Formação

Tudo perder por Cristo

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Para permanecer fiéis ao método da lectio divina, tãorecomendada pelo recente Sínodo dos bispos, escutemos as palavras deSão Paulo sobre as quais refletiremos nesta meditação: 

«Mas tudoisso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Naverdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bemsupremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudodesprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estarcom ele. Não com minha justiça, que vem da lei, mas com a justiça quese obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. Anseiopelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pelaparticipação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele namorte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre osmortos. Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei àperfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que tambémeu fui conquistado por Jesus Cristo. 

1. «Anseio pelo conhecimento de Cristo»

Na semana passada, meditamos sobre a conversão de Paulo como uma metanoia, umamudança de mente, no modo de conceber a salvação. Paulo, contudo, nãose converteu a uma doutrina, ainda que fosse uma doutrina dejustificação mediante a fé; Ele se converteu a uma pessoa! Antes queuma mudança de pensamento, a sua foi uma mudança de coração, o encontrocom uma pessoa viva. Usa-se com freqüência a expressão «flechada» paradenominar um amor à primeira vista que elimina todo obstáculo; emnenhum caso esta metáfora é tão apropriada como em São Paulo. 

Vejamos como esta mudança de coração aparece no texto que lemos. Fala do «bem supremo» (hyperecho)de conhecer a Cristo e se sabe que, neste caso, como em toda a Bíblia,conhecer não indica uma descoberta só intelectual, um ter uma idéia dealgo, mas um laço vital íntimo, um entrar em relação com o objetoconhecido. O mesmo vale no caso da expressão «anseio pelo conhecimentode Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seussofrimentos». «Conhecer pela participação em seus sofrimentos» nãosignifica, evidentemente, ter uma idéia dos mesmos, masexperimentá-los. 

Por acaso li esta passagem em um momentoespecial da minha vida, no qual me encontrava também eu diante de umaescolha. Eu tinha me ocupado de Cristologia, havia escrito e lido muitosobre este tema, mas quando li «pelo conhecimento de Cristo»,compreendi imediatamente que aquele simples pronome pessoal que apareceno original, «ele», (auton) continha mais verdades sobre Jesusque todos os livros escritos ou lidos sobre Ele. Compreendi que, para oapóstolo, Cristo não era um conjunto de doutrinas, de heresias, dedogmas: era uma pessoa viva, presente e realíssima que se podiadesignar com um simples pronome, como se faz quando se fala de alguémque está presente, assinalando-o com o dedo.  

O efeito doenamoramento é duplo. Por um lado, põe em obra uma drástica redução dointeresse em si, uma concentração sobre a pessoa amada que faz passar aum segundo plano todo o resto do mundo; por outro, nos faz capazes desofrer qualquer coisa pela pessoa amada, aceitar a perda de tudo. Vemosambos os efeitos realizados à perfeição no momento no qual o Apóstolodescobre Cristo: por ele, diz, «tudo desprezei e tenho em conta deesterco, a fim de ganhar Cristo». 

Aceitou a perda de seusprivilégios de «judeu entre os judeus», a estima e a amizade de seusmestres e compatriotas, o ódio e a lástima de quem não compreendia comoum homem como ele teria podido deixar-se seduzir por uma seita defanáticos. A 2ª Carta aos Coríntios inclui a enumeração impressionantede tudo o que ele sofreu por Cristo (cf. 2 Cor 11, 24-28). 

OApóstolo encontrou por si mesmo a única palavra que encerra tudo:«conquistado por Jesus Cristo». Poder-se-ia traduzir também «aferrado»,«fascinado» ou, com uma expressão de Jeremias, «seduzido» por Cristo.Os enamorados não se cortam; fizeram-no tantos místicos no cúmulo deseu ardor. Não tenho dificuldade, portanto, para imaginar um Paulo que,em um ímpeto de alegria, após sua conversão, grita ele sozinho aosárabes ou, às margens do mar, o que mais tarde escreveria aosfilipenses: «Fui conquistado por Cristo! Fui conquistado por Cristo!». 

Conhecemosbem as frases lapidárias e cheias de significado do Apóstolo que cadaum gostaria de poder repetir na própria vida: «Para mim viver é Cristo»(Flp 1, 21), e «Não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim» (Gál2, 20). 

