A Mãe de Deus era mestra em “aprender de coração”, mesmo quando não entendia as palavras ou os acontecimentos da vida de Jesus: “A sua mãe guardava todos esses acontecimentos em seu coração” (Lc 2,51. Cf. v. 50). Precisamos aprender a “decorar”, a conservar a Palavra de Deus em nosso coração para que ela seja alimento durante todo nosso dia, mesmo quando não a entendemos plenamente, pois ela não deixa de ser Palavra de Deus dirigida a nós que produz seus frutos de vida eterna. Precisamos conservar a Palavra no coração para permanecermos firmes em Deus e não sermos atraídos pelo mundo com suas idolatrias.
Após a leitura em voz alta, a escuta e o “aprender de coração”, é preciso por em prática (cf. Dt 6,3), pois a Palavra existe não para um deleite pessoal, nem para aumentar a nossa cultura, mas para ser vivida. “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu ser, com todas as tuas forças” (Dt 6,5). Por em prática a Palavra é a melhor resposta que podemos dar ao amor que Ele nos tem (cf. Dt 7,8). É retribuir amor com amor. E o amor é exigente. Compromete todas as potências do nosso ser. Porém, mesmo depois que fizermos tudo o que podemos fazer para amá-Lo veremos que não foi suficiente, que nunca conseguimos corresponder a tal amor. É preciso abrir-se para que a Palavra de Deus gere em nós uma resposta adequada. Em termos teológicos, é preciso que nos abramos à graça, à força divina que nos atinge e é capaz de nos fazer amar como convém.
A prática da Palavra nos faz bem-aventurados, prósperos, felizes (cf. Dt 6,4). Não a prosperidade puramente material mas antes de tudo a espiritual. Não a felicidade que se confunde com gozos passageiros, ou alegrias fugazes, mas um estado de contentamento espiritual que se experimenta mesmo em meio a dores, aflições, penúria e perseguições (cf. Mt 5, 3-12). O céu que já começa sobre a terra! Ah se o homem soubesse que a felicidade tão buscada e esperada se encontra no cumprimento da lei do Senhor! Feliz é quem ouve a Palavra de Deus e a observa (cf. Lc 11,28).
O Novo Testamento é muito rico no tema que estamos refletindo. Não temos a pretensão de exauri-lo, mas apenas de salientar alguns aspectos importantes para nós presentes no Evangelho de Lucas.
Diante de alguns que insistiam em dizer que os parentes de Jesus queriam vê-lo, o Mestre responde: “A minha mãe e os meus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e as põe em prática” (Lc 8,21). E na explicação da parábola do semeador ele diz: “Aquilo que está na boa terra são os que ouvem a palavra num coração belo e bom, a retêm e produzem fruto a força da perseverança” (Lc 8,15). Ouvir a Palavra significa escutar com retidão, sem segundas intenções nem desejo de aproveitar-se dela. Significa deixar a Palavra ser Palavra, ou seja, comunicar o que Deus quer dizer e não o que eu quero que ela diga. Significa ouvir mesmo quando dói ou incomoda e não só quando consola. Depois de ouvir com um coração belo e bom é preciso rete-La, “decorá-La”. Sobre isso já se tratou acima. Por fim, para produzir frutos, para por em prática a palavra, é preciso ter perseverança. O termo grego utilizado é “tomar sobre si”, “encarregar-se”. Se partimos de uma tradução mais literal: “permanecer sob”, “morar sob”. É preciso perseverar, morar, ou permanecer sob a Palavra, toma-la sobre si, mesmo que às vezes pareça dura ou provoque perseguições da parte do mundo que não a aceita. Só quem permanece nela produzirá fruto, ou como se dirá mais a frente: “É pela vossa perseverança que ganhareis a vida” (Lc 21,19). Só quem persevera (na Palavra) será salvo.
Um último aspecto do Evangelho de Lucas que gostaria de chamar a atenção é o v. 45 do capítulo 24: “Então ele (Jesus) lhes abriu a inteligência para as Escrituras”. Após a paixão e morte do Messias os discípulos não entenderam que tudo isso fazia parte das profecias do Antigo Testamento a seu respeito (cf. Lc 2,44). Por isso, Jesus ressuscitado não só explica o que a Lei, os profetas e os salmos dizem a seu respeito, mas também abre a inteligência dos seus discípulos para esta realidade. Só o Ressuscitado pode nos fazer entender todas as Escrituras à luz de suas palavras e de sua vida, pois ele é a plenitude da revelação.
Por Germana Perdigão
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