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Cardeal Kevin Farrell: Como a Igreja vê a paternidade em Amoris Laetitia e em Patris Corde

O Congresso das Famílias já acabou! Mas, em cada participante, ficou o desejo de aprender mais com a Sagrada Família, em especial, na figura de São José, como educar, amar e ser fiel à missão familiar que Deus dá. Aprendemos da principal autoridade da Igreja Católica, quando o assunto é família, formas para viver tudo isso.

comshalom

O Congresso das Famílias 2021, promovido pela Comunidade Católica Shalom, contou com a presença do Cardeal Kevin Farrell, que teve como inspiração para as reflexões de sua pregação a seguinte motivação: “Como a Igreja vê a paternidade em Amoris Laetitia (AL) e em Patris Corde (PC).

Antes de pontuar alguns aspectos importantes da partilha do Cardeal, vale a pena contextualizar o cenário atual. O Congresso das Famílias se dá no “ano especial da família”, que o Santo Padre promulgou, celebrando os 5 anos da exortação apostólica Amoris Laetitia, e durante o ano de São José – exatamente no aniversário de 150 anos da declaração em que o Beato Papa Pio IX o declarou “patrono universal da Igreja”.

Ausência da paternidade na sociedade

Segundo o Cardeal, o Papa Francisco citou em algumas vezes a figura do Pai, e afirmou que a sociedade é uma sociedade “sem pais”.

“Os pais estão algumas vezes tão concentrados em si mesmos e nos seus trabalhos, e às vezes nas suas próprias realizações individuais, que esquecem da família. E deixam sozinhos os pequenos  os jovens”. E acrescenta esta exortação: “neste caminho comum de reflexão sobre a família, quero dizer a todas as comunidades cristãs, que devemos estar mais atentos: a ausência da figura paterna na vida dos pequenos e dos jovens produz lacunas feridas que podem ser muito graves’ (Papa Francisco na Audiência Geral  em 28.01.2015).

A ausência dos pais é prejudicial para as crianças, deixa nelas feridas que podem marcar toda sua existência. Na AL 55, explica-se que esta ausência pode adotar diversas formas: física, afetiva, cognitiva e espiritual, e acaba privando as crianças de um modelo apropriado de conduta paterna.

Ser como o pai do filho pródigo

Ao notar essa sociedade ausente de pais, é necessário redescobrir o sentido da figura e do carisma paternal. Para que todos os pais estejam realmente presentes e desempenhem o papel paternal em benefícios dos filhos.

“O Papa compara que um bom pai sabe esperar e sabe perdoar. Na conhecida parábola do filho pródigo, de fato quem espera na porta da casa ao filho que se perdeu é o pai, não a mãe, e o Papa diz que esta é uma tarefa que corresponde a todos os pais que, depois de ter feito tudo o possível por educar os filhos, não podem evitar que às vezes errem ou inclusive se percam, e por isso, nestes casos, devem saber rezar e esperar com paciência, doçura, longanimidade, misericórdia, enquanto esperam o retorno dos seus filhos.”

Os filhos precisam encontrar um pai que os espera enquanto voltam, quando fracassam. Quando não encontram os braços do pai que os espera, abre feridas difíceis de se fechar e sarar. “O pai, portanto, sabe esperar e perdoar, e assim é capaz de corrigir com firmeza, porque não é um pai fraco, impaciente e sentimental. E isto deve se fazer com sabedoria e prudência, porque, – continua explicando o Papa- um pai deve saber corrigir sem humilhar, no desejo de corrigir os erros e tirar o mal que vê nas ações dos filho, mas sempre preservando sua dignidade, sem diminuir nunca o valor como pessoa e sem ferir nunca sua autoestima.

A paternidade em Amoris Laetitia

“Hoje os adultos são cruamente questionados: eles mesmos abandonam as certeza e, por isso, não dão orientações seguras e bem fundadas aos seus filhos. Não é sadio que se troque os papeis entre pais e filhos, o que estraga o adequado processo de maturação que os filhos precisam percorrer e nega um amor orientador que lhes ajudem a amadurecer. (AL 176)” 

O Papa afirma claramente que “toda criança tem direito a receber o amor do pai e da mãe, ambos são necessários ao  amadurecimento integral e harmonioso. (AL 172). E isto ocorre de forma plena aos filhos que requer tanto a forma de amor feminino, como a forma do amor masculino, que, de maneira diferente, mas complementária, exprimem o “rosto do Senhor”. Logo, é específico destas duas formas de amar, porque a partir da comparação podemos  compreender melhor o que é próprio da paternidade. 

O papel da mãe e do pai

A mãe tem a tarefa fundamental de fazer os filhos sentirem que são aceitos incondicionalmente, independentemente das capacidades e rendimento. A proximidade física da mãe, gestos,  sensibilidade feminina, dizem, auxilia a criança entender que ela é importante e uma alegria para a casa. Esta experiência é fundamental, pois todo o ser humano precisa ter a íntima certeza do próprio valor e dignidade.

