ao ar livre. “O altar é um caiaque emborcado, dois remos cruzados servem de crucifixo” (LECOMTE, 2005, p. 147).

O ritmo das aventuras formou um esportista e ele não abandonou mais esse estilo de vida: mesmo após a sua eleição para ser papa, não o deixou. O contato com os jovens lhe rendeu um apelido que durou: “Wuj Karol” (Tio Karol). A Frossard (1988, p. 18) diria: “[…] Minha qualidade de padre jamais me separou deles; ao contrário, deles me aproximou e me ajudou a compreendê-los melhor”.

Professor

Em 1954, Padre Karol começou a ensinar ética social no seminário, uma vez que a Faculdade de Teologia da Universidade de Jagellônica fora fechada pelas autoridades comunistas. Mais uma vez, a palavra teria que encontrar cultivo na clandestinidade: […] os professores e alunos – quase todos católicos e anti-comunistas – não se dão por vencidos. Nesse outono de 1954, as aulas são retomadas na clandestinidade, em residências particulares, em conventos, como havia acontecido durante a ocupação nazista. A Polônia é a Polônia. […] (LECOMTE, 2005, p. 160).

E mais uma vez, se manifesta o patriotismo do povo polonês. Neste mesmo ano, a Universidade Católica de Lublin também sofrera às investidas dos comunistas. Sobre esta investidura, Barnard Lecomte (2005, p. 160) expõe sobre a prisão do reitor, demissão de professores, ameaça aos alunos e fechamento da faculdade de direito.

Por esperteza do corpo docente, a resposta diante da investida adversária é a criação de uma faculdade de filosofia. O padre Karol então é chamado a lecionar como professor substituto em Lublin. Esta era uma cidade universitária e apesar de se encontrar a 340 km da capital polonesa, Karol prefere continuar residindo ali, de modo que se fazia necessário realizar, com frequência, viagens de ida e de retorno para a ministração de cursos.

Episcopado

Durante às férias de 1958, o Padre Karol estava com os jovens em suas aventuras campais, quando foi chamado pelo primaz polonês, o cardeal Stefan Wyszynski, à Varsóvia. Às pressas, ele se dirige à cidade para receber uma notícia importante: por indicação de Dom Eugeniusz Baziak, aquele que sucedera Stefan Sapieha na administração da arquidiocese de Cracóvia, Pio XII o nomeia para o Ministério Episcopal.

Era algo imprevisível por sua idade. Aos 38 anos de idade, Wojtyla não estava nas listas para nomeação.

Cinco anos depois, no dia 30 de dezembro de 1963, ele recebe uma ligação do papa Paulo VI, que lhe noticia a sua nomeação como arcebispo metropolitano de Cracóvia. Dom Wojtyla tomou posse de sua catedral em 8 de março de 1964, assumindo a responsabilidade que antes fora de Dom Sapieha e de Dom Baziak, homens de grande relevância em sua vocação.

Mais tarde, em 21 de junho de 1967 é nomeado cardeal.

Um bispo filósofo

Na Universidade Católica de Lublin, Karol Wojtyla foi ganhando pouco a pouco mais espaço, contribuindo para a fundação de um departamento de Ética, onde se sentou à cátedra até a sua eleição em 1978. A produção filosófica de Wojtyla se intensifica a partir de 1954, data de sua tese sobre a ética de Scheler, e se estende até 1978.

Eis um fator um dado que precisa estar patente na investigação de sua pessoa e que desvela as diretrizes de seu desenvolvimento filosófico: Wojtyla é um pastor e o significado religioso da vida está presente em seu espírito. Toda a sua formação humana, como vimos até aqui, mantém-no alicerçado sobre uma perspectiva evangélica, que desde sua decisão pelo seminário clandestino de Cracóvia tomou um sentido pastoral, conforme confessou: “[…] a vocação pastoral suplantava a de professor e homem de estudos. Mostrava-se gradualmente mais profunda e mais forte. Mas, se se distanciaram uma da outra, não houve jamais ruptura entre elas” (FROSSARD, 1988, p. 20).

Desta forma, podemos concluir que o compromisso pastoral foi um elemento indispensável da elaboração do seu sistema filosófico: “a genealogia dos meus estudos centrados no ser humano, na pessoa humana, é antes de mais nada pastoral” (JOÃO PAULO II, 1994, p. 186). 

Entre as produções filosóficas de Dom Wojtyla, destacam-se as obras Amor e responsabilidade (1960) e Pessoa e ação (1969). A primeira consiste em um tratado de ética sexual; a segunda é a sua principal obra filosófica, e tem caráter antropológico. O grande legado de Karol Wojtyla para a filosofia é a conjunção da filosofia do ser (tomismo) e da filosofia da consciência (fenomenologia), em uma perspectiva personalista (BURGOS, 2018, p. 131). 

