Há encontros que permanecem na memória e, de tão profundos, tornam-se parte da nossa história com Deus. A Convenção Shalom de 2022 foi, para mim, um desses momentos.
Um dia antes do encontro com o Papa Francisco, decidi viajar com alguns amigos até Siena. Queria agradecer a Deus pela vida da minha filha, Catarina, que tinha apenas um ano, e pedir a intercessão de Santa Catarina de Sena para que me conduzisse mais para perto do Papa.
Madrugamos para pegar o trem. De Roma a Siena, a viagem foi longa e cansativa, entre trem, ônibus e horas de estrada. Foram cerca de cinco horas para chegar. Passamos o dia na cidade e, no final da tarde, iniciamos o retorno, chegando a Roma por volta da meia-noite, justamente no dia do encontro com o Papa.
Diante do túmulo de Santa Catarina de Sena, eu havia feito uma oração simples, mas cheia de fé:
“Santa Catarina, eu gostaria muito de abraçar o Papa Francisco. Interceda por mim e ajude-me a receber essa bênção.”
Ao chegar ao terminal de Roma, conectei-me ao Wi-Fi da estação e vi várias ligações perdidas. Quando retornei, recebi uma notícia que jamais esquecerei: meu nome estava entre os irmãos da Comunidade que cumprimentariam o Papa Francisco.
Naquele instante, compreendi que a viagem a Siena não havia sido apenas uma viagem.
Quase não dormi. Antes mesmo do nascer do sol, já estava diante da Sala Paulo VI, com o coração acelerado, tomado por emoção, expectativa e gratidão. Estávamos ali como filhos que se aproximavam de Pedro para receber uma palavra, uma bênção e um abraço.
O Papa Francisco entrou, acolheu-nos, animou-nos, orientou-nos e abençoou-nos. Depois, chegou o momento de entrar na fila. Éramos cerca de quarenta pessoas, mas a espera parecia interminável. Cada passo aumentava a emoção, até que chegou a minha vez.
Beijei a mão do Papa.
Naquele gesto simples, coube uma história inteira. Com lágrimas contidas, pensei em meu fundador, Moysés Azevedo, que havia feito o mesmo em 1980. Pensei no meu próprio sim e rezei:
“Que o meu sim também agrade a Deus.”
Recordei, então, o que significa chegar à sombra de Pedro. Rezei pela minha missão em Teresina e pedi que Deus abençoasse o meu povo. Que a graça recebida em Roma não permanecesse apenas em mim, mas alcançasse os jovens, as famílias, as comunidades e todos aqueles que Ele confiou à nossa missão.
Uma graça verdadeira nunca termina em quem a recebe: ela transborda.
Talvez por isso a Convenção Shalom seja tão marcante para mim. Ela nos reúne ao redor de Pedro, junto a irmãos espalhados pelo mundo que carregam a mesma alegria do Ressuscitado, Daquele que passou pela cruz e venceu a morte. É um encontro com a Igreja, com a nossa história e com a missão que Deus nos confia.
Roma recorda que a fé possui raízes profundas. Caminhamos entre os lugares onde tantos santos entregaram a vida e testemunharam Cristo até o fim. Ali, encontramos também irmãos que partilham a mesma esperança e o desejo de anunciar que Jesus está vivo.
Em 2026, mais uma vez, o Shalom do mundo inteiro se colocará aos pés de Pedro. Ao recordar 2022, volto a Siena, à oração diante de Santa Catarina, àquela madrugada em Roma e ao instante em que beijei a mão do Papa Francisco.
Percebo que, naquele gesto, Deus me recordava algo maior:
Somos Igreja.
Somos filhos de uma história que começou antes de nós e continuará depois de nós. Somos peregrinos que caminham juntos, um povo que encontrou a alegria do Ressuscitado.
Somos Shalom.
Que, em 2026, aos pés de Pedro, possamos renovar a alegria de ser Igreja, de pertencer a uma família espiritual espalhada pelo mundo e de receber a graça para reparti-la.
Que Santa Catarina de Sena continue intercedendo por nós e nos ensine a amar a Igreja, permanecer junto a Pedro e entregar a vida por aquilo que Deus nos confia.
Alguns encontros acontecem em um dia. Certas graças, porém, continuam acontecendo para sempre.
Filipe Diniz
Missionário da Comunidade de Vida Shalom