Já o pai,  que passa ao filho que ele tem valor, mostra que confia, espera e acredita nas potencialidades e na capacidade, transmitida de pai para os filhos. O pai não teme apresentar os limites da vida aos filhos e empurrá-los ao mundo exterior. Na verdade, mais do que discursos, aprendem a respeitar as mulheres justamente na forma como pai se relaciona com a mãe. Este será o exemplo e o modelo que ficará no coração de um filho e que norteará as futuras relações de amizade e afeto com as mulheres e, sobretudo, ao futuro vínculo conjugal com sua esposa.

Os papéis maternos e paternos são, portanto, igualmente importantes e cita novamente o Papa:  “pai e mãe juntos ensinam o valor da reciprocidade, do encontro entre as diferentes pessoas, onde cada um contribui com sua identidade e sabe também receber do outro. Se por alguma razão inevitável falta um dos dois, é importante encontrar uma forma de compensar ,de promover o amadurecimento adequado da criança (AL 172)”.

A figura de São José em Patris Corde

Consideremos agora a Patris Corde, que nos leva a refletir sobre a paternidade através do modelo  de São José. José foi para Jesus um pai putativo (que lhe foi atribuído), ou se preferir, Jesus foi para José um filho adotivo.

Ser mãe, de fato, é natural, é a própria natureza que cria um vínculo físico, psicológico e emocional entre mãe e filho por meio da concepção, gravidez, parto, amamentação, etc. Em contraste, ser pai, isso se aplica aos pais biológicos, não é o resultado de um vínculo físico e natural, mas o resultado de uma escolha livre. É o resultado da aceitação de uma missão, de uma tarefa parental que não é dada como certa. O pai, depois do nascimento do filho, deve fazer o destino do filho, deve assumir a vida, o amadurecimento, a conversão em adulto.  Se não existe essa opção, o homem corre o risco de ser progenitor, mas sem se tornar pai.

O filho, portanto, pertence naturalmente à mãe que o carrega no seio, enquanto ele se torna filho do pai apenas se o pai assumir a responsabilidade de educá-lo. 

“Ninguém nasce pai, mas antes é feito e não é feito apenas para trazer uma criança ao mundo, mas para cuidar dela com responsabilidade. Cada vez que alguém assume a responsabilidade pela vida de uma outra pessoa, em certo sentido exerce a paternidade com relação a ele (PC 7).”

Isso é exatamente o que faz São José, ele cuidou do filho que lhe foi confiado e ensinou-lhe sobretudo a vida prática. Além de ensinar Jesus a ler e a escrever, ensinou o ofício de carpinteiro e, ainda, as coisas mais simples da vida, como acender fogo e cozinhar.

José também levou a sério a educação religiosa de Jesus: mandou circuncidá-Lo, apresentou-O ao templo, todos os anos O levava a Jerusalém para a Páscoa, fez com que Jesus, aos 12 anos, celebrasse algo semelhante ao que hoje para os judeus é o rito do bar mitzvah (filho da obrigação), ou seja, o momento em que um menino se torna membro pleno da comunidade judaica e começa para ele o compromisso pessoal de observar os preceitos da Torá.

José tem a tarefa de servir de modelo para o seu filho. Em primeiro lugar, porque toda criança, para amadurecer como pessoa, precisa de uma figura confiável e de autoridade a qual pode se identificar. E também porque a paternidade humana para cada ser humano é o caminho para a paternidade divina.

Isso significa que, normalmente, passamos a reconhecer a paternidade de Deus, a partir de modelos humanos, porque transferimos para Deus a experiência de pais terrenos que tivemos. Por isso, é muito importante que todos os filhos tenham experiências positivas com seus pais terrenos, já que isso lhes permitirá conhecer mais facilmente o “Pai celestial” que é o ponto de chegada de todo o caminho cristão.

Certamente podemos dizer que José foi para Jesus um reflexo claro da paternidade divina e um modelo exemplar de pai. 

São José, modelo de pai, marido e trabalhador

José é um modelo de marido, pai, trabalhador, homem que concilia a dimensão contemplativa com a ação, a santificação da vida cotidiana. Para Jesus, José é um modelo de obediência à vontade de Deus. Quando Deus se manifesta a ele em sonhos e lhe comunica Sua vontade, José obedece prontamente, sem colocar os próprios planos pessoais em primeiro lugar. Diz o Papa: “Em cada circunstância da sua vida, José soube pronunciar o fiat, como Maria na Anunciação e Jesus no Getsêmani”.

Muitas vezes no Evangelho ouvimos  Jesus dizer, “eu vim para fazer a vontade de meu Pai”. Pensamos que Jesus viu essa atitude perfeitamente corporificada em José, o pai terreno. José, para Jesus, é um modelo de humildade e mansidão e aceitação da amargura da vida. Aceitou sem rancor os rumores sobre Maria que deviam circular nas pequenas aldeias da Galiléia, sofreu as perseguições em Belém, aceitou com mansidão a vida de exilado no Egito.

