O final de ano sempre altera muito nossa forma de ver a vida, são muitos itens a equacionar: o tempo que passou rápido, o que fizemos, o que deixamos de fazer, o que queremos para o ano seguinte. E ainda se acumulam os muitos afazeres desse mês de
dezembro: confraternizações, presentes, organizações, preocupações, fechamentos; tudo acompanhado da necessidade vital que temos de dar um novo sentido à nossa vida e do convite a um olhar escatológico que o novo ano litúrgico nos propõe.
Como fazer tudo isso? A pergunta não é exatamente nova: é a mesma que nos fazemos nosso dia a dia, apenas potencializada. Como encaixamos nossos afazeres em 24 horas? Como cabem 40 horas de trabalho semanal junto com o cuidado com a família, a
saúde, o apostolado, a vida social? A vida moderna parece não ter sido feita para caber no tempo que nos é dado, e isso nos inquieta profundamente.
Nesse tempo litúrgico, Jesus, no Evangelho, nos alerta justamente contra essas inquietações, e nos alerta contra as preocupações em diversos momentos: nos convida a não nos deixamos enganar por elas, para que nossa mente não se embote (Lc 21, 34); nos
alerta para que essas preocupações não se tornem os espinhos que sufocam a Palavra lançada (Lc 8, 14); e, como não lembrar de Marta a quem ele diz: “tu te preocupas e te inquietas com muitas coisas” (Lc 10,41). Detalhe: todas essas falas estão na linguagem do mesmo evangelista, para que não achemos que se trata de uma escolha semântica de espectro mais ampliado, sim, nossos inimigos são bem claros aqui: nossas preocupações e inquietações.
Jesus, então não nos parece apresentar um caminho de menos afazeres, fosse isso não pediria grandes responsabilidades a algumas pessoas (e nós damos graças a Deus por essas pessoas, ainda que nunca queiramos ser elas), enquanto Ele mesmo afirma: “Meu Pai continua trabalhando, e eu também trabalho” (Jo 5, 17) como a indicar o seguimento filial de todos nós ao mandato de Gn 1,29.
O que Jesus parece querer de nós é essa atitude filial da confiança, a atitude espiritual livre do vício do “querer ser como Deus”, de controlar tudo, de ter o domínio de todo o processo; contentarmo-nos com o “só ocupar-nos”, próprio do ser humano, criatura
pequena, aquele que planta e pode, ele ou outro, regar, mas o reconhecer que é próprio de Deus, o Onisciente, fazer crescer (cf. 1Cor 3,6). Ou, como lemos sob a pena do poeta francês:
“Não me agrada o homem que não dorme
e que arde em sua cama de preocupação e febre
Não me agrada o homem que ao se deitar
faz planos para o dia seguinte, o tonto!
Sabe ele por acaso
como se apresentará o dia seguinte?
Sabe sequer a cor do tempo que vai fazer?
Faria melhor em rezar.
Porque eu nunca neguei o pão de cada dia
ao que se abandona em minhas mãos
como o bastão na mão do caminhante
Me agrada o que se abandona em meus braços
como um bebê que ri
e que não se preocupa com nada
e vê o mundo através dos olhos de sua mãe.
Mas o que se põe a fazer cavilações
para o dia de amanhã,
este trabalha como um mercenário,
trabalha terrivelmente como um escravo
que dá voltas a uma roda sem fim
e — isto entre nós — é um imbecil.
E até me disseram que existem homens
que trabalham bem
e dormem mal,
que não dormem nada.
Que falta de confiança em mim!
Isto é quase mais grave do que se trabalhassem mal
e dormissem bem,
porque a preguiça
é um pecado menor do que a inquietude, do que a desesperação
e do que a falta de confiança em mim.
Governam muito bem durante o dia
os assuntos do dia e depois não se atrevem
a confiá-los a mim durante a noite.
O que não dorme de preocupação
é infiel à Esperança,
e esta é a pior infidelidade.”
(O homem que não dorme – Charles Péguy)
Vale a esse tempo refletir sobre esse salutar descanso espiritual que tem consequências práticas na nossa vida, trazendo paz aos nossos dias, o ocupar-se sem preocupar-se ou inquietar-se. É escolher o melhor lugar: o confiante espaço filial aos pés do Senhor.