2. «Em Cristo» 

Pois bem, sendo fiel aoanunciado no programa destas pregações, eu gostaria de destacar o que,sobre este ponto, o pensamento de Paulo pode significar, primeiro paraa teologia de hoje e depois para a vida espiritual dos crentes. 

A experiência pessoal levou Paulo a uma visão global da vida cristã que ele denomina «Em Cristo» (en Christo). A fórmula se repete 83 vezes no corpus paulino, sem contar a expressão afim «com Cristo» (syn Christo) e as expressões pronominais equivalentes «nele» ou «naquele que». 

Équase impossível traduzir com palavras o rico conteúdo destas frases. Aproposição «em» tem um significado algumas vezes local, outras temporal(no momento no qual Cristo morre e ressuscita), outras instrumental(por meio de Cristo). Descreve a atmosfera espiritual na qual o cristãovive e atua. Paulo aplica a Cristo o que, no discurso ao Areópago deAtenas, diz de Deus, citando um autor pagão: «N’Ele vivemos, nosmovemos e existimos» (Atos 17, 28). Mais tarde, o evangelista Joãoexpressaria a mesma visão com a imagem do «permanecer em Cristo» (João15, 4-7). 

A estas expressões recorrem aqueles que falam demística paulina. Frases como «Deus reconciliou em si o mundo em Cristo»(2 Cor 5, 19) são totalizadoras, não deixam fora de Cristo nada nemninguém. Dizer que os crentes estão «chamados a ser santos» (Romanos 1,7) equivale para o Apóstolo a dizer que estão «chamados por Deus àcomunhão com seu Filho Jesus Cristo» (1 Cor 1, 9). 

Justamente,também no mundo protestante, hoje se começa a considerar a visãosintetizada, na expressão «em Cristo» ou «no Espírito», como maiscentral e representativa do pensamento de Paulo que a própria doutrinada justificação mediante a fé. 

O ano paulino poderia revelar-secomo a ocasião providencial para fechar todo um período de discussões econfrontos ligados mais ao passado que ao presente, e abrir um novocapítulo no uso do pensamento do Apóstolo. Voltar a usar suas cartas, eem primeiro lugar a Carta aos Romanos, para o fim para o qual foramescritas, que não era, certamente, o de proporcionar às geraçõesfuturas uma palestra na qual exercitar sua perspicácia teológica, mas ode edificar a fé da comunidade, formada em sua maioria por pessoassimples e iletradas. «Anseio ver-vos – diz aos romanos –, a fim decomunicar-vos algum dom espiritual que vos fortaleça, ou melhor, parasentir entre vós o mútuo consolo da fé comum: a vossa e a minha.» (Rom1, 11-12)

3. Muito além da Reforma e da Contra-reforma

Étempo, creio, de ir muito além da Reforma e muito além daContra-reforma. O que está em jogo, no princípio do terceiro milênio,já não é o mesmo do início do segundo milênio, quando se produziu aseparação entre o Oriente e o Ocidente, e nem sequer da metade domilênio, quando se produziu, dentro da cristandade ocidental, aseparação entre católicos e protestantes. 

Por dar um só exemplo,o problema já não é o de Lutero de como libertar o homem do sentimentode culpa que o oprime, mas de como devolver ao homem o verdadeirosentido do pecado que perdeu totalmente. Que sentido tem continuardiscutindo sobre «como se dá a justificação do ímpio», quando o homemestá convencido de que não precisa de nenhuma justificação e declaracom orgulho: «Eu mesmo hoje me acuso e só eu posso absolver-me, eu ohomem?» [1].

Eu creio que todas as discussões de séculos entrecatólicos e protestantes, em torno da fé e das obras, acabaram porfazer-nos perder de vista o principal ponto da mensagem paulina,desviando com freqüência a atenção de Cristo às doutrinas sobre Cristo,na prática, de Cristo aos homens. O que o Apóstolo afirma em Romanos 3não é que estamos justificadvados pela fé, mas estamos justificados pelafé em Cristo; não é tanto que estamos justificados pela graça, mas queestamos justificados pela graça de Cristo. O acento é posto em Cristo,mais do que na fé ou na graça. 

