Estava chovendo muito quando os feridos começaram a chegar no pequeno hospital da cidade. Eu nunca tinha passado por uma situação dessa. A equipe médica estava muito agitada, fazendo todos os preparativos para acolher e atender da melhor forma possível cada homem e mulher que entrava pela emergência. Eu fiquei sem reação, não sabia se ajudava carregando algo ou ficava no meu canto para não atrapalhar ninguém. A poucos metros do hospital, um ônibus havia colidido com um caminhão e muitas pessoas ficaram feridas. Havia comentários de que o motorista da carreta tinha falecido.
Felizmente, as vítimas que chegavam ao hospital estavam com ferimentos leves, de acordo com o que eu conseguia escutar. Entre um movimento e outro, fui contemplando a dedicação das enfermeiras e dos médicos. Eles não mediam esforços para tratar cada machucado, cada dor, cada mal-estar dos pacientes. Com certeza, eu não estava naquela emergência por a caso, poderia ter ido para outra, mas precisava ver tudo aquilo e aprender a importante lição que aprendi naquele dia. Enquanto assistia à movimentação, percebia que não estava dando a devida atenção às coisas que fazia na minha profissão.
Sim, ver aqueles profissionais se dedicando inteiramente aos pacientes me ensinou algo muito especial. De fato, é belíssimo o trabalho daqueles que cuidam da saúde e da vida humana, mas o valioso aprendizado que obtive naquela difícil situação foi em relação à inteireza com que eles se davam em cada relação. Eles se dedicavam a cada paciente de forma justa, valorizando-os como pessoa. Diante disso tudo, eu comecei a me questionar sobre como eu estava vivendo a minha vida, o meu trabalho, o meu casamento. Não estava sendo justo comigo mesmo, com os outros e nem muito menos com Deus.
Pouco antes dos feridos chegarem, o tribunal que montei na minha cabeça já tinha sentenciado Deus por ter permitido eu ir parar no hospital. Contudo, aquele lugar e aquela situação me fizeram repensar toda a minha história. A justiça é a virtude moral que consiste em dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. Assim como o médico precisa dar a cada paciente o que lhes é necessário para recuperar a saúde, reconheci que eu também deveria administrar bem minhas decisões e assumir com honestidade as consequências delas. E mais ainda: o testemunho dos médicos me ensinou muito, pois cuidavam de mim com a mesma dedicação com que tratavam os outros pacientes. Isso tudo depois de perguntarem meu nome e eu ter falado a verdade: José Justino, motorista da carreta que causou o acidente.
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