Um equívoco muito repetido atualmente, sobretudo em conversas de bastidor, é a estranha mania de se tratar ‘disciplina’ como sinônimo de rigidez mecânica.
Crescemos ouvindo falar em disciplina como quem herda uma espécie de manual de engenharia industrial, um conjunto de engrenagens feito para esmagar a espontaneidade e transformar o ser humano numa espécie de ‘robô devoto’. Mas a vida real — com tombos, crises de cansaço e uma inércia que nos puxa para baixo — se encarrega de desmontar este engano.
Somente quem já tentou manter uma rotina de oração séria ou segurar a própria língua por uma semana inteira (ou até menos) sabe que o rigor puramente voluntarista dura pouco tempo. No primeiro vento forte, o sistema racha.
A disciplina verdadeira é outra coisa. Ela é, no fundo, a arquitetura de toda a liberdade humana.
Quando se toca na Tradição dos santos e na seriedade das Sagradas Escritura, percebe-se que o real problema, num mundo caótico, nunca foi a existência de regras mas a ausência de solo firme debaixo dos pés. São Jerônimo já alertava que este mundo presente é uma ‘arena de luta’.
Refletir dessa forma afronta o mundo contemporâneo tão viciado em conforto, em fluidos caminhos e, principalmente, sem atrito. Mas é necessário tocar na ferida: se você não assume o comando de suas próprias paixões, o mundo assume por você. A vontade sem disciplina vira folha seca inteiramente submissa ao estresse do escritório, da notificação do celular ou da preguiça que nos faz deitar um pouco mais cedo e nos afastar do que é essencial.
O risco do orgulho
Contudo, há uma armadilha ainda mais sutil, bem no meio do caminho de quem tenta acertar: o orgulho de quem acha que já chegou lá.
Já reparou como é fácil olhar para o retrovisor espiritual e começar a cobrar juros do próprio passado? São João Crisóstomo tinha uma intuição psicológica formidável sobre isso ao comentar sobre o Apóstolo Paulo, avisa que lembrar das próprias vitórias serve apenas para duas coisas: ou nos afrouxa a guarda, ou nos infla de soberba. O atleta espiritual de verdade não fica medindo quantas voltas já deu na pista; ele olha para o trecho que falta correr. Essa chave mental muda tudo. A vida moral não acumula crédito com o que passou ontem. O que importa de fato é a consistência — ou a ruína — do que você está escolhendo fazer agora.
É por este motivo que a exigência imposta por Jesus de passarmos pela porta estreita nunca foi um convite ao desespero, mas o ajuste do foco. Santo Agostinho — com aquela clareza quase dolorosa que alcançava nos sermões — lembrava que a porta não é estreita por ser pesada em si mesma; ela é estreita porque exige que a gente esvazie o ego para conseguir passar. Quem busca carregar uma autoestima pra lá de inflada não cabe na fresta. O fardo só esmaga quem recusa o jugo. E o amor, longe de ser um sentimento romântico ou ‘fofinho’, é a força que torna esse aperto habitável.
Nas escolhas certas, o ‘peso’ por amor
Lembrando o personalismo de Karol Wojtyła, vemos que a vida humana só ganha densidade quando aceitamos carregar um peso escolhido por amor.
Ele nos lembra que a pessoa se realiza de verdade quando é capaz de se autogovernar para se doar ao outro — ou seja, a liberdade madura não é agir de forma aleatória, mas ter a têmpera de comandar o próprio impulso. É por isso que a disciplina, no fim das contas, não é prisão: é o ato mais lúcido de quem decide dar forma à própria alma, transformando a rotina em lugar onde o sagrado acontece de fato.
A promessa de Isaías para quem aguenta essa travessia é magnífica: aqueles que contam com o Senhor ganham asas de águia. E aqui vale a lembrança que Agostinho trazia do Salmo 103 sobre a águia velha que bate o bico contra a rocha para se renovar. Cristo é essa Rocha. A disciplina de cada dia — acordar no horário, calar quando a vontade é “esmagar” o outro com palavras ferinas ou seguir a rotina de deveres cotidianos — não é autoflagelação inútil. É o bico batendo na pedra para que a alma não petrifique, mas se desenvolva.
No fim das contas, a santidade não acontece por acidente e, muito menos por romantismo. Exige método, sim; exige uma rotina que organize o caos de dentro para fora. A disciplina que salva é aquela que acerta o passo entre o que a gente diz crer e o modo exato como se gasta o próprio tempo. Sem disfarces.
Paulo César Gomes Albuquerque
Assessoria de comunicação- Instituto Parresia
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