Após ter apresentado noscapítulos precedentes da Carta à humanidade em seu universal estado depecado e perdição, o Apóstolo tem o incrível valor de proclamar queesta situação agora mudou radicalmente «em virtude da redençãorealizada por Cristo», «pela obediência de um só homem» (Rom 3, 24; 5,19). A afirmação de que esta salvação se recebe por fé, e não pelasobras, é importantíssima, mas vem em segundo lugar, não em primeiro.Cometeu-se o erro de reduzir a um problema de escolas, dentro docristianismo, o que era para o Apóstolo uma afirmação de alcance maisamplo, cósmico, universal. 

Esta mensagem do Apóstolo sobre acentralidade de Cristo é de grande atualidade. Muitos fatores, comefeito, levam a colocar entre parênteses hoje sua pessoa. Cristo não sequestiona hoje em nenhum dos três diálogos mais vivazes em curso entrea Igreja e o mundo. Nem no diálogo entre fé e filosofia, porque afilosofia se ocupa de conceitos metafísicos, não de realidadeshistóricas com a pessoa de Jesus de Nazaré; nem no diálogo com aciência, com a qual se pode unicamente discutir sobre a existência ounão de um Deus criador, de um projeto por trás da evolução; nem, enfim,no diálogo inter-religioso, que se ocupa daquilo que as religiões podemfazer juntas, em nome de Deus, pelo bem da humanidade. 

Poucos,inclusive entre os crentes, quando são perguntados sobre em que crêem,responderiam: creio que Cristo morreu por meus pecados e ressuscitoupara minha justificação. A maioria responderia: creio na existência deDeus, em uma vida depois da morte. E, contudo, para Paulo, como paratodo o Novo Testamento, a fé que salva é só aquela na morte eressurreição de Cristo: «Se confessas com tua boca que Jesus é Senhor ecrês em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serássalvo» (Rom 10, 9). 

No mês passado, aconteceu aqui no Vaticanoum simpósio promovido pela Academia Pontifícia para as Ciências, com otítulo «Pontos de vista científicos em torno da evolução do universo davida», do qual participaram os máximos cientistas de todo o mundo. Euquis entrevistar, para o programa que dirijo aos sábados à tarde na TVsobre o evangelho, um dos participantes, o professor Francis Collins,diretor do grupo de pesquisa que levou em 2000 a decifrar completamenteo genoma humano. Sabendo que era crente, eu lhe fiz, entre outras, apergunta: «Você creu primeiro em Deus ou em Jesus Cristo?». 

Elerespondeu: «Até quando tinha mais ou menos 25 anos, eu era ateu, nãotinha uma preparação religiosa, era um cientista que reduzia quase tudoa equações e leis da Física. Mas, como médico, comecei a ver as pessoasque deveriam enfrentar o problema da vida e da morte, e isso me fezpensar que meu ateísmo não era uma idéia arraigada. Comecei a lertextos sobre as argumentações racionais da fé, que não conhecia.Primeiro, cheguei à convicção de que o ateísmo era uma alternativamenos aceitável. Pouco a pouco, cheguei à conclusão de que deve existirum Deus que criou tudo isso, mas não sabia como era esde Deus». 

Éinstrutivo ler, em seu livro «A linguagem de Deus», como ele superoueste impasse: «Para mim, era difícil estender a ponte para este Deus.Quanto mais aprendia a conhecê-lo, mais sua pureza e santidade mepareciam inacessíveis. Nesta amarga coincidência, chegou a pessoa deJesus Cristo. Havia passado mais de um ano desde que decidi crer emalguma espécie de Deus, e agora havia chegado a prestação de contas. Emuma linda manhã de outono, enquanto pela primeira vez, passeando pelasmontanhas, eu me dirigia ao oeste do Mississipi, a majestade e a belezada criação venceram minha resistência. Compreendi que a busca haviachegado a seu fim. Na manhã seguinte, ao sair o sol, eu me ajoelheisobre a erva úmida e me rendi a Jesus Cristo» [2]. 

Pensa-se napalavra de Cristo: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». Só n’Ele Deus sefaz acessível e crível. Graças a esta fé reencontrada, o momento dadescoberta do genoma humano foi, ao mesmo tempo, diz ele, umaexperiência de exaltação científica e de adoração religiosa. 