O artista

Como vimos, a literatura tem um papel elementar na história de Karol Wojtyla. Apesar de breve, a sua passagem pelo curso universitário de Filologia Polonesa manifestava o seu amor profundo por linguística e pela literatura. Wojtyla foi um artista: dramaturgo, ator e poeta. Nunca se desvencilhou dessa paixão e continuou a produzir. Entre as suas produções literárias, destaca-se a dramaturgia A loja do ourives e as suas poesias

O Papa João Paulo II

Após o breve pontificado de João Paulo I, eleito em 26 de agosto e falecido em 28 de setembro de 1978, em 16 de outubro daquele mesmo ano, Karol Wojtyla é eleito para governar a Igreja, tomando posse do Ministério Petrino em 22 de outubro. Foram 27 anos de pontificado. Ele faleceu em 2 de abril de 2005.

A assiduidade da escrita permaneceu. O papa João Paulo II, como Bispo de Roma e Pastor da Igreja Universal, publicou muitos documentos oficiais. Foram 14 Cartas Encíclicas, 15 Exortações Apostólicas, 11 Constituições Apostólicas e 45 Cartas Apostólicas.

A teologia do corpo

Além disso, é preciso dar destaque às catequeses das quartas feiras: Homem e Mulher os Criou, hoje conhecidas como Teologia do Corpo, um verdadeiro tratado de Antropologia e teologia moral da sexualidade humana. As catequeses foram proferidas sistematicamente, começando em 5 de setembro de 1979 e se estendendo até 28 de novembro de 1984. Seu sistema filosófico foi elaborado antes da sua eleição e se integra à sua teologia.  

Atentado de 1981

Em 13 de abril de 1981, o Papa João Paulo II foi baleado enquanto se locomovia entre os fiéis na Praça de São Pedro, localizada no centro da Cidade do Vaticano. Mehmet Ali Agca era um assassino profissional e fora preso em flagrante. Ao fim de 1983, João Paulo II foi visitá-lo na prisão, num gesto próprio de um coração disposto a perdoar. O papa reconheceu que foi a Virgem de Fátima foi quem o salvou. 

Jornada Mundial da Juventude (JMJ)

Em 1985, ele idealizou a Jornada Mundial da Juventude, um evento que ganhou tradição e acontece periodicamente até os tempos atuais, sendo cada encontro em um país diferente. A primeira edição aconteceu em Roma, em 23 de março de 1986. Seu país (Polônia) recebeu a Jornada no ano de 2016 e os jovens foram recepcionados pelo seu sucessor, o Papa Francisco.

A Queda do Muro de Berlim

João Paulo II é ainda considerado um dos principais responsáveis pela Queda do Muro de Berlim em 1989 e pela queda dos regimes totalitários comunistas na Europa Oriental. A estrutura havia se tornado um signo da “Cortina de Ferro” entre os países ocidentais e a URSS.

Páscoa

O papa João Paulo II fez a sua páscoa em 2 de Abril de 2005. A sua beatificação aconteceu em 1º de Maio de 2011 e a canonização em 27 de Abril de 2014. Ambas se deram na celebração litúrgica da Divina Misericóridia.

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Que nesta ocasião de seu 100° aniversário natalício, possamos suplicar a sua intercessão.

São João Paulo II, rogai por nós

Referencial bibliográfico

1BURGOS, Juan Manuel. Introdução ao personalismo. Trad. Maria Isabel Gonçalves São Paulo: Cultor de Livros, 2018.

FROSSARD, André. “Não tenham medo”: entrevista com João Paulo II. Tradução: Antonio Carlos Villaça. São Paulo: Círculo do livro, 1988. 

JOÃO PAULO II, Papa. Cruzando o limiar da esperança. Tradução: Antônio Angonese e Ephraim Ferreira Alves. 1ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994. 

JOÃO PAULO II, Papa. Memória e Identidade: colóquio na transição do milênio.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 

JUAN PABLO II, Papa. Don y mistério. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1996. Disponível em: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/es/books/documents/hf_jp-ii_books_19960301_dono-e-mistero.pdf. Acesso em: 06 Jan 2020. 

LECOMTE, Bernard. João Paulo II. Tradução de Clovis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005. 

RICCARDI, Andrea. João Paulo II: a biografia. Tradução: António Maia da Rocha. São Paulo Paulus, 2011. – (Coleção Biografias). 

SILVA, Paulo Cesar da. A ética personalista de Karol Wojtyla: ética sexual e problemas contemporâneos. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2001.

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Por Emanuel Aires

 

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