José foi para Jesus um modelo de acolhimento amoroso, a tal ponto que o Papa o descreve como um “pai na ternura”, que acolheu este filho que não era seu, não de maneira formal e distante, mas com afeto, dedicação e ternura, e fez o mesmo com Maria.

Assim também fez Jesus a acolher os discípulos, os pobres, os pecadores e todos os que se aproximavam dele com amor, e por isso exclamava com dor a rejeição de muitos. José é um modelo de fiel cumprimento da missão lhe confiada, sem recuar, foi até o fim. Ele soube que recebeu de Deus a missão de “levar consigo o filho e a mãe”, e a realiza com perseverança e tenacidade, dedicando-se inteiramente à proteção e ao cuidado de Jesus e de Maria, sem hesitar e sem arrepender a vida que poderia ter sido diferente. 

A invisibilidade de José

Na vida oculta de Nazaré sob a orientação de José, Jesus aprendeu a fazer a vontade do pai. Mesmo no momento mais difícil  da sua vida, que foi no Getsêmani, preferiu fazer a vontade do Pai e não a própria, e tornou-se obediente até a morte, e morte de Cruz. José é um homem livre de todas as formas de amor possessivo. Podemos observar que o anjo se dirige a ele dizendo: levanta-te, leva o menino e sua mãe. Herodes vai procurar o menino para matá-lo. O anjo chama Jesus de “a criança” e não de “seu filho”. José não tem nenhuma posse sobre esta criança,  que, de fato, não é ‘“dele”.

E ainda assim, José, com discrição, educa, ama, acolhe o que não engendrou, mantendo de alguma forma seu distanciamento. Mesmo um pai biológico não pode apropriar do filhos, não pode esperar, por exemplo que seus filhos realizem as suas aspirações a todo custo. Um pai não quer se colocar no centro dos afetos e interesses de seus filhos, mas sabe , como amá-lo, apoiá-lo e orienta-lo e, ao mesmo tempo, sabe como manter a distância. Afinal, cada filho é uma vida que Deus confiou aos pais, mas que eles não possuem. Cada pessoa, de fato, em última análise, pertence a Deus.

Na Patris Corde vemos à imagem evocativa de um escritor que define São José como “a sombra do Pai”. O Papa explica: José é para Jesus a sombra do Pai celeste na terra. José portanto é a sombra de Deus Pai, mas ao mesmo tempo, ele mesmo  “permanece na sombra”. Os reis magos não notam a figura de José. Mas ele foi uma figura fundamental para Jesus, para Maria e para toda história da salvação. Mesmo durante a vida terrena, é como se tivesse permanecido invisível. Ninguém o nota. Ninguém valoriza suas qualidades. Não há uma única palavra falada por ele nos Evangelhos. Apenas alguns dos mais humildes parecem notá-lo. É o que monstra no Evangelho de Lucas, ao relatar que os pastores encontraram Maria, José e o recém nascido. Para as pessoas mais importantes, para os próprios conterrâneos de Belém, ele quase não existe, só os pobres notam sua presença.

Toda a missão de José se desenvolve neste silêncio, nesta sombra. Tudo o que José faz é por obediência a Deus, não para ser elogiado por alguém. E ele não reclama desse silêncio. Ele faz o que Deus lhe disse para fazer e está contente com o prazer secreto do Pai e a aclamação de sua consciência. Ele não está procurando por mais nada.

A necessidade dos likes para ser notado 

Tudo isso é muito importante para nós, na cultura em que estamos imersos. Na ocultação de José, vemos o caráter de um verdadeiro pai e de um verdadeiro homem. Hoje, porém, parece que todos precisam desesperadamente aparecer, serem vistos, receberem aplausos. Tudo o que se faz, mesmo o mais trivial, tem que aparecer imediatamente no Facebook. Se algo não aparece nas redes sociais, é como se não existisse, se alguém não recebe likes o suficiente, sente-se ofendido e ocultado.

São José é o antídoto mais eficaz para essa forma doentia de narcisismo. Um verdadeiro pai que cumpre com o dever e se sacrifica porque é isso o bem de seus filhos, além de exigir o que Deus lhe pede, permanecendo fiel à sua missão de marido e pai por toda a vida, mesmo que ninguém o note e não perceba-se todo o bem que ele fez. 

Assim finaliza o Cardeal Kevin Farrell:

“Queridos amigos, espero que estas simples reflexões possam ser de alguma ajuda para a grande missão que espera as famílias que fazem parte da Comunidade Shalom, especialmente os pais e, junto com eles, suas esposas e os filhos. Peço ao Senhor que as suas famílias sejam imagens da Sagrada Família de Nazaré, onde cada nova vida que vem ao mundo e que lhes é confiada encontre o lugar certo para crescer e abrir-se aos planos de santidade que Deus tem para cada um de nós. Obrigado e que Deus te abençoe.” 

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