Aconversão deste cientista demonstra que o evento de Damasco se renovana história; Cristo é o mesmo ontem e hoje. Não é fácil para umcientista, especialmente para um biólogo, declarar-se crentepublicamente hoje, como não o foi para Saulo: corre-se o risco de serimediatamente «expulso da sinagoga». E, de fato, é o que aconteceu aoprofessor Collins, que por sua profissão de fé teve de sofrer os dardosde muitos laicistas.

4. Da presença de Deus à presença de Cristo 

Resta-medizer algo sobre outro ponto: o que o exemplo de Paulo tem a dizer paraa vida espiritual dos crentes. Um dos temas mais tratados naespiritualidade católica é o do pensamento da presença de Deus [3]. Sãoincontáveis os tratados sobre este tema desde o século XVI até hoje. Emum deles se lê: «O bom cristão deve habituar-se a este santo exercícioem todo tempo e em todo lugar. Ao despertar, dirija em seguida o olharda alma a Deus, fale e converse com Ele como seu amado Pai. Quandocaminhe pelas ruas, tenha os olhos do corpo baixos e modestos, elevandoos da alma a Deus» [4].

Distingue-se «o pensamento da presença deDeus» do «sentimento de sua presença: o primeiro depende de nós, osegundo é, ao contrário, dom da graça que depende de nós. (Para SãoGregório, «o sentimento da presença» de Deus, a aisthesis parousia, é quase sinônimo de experiência mística). 

Éuma visão rigidamente teocêntrica que, em alguns autores, chegainclusive ao conselho de «deixar de lado a santa humanidade de Cristo».Santa Teresa de Jesus reagirá energicamente contra esta idéia quereaparece periodicamente no cristianismo, desde Orígenes em diante,tanto oriental como ocidental. Mas a espiritualidade da presença deDeus, também depois da Santa, continuará sendo rigidamente teocêntrica,com todos os problemas que derivam dela, postos de relevo pelos mesmosautores que tratam deles [5].

Neste sentido, o pensamento de SãoPaulo pode nos ajudar a superar a dificuldade que levou ao declive daespiritualidade da presença de Deus. Ele fala sempre de uma presença deDeus «em Cristo». Uma presença irreversível e insuperável. Não há umestágio da vida espiritual no qual se possa prescindir de Cristo, ou ir«além de Cristo». A vida cristã é uma «vida oculta com Cristo em Deus»(Colossenses 3, 3). Este cristocentrismo paulino não atenua o horizontetrinitário da fé, mas o exalta, porque para Paulo todo o movimentoparte do Pai e volta ao Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo. Aexpressão «em Cristo» é intercambiável, em seus escritos, com aexpressão «no Espírito».

A necessidade de superar a humanidade deCristo, para aceder diretamente ao Logos eterno e à divindade, nasciade uma escassa consideração da ressurreição de Cristo. Esta era vistaem seu significado apologético, como prova da divindade de Jesus, e nãosuficientemente em seu significado mistérico, como início de sua vida«segundo o Espírito», graças à qual a humanidade de Cristo aparece jáem sua condição espiritual e, portanto, onipresente e atual. 

Oque se deriva disso no âmbito prático? Que podemos fazer tudo «emCristo» e «com Cristo», seja que comamos, durmamos, ou que façamosqualquer outra coisa, diz o Apóstolo (1 Coríntios 10, 31). ORessuscitado não está presente só porque pensamos n’Ele, mas estárealmente junto de nós; não somos nós que devemos, com o pensamento e aimaginação, transladar-nos à sua vida terrena e representar osepisódios de sua vida (como se trata de fazer com a meditação dos«mistérios da vida de Cristo»): é Ele, o Ressuscitado, o que vem a nós.Não somos nós que, com a imaginação, temos de fazer-nos contemporâneosde Cristo: é Cristo o que se faz realmente nosso contemporâneo. «Euestou convosco todos os dias até o fim do mundo» (a propósito, por quenão fazer imediatamente um ato de fé? Ele está aqui, nesta capela, maispresente que qualquer um de nós; busca o olhar de nosso coração e sealegra quando o encontra). 

