Houve um período da minha caminhada no seminário em que comecei a ter dúvidas sobre a minha vocação. Cheguei a questionar se aquele era realmente o caminho que Deus queria para a minha vida.
Desde sempre, quando encontrava um sacerdote, sentia crescer em mim o desejo de também ser padre. Era algo que fazia parte da minha história. Mas, naquele momento, esse fogo parecia estar diminuindo. Eu vivia uma espécie de crise e precisava discernir novamente o chamado que havia recebido.
Foi nesse contexto que surgiu uma viagem para algumas missões na América Latina, por causa dos serviços que eu realizava com os jovens. Durante a viagem, fui para Santiago, no Chile. Antes de partir, o padre Karlian Vale, também da Comunidade de Vida, me disse: “Se você vai a Santiago, precisa conhecer um santo que tem sido um amigo nos últimos tempos para a minha vida”.
Ele falava de Santo Alberto Hurtado.
Um encontro inesperado
Fui ao santuário de Santo Alberto Hurtado sem muita expectativa. Mas, quando cheguei, algo aconteceu no meu coração.
Conheci o museu, visitei o túmulo e comecei a conhecer mais profundamente a história daquele santo. Enquanto percorria aquele lugar, algo foi despertando novamente dentro de mim. O fogo que parecia estar se apagando começou a reacender.
Passei a me identificar com a oferta de vida de Santo Alberto. Uma de suas frases que mais me marcou foi: “O que faria Jesus em meu lugar?”
Também conheci sua expressão “Contento, Senhor, contento” – “Feliz, Senhor, feliz”, que ele falava em meio a grandes ofertas e revela uma vida oferecida a Deus com alegria. Alberto foi um homem que se entregou profundamente, mas que também viveu essa entrega com alegria, com grandes sorrisos. Aquilo me tocou.
O sacerdote que eu gostaria de ser
Ao conhecer a vida de Santo Alberto, comecei a enxergar nele um modelo de sacerdote que eu gostaria de ser.
Um homem apaixonado pelos jovens, pelos pobres, pela evangelização e pela Igreja. Um homem com um grande testemunho de obediência e que, por meio da própria vida, despertou muitas outras vocações.
Também me marcou uma compreensão muito concreta sobre a vocação: ela não nasce de uma obrigação, mas de um ato generoso do coração de quem ama.
Aquelas palavras foram preenchendo novamente o meu coração. Aos poucos, comecei a desejar novamente aquilo que, durante aquele período de crise, eu já não conseguia enxergar com a mesma clareza. Então, diante do túmulo dele, fiz uma oração e pedi a sua intercessão.
Um amigo para a vocação
Tenho a certeza de que Santo Alberto escutou aquela oração. Depois que saí daquele lugar, nunca mais deixei de sentir o desejo de ser padre.
A partir daquele momento, o santo se tornou um grande companheiro da minha vocação. Mais do que conhecer a história de um santo, eu encontrei um amigo.
Hoje, carrego ele no coração. E, todas as vezes que surge algum desafio na minha caminhada, sei que tenho um grande amigo que intercede por mim e pela minha vocação.
Aquela visita a Santiago aconteceu em um momento de dúvidas, mas se tornou um marco na minha caminhada. Quando o fogo parecia estar se apagando, Deus me permitiu encontrar, na vida de São Alberto Hurtado, um testemunho que me ajudou a reencontrar o desejo de oferecer a minha vida.
E, desde então, continuo caminhando com a pergunta que também marcou a vida de Santo Alberto Hurtado: o que faria Jesus em meu lugar?
Padre Vitor Aragão de Carvalho
Comunidade de Vida
Quem foi São Alberto Hurtado? (1901 – 1952)
Sacerdote jesuíta chileno, canonizado pelo Papa Bento XVI em 2005. Foi o fundador do Hogar de Cristo, uma obra social de grande impacto voltada ao acolhimento de pessoas em situação de rua. É patrono da juventude e do trabalho social no Chile, lembrado por sua extraordinária alegria, dinamismo vocacional e profundo amor aos mais pobres.
Santo Alberto Hurtado, um cidadão do céu
