Na primeira carta aos Coríntios, São Paulo nos fala a respeito de uma coroa incorruptível pela qual tudo vale a pena sacrificar: o prêmio da vida eterna (cf. I Cor 9,24ss), e convida a todos os cristãos a se esforçarem para alcançar essa bendita meta, como fazem os atletas pelas coroas perecíveis das disputas esportivas. A princesa Elizabeth, por seu testemunho de total abnegação, grande docilidade ao Espírito e aceitação generosa da Cruz, tomou para si este conselho do apóstolo e realizou-o até o fim.
Elizabeth of Hesse and by Rhine era uma das descendentes da Rainha Vitória do Reino Unido e grã-duquesa da Rússia. Ela nasceu em 1º de novembro de 1864, sendo a segunda filha daquela casa real de Hesse, um principado germânico menor. Elizabeth recebeu esse nome em homenagem à Santa Isabel da Hungria, que era sua parente ancestral, rainha da qual falamos na matéria da semana passada. Elizabeth é a variante inglesa para o nome Isabel, que também pode ser traduzido para a língua portuguesa como “Elisabete”.
Quanto à vida de Elizabeth de Hesse, conhecida pelo diminutivo “Ella”, começaremos pelo relato de seu casamento com o grão-duque Sergei, em 15 de junho de 1884, quando Elizabeth tinha apenas 19 anos. A partir de então, Elizabeth adotou o sobrenome de outra linhagem real, a família imperial russa dos Romanov, e recebeu o título de grã-duquesa.
Quatro anos depois, Ella e Sergei foram escolhidos para representar a família real russa na dedicação da Igreja Ortodoxa de Santa Maria Madalena no Monte das Oliveiras. A visita à Terra Santa foi uma experiência espiritual tão forte, que despertou em Elizabeth o desejo de deixar a religião luterana e converter-se ao catolicismo ortodoxo, fé que seu marido já abraçava.
Em 1891, Sergei assumiu, a pedido de seu irmão, o Czar Alexandre III, o governo da cidade de Moscou, que na época vivia um período político muito conturbado. Depois de poucos anos, Sergei renunciou ao seu cargo de governador e, mesmo assim, foi assassinado em 17 de fevereiro de 1905.
O assassino foi preso na cena do crime e visitado por Elizabeth poucos dias depois da perda do esposo, ocasião em que a princesa, já convertida e profundamente envolvida pela caridade de Cristo, pediu por sua conversão e arrependimento do mal que havia praticado, sem demonstrar-lhe rancor ou ódio pelo que havia feito, inclusive, deu-lhe de presente uma medalha, sinal de sua intercessão por ele. Após ser condenado à morte e executado pelo seu crime, os guardas encontraram essa medalha ao lado da cama dele.
Alguns meses depois disso, sob a moção do Espírito, Elizabeth abnegou de seus privilégios, de seus vestidos caros e de suas joias, adotando um simples hábito de lã branca como vestimenta em seu novo lar: o Convento da Misericórdia de Marta e Maria, instituto dedicado a atender os pobres de Moscou, onde foi extremamente feliz até o ano de 1918, quando foi presa pelo governo comunista recém-instaurado e levada para a cidade de Alapayevsk, nos Montes Urais.
No dia 18 de julho do mesmo ano, foi conduzida junto com outros parentes para uma mina abandonada, por integrantes do Exército Vermelho, que perseguia religiosos e membros da realeza que ainda restavam na Rússia. No caso, Elizabeth atendia aos dois quesitos: era uma grã-duquesa que havia se tornado freira em um convento ortodoxo. Por fim, compreendendo que a hora da sua crucifixão chegara, ajoelhou-se e começou a rezar por seus algozes, a exemplo de Jesus Cristo: “Pai, perdoai-os, eles não sabem…”. Nesse instante, sua oração foi interrompida por um tiro em seu rosto. Os soldados jogaram seu corpo na mina junto com os demais prisioneiros.
Meses depois, os restos mortais de Elizabeth foram resgatados pelo Exército Branco, que lutava contra o regime comunista russo, e transferidos para a Igreja do Monte das Oliveiras, mesmo lugar de sua conversão, trinta anos antes.
Ela foi canonizada em 1981 pela Igreja Ortodoxa fora da Rússia e, em 1992, pela Igreja Ortodoxa Russa, recebendo o título de neomártir Elizabeth. Como legado, esta santa deixou a construção de um convento, o trabalho com os pobres e um grande exemplo de nobreza e santidade através do perdão de seus inimigos.
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