Existe um texto refletemaravilhosamente esta visão da vida cristã, na oração atribuída a SãoPatrício: «Cristo comigo, Cristo na minha frente, Cristo atrás de mim,Cristo em mim! Cristo debaixo de mim, Cristo sobre mim, Cristo à minhadireita, Cristo à minha esquerda»! [6]. 

Que novo e mais altosignificado adquirem as palavras de São Luis María Grinon de Montfort,se aplicarmos ao «Espírito de Cristo» o que ele diz do «espírito deMaria»: 

«Devemos abandonar-nos ao Espírito de Cristo para sermovidos e guiados segundo seu querer. Devemos colocar-nos e permanecerentre suas mãos como um instrumento nas mãos de um oleiro, como umalaúde entre as mãos de um hábil instrumentista. Devemos perder-nos eabandonar-nos nele como a pedra que se lança ao mar. É possível fazertudo isso simplesmente e em um instante, com um só olhar interior ou umleve movimento da vontade, ou inclusive com alguma breve palavra.» [7]

5. Esquecimento do passado

Concluamos voltando ao texto de Filipenses 3. São Paulo acaba suas «confissões» com uma declaração: 

«Conscientede não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo dopassado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumoao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.» (Flp 3,13-14)

«Prescindindo do passado.» Que passado? O de fariseu, doqual falou antes? Não, o passado de apóstolo na Igreja! Agora, o lucroa considerar perda é outro: é justo o ter já de uma vez consideradotudo perda por Cristo. Era natural pensar: «Que valor tem Paulo:abandonar uma carreira de rabino tão bem iniciada por uma obscura seitade galileus! E que cartas escreveu! Quantas viagens empreendeu, quantasigrejas fundou!». 

O Apóstolo intui o perigo mortal de introduzirentre si e Cristo uma «justiça própria», derivada das obras – esta vez,as obras realizadas por causa de Cristo –, e reage energicamente. «Nãoconsidero – diz – ter chegado à perfeição.» São Francisco de Assis, nofinal de sua vida, cortava pela raiz toda tentação deauto-complacência, dizendo: «Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor,porque até agora fizemos pouco ou nada» [8]. 

Esta é a conversãomais necessária para quem já seguiu Cristo e viveu a seu serviço naIgreja. Uma conversão sumamente especial, que não consiste em abandonaro mal, mas, em certo sentido, em abandonar o bem! Ou seja, em tomardistância de tudo o que se fez, repetindo para si mesmos, segundo asugestão de Cristo: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamosfazer» (Lucas 17, 10). 

Este esvaziar as mãos e os bolsos de todapretensão, em espírito de pobreza e humildade, é o melhor modo parapreparar-nos para o Natal. Recorda-nos um simpático conto natalino queme compraz citar de novo. Ele narra que, entre os pastores que correramna noite de Natal para adorar o Menino, havia um tão pobrezinho que nãotinha nada para oferecer e se envergonhava muito. Ao chegarem à gruta,todos competiam ao oferecer seus dons. Maria não sabia como fazer parareceber todos, tendo o Menino nos braços. Então, vendo ao pastorinhocom as mãos livres, pegou Jesus e o confiou a ele. Ter as mãos vaziasfoi sua fortuna e, em outro nível, será também a nossa.

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[1] J.-P. Sartre, Il diavolo e il buon dio, X,4 (Parigi, Gallimard 1951, p. 267.).

[2] F. Collins, The Language of God. A Scientist Presents Evidence for Belief, pp. 219-255.

[3] Cf.  M. Dupuis, Présence de Dieu, in D Spir. 12, coll. 2107-2136.

[4] F. Arias (+1605), cit. da Dupuis, col. 2111.

[5]Dupuis, cit., col 2121:  «Se l’onnipresenza di Dio non si distinguedalla sua essenza, l’esercizio della presenza di Dio non aggiunge altradizionale tema del ricordo di Dio, se non un sforzo imaginativo».

[6]«Christ with me, Christ before me, Christ behind me, Christ below me,Christ above me, Christ at my right, Christ at my left.»

[7] Cf. S. L. Grignon de Montfort, Trattato della vera devozione a Maria, nr. 257.259 (in Oeuvres complètes, Parigi 1966, pp. 660.661).

[8] Celano,Vita prima, 103 (Fonti Francescane, n. 500).


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