Outro dia, enquanto aguardava o atendimento de uma consulta médica, conversava com uma outra paciente. Entre as coisas das quais ela se queixava, estavam aquelas em torno da forte crise da palavra presente no mundo atual.
Segundo ela, as pessoas empenham a palavra e voltam atrás com muita facilidade.
São políticos que hoje prometem o mundo e o fundo aos seus eleitores e, uma vez eleitos, agem como se nada tivessem prometido. São noivos que, diante do altar de Deus, prometem fidelidade um ao outro, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e amanhã, diante dos menores desentendimentos ou das crises próprias do amadurecimento relacional, agem como se nada tivessem prometido.
Compromissos são agendados facilmente e, com a mesma rapidez, são cancelados através de uma ligação de celular ou, pior ainda, por meio de uma simples mensagem de áudio.
Precisei concordar em muitos aspectos com as colocações dela. Claro, pessoas desonestas e levianas sempre existiram, assim também como pessoas boas e honestas. Porém, esse eco do pecado original parece, a meu ver, ter sido potencializado pelo avanço dos meios de comunicação modernos.
A avalanche de informações e seus efeitos
Somos atropelados por uma avalanche de palavras, imagens e sons desde a hora em que acordamos até o momento em que dormimos. Quem nunca pegou o celular logo ao abrir os olhos pela manhã ou à noite, antes de dormir, atire a primeira pedra.
Recebemos um volume tão alto de conteúdos que nossos avós gastariam uma vida inteira para adquirir. Quando essa postura interior é levada para a vida espiritual, para a vida de fé, corremos alguns riscos.
Entre eles está o de projetarmos em Deus — ou mesmo em pessoas boas e honestas — nossas próprias posturas de suspeita e desconfiança. Tornamo-nos incapazes de repetir com confiança as palavras do salmista:
“Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 119,105).
A necessidade de sermos homens e mulheres de palavra
Ainda a respeito dessa crise da palavra, encontramos no Evangelho uma providencial exortação feita por Jesus Cristo aos seus apóstolos e que continua extremamente atual para nós:
“Seja o vosso sim: sim; e o vosso não: não. Tudo o que vier além disso vem do Maligno” (Mt 5,37).
Nossas crianças e adolescentes parecem ser os mais afetados pelas inconsistências que marcam o mundo atual. Nessa fase da vida, o ser humano busca, muitas vezes de forma inconsciente, referenciais seguros. Busca pertencimento, estabilidade e exemplos confiáveis, seja na companhia dos pais, educadores, colegas de escola ou amigos.
É justamente aí que se escondem muitas das pequenas e grandes armadilhas existenciais.
Se não fomos educados tendo por base apoios sólidos, não aprendemos a bem discernir. Ficamos à deriva, à mercê dos enganadores de plantão.
Por isso, ser alguém de palavra não significa ser uma pessoa amarga, teimosa, cabeça-dura ou irredutível. Significa, antes de tudo, ser uma presença segura para aqueles que nos são próximos. Semelhantes a um guarda-chuva em uma chuva inesperada ou como a âncora de um navio em meio às ondas de um mar turbulento.
