Nos dias 25 e 26 de outubro, a Comunidade Shalom em Brasília esteve reunida para vivenciar a edição deste ano do CACV. O retiro é um encontro anual, previsto nos estatutos da Comunidade Shalom, que reúne os missionários para a formação intelectual em vista do serviço pelo Reino de Deus. Durante dois dias, os membros da Comunidade de Vida e de Aliança se encontraram no Auditório do Colégio Marista em Taguatinga para rezar, conviver e aprender mais sobre o tema proposto para este ano: “Aprendendo com o Coração de Jesus a Compaixão pelo mundo”. Nos dois dias, os consagrados viveram fortes momentos de oração, adoração, Laudes e Santa Missa.
O encontro contou também com a presença do Núncio Apostólico no Brasil, Exma. Revma Dom Giambatista Diquattro, que durante a tarde deste domingo (26) partilhou suas reflexões sobre a Exortação Apostólica Dilexit Te, a primeira do Papa Leão XIV. (Saiba mais abaixo).
Dilexit nos
No primeiro ensino do encontro, a missionária da Comunidade de Vida Joicy Nazareth partilhou sobre a Dilexit nos, a Carta Encíclica do Papa Francisco sobre o Amor Humano e Divino do Coração de Jesus, lançada em outubro de 2024. Joicy lembrou que o estudo da encíclica nos convida a moldar o coração conforme o de Cristo. Durante séculos, a teologia e a antropologia se dedicaram a compreender a razão, a inteligência e a vontade humanas, mas pouco se aprofundou o mistério do coração. No sentido bíblico e ontológico, ele é o centro das decisões mais profundas — aquilo que define quem realmente somos e onde se dão as relações que nos tornam humanos. O homem só se realiza plenamente quando se relaciona. O Papa Francisco observa que o homem contemporâneo está cada vez mais distante do coração de Cristo. Mas esse diagnóstico não é apenas um olhar sobre o mundo; é também uma autocrítica, porque quando se fala de humanidade, falamos de nós mesmos. “Somos nós os primeiros a voltarmos para o essencial”, recorda o Papa. “É necessário recuperar a importância do coração quando a superficialidade e a pressa tentam dominar nossa vida, levando-nos a viver sem saber bem para quê”, afirmou Joicy.
Dilexit te
A presença de Dom Giambatista Diquattro encerrou o retiro, oferecendo uma profunda meditação sobre a encíclica Dilexit te e o Magistério do Papa Leão XIV. Em sua reflexão, com o tema do retiro – “Aprendendo com o Coração de Jesus a Compaixão pelo mundo” , o Núncio não apenas confirmou a importância da redescoberta do Coração de Cristo — o lugar do encontro pessoal com o Senhor e a fonte da compaixão autêntica — mas também delineou um roteiro espiritual concreto para a Comunidade Shalom.
O desafio, para o corpo de missionários, é transformar a devoção em ação, configurando a vida comunitária com base na atitude de Cristo. Para que a evangelização da Comunidade seja autêntica e a sua oferta de vida frutífera, a reflexão do Núncio se concentra em três eixos essenciais:
1. Sejam Protagonistas da Cura e Testemunhas de uma Alternativa de Vida
A Comunidade Shalom é chamada a reagir ao “diagnóstico de uma humanidade ferida” que perdeu o seu centro vital. A reflexão apela aos membros para que não sejam “espectadores passivos” , mas sim “protagonistas da cura e da esperança”.
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É um alerta para evitar que a vida comunitária seja contaminada pela “superficialidade” e pela “pressa” do mundo.
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A vocação deles é ser “testemunha de uma possível alternativa” , para mostrar que existe um modo de vida centrado no coração, na profundidade, na autenticidade dos relacionamentos.
2. Tornar a Compaixão o Paradigma Central de Vida e Missão
A compaixão é apresentada como a “forma suprema de amor”. Este não é um sentimento passivo , mas um dinamismo que deve orientar a ação da comunidade:
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O paradigma do Bom Samaritano — que implica “ver verdadeiramente” a condição do outro, “deixar-se tocar”por seu sofrimento, e “agir concretamente” para aliviar a dor — deve ser central para a vida e missão da Comunidade Shalom.
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Eles devem se tornar uma “comunidade compassiva” , capaz de enxergar as feridas do mundo e agir para curá-las.
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A proclamação do Evangelho se torna um gesto de compaixão, um ato de serviço, uma oferta de esperança.
3. Fazer do Equilíbrio entre Contemplação e Missão a Própria Identidade
O Núncio destaca que a devoção autêntica ao Sagrado Coração requer manter juntas a experiência espiritual pessoal e o compromisso comunitário e missionário.
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Esse equilíbrio deve constituir a “própria identidade” da Comunidade Shalom.
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Eles são chamados a ser “contemplativos em missão e missionários em contemplação”.
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A resposta natural a essa experiência é a “oferta da vida” , que deve se tornar a “marca registrada de sua espiritualidade e missão” , traduzida em compromisso concreto com a justiça, a paz e o cuidado com a criação.
O texto na íntegra da reflexão de dom Giambattista Diquattro está disponível aqui.
Núncio responde à perguntas

Quando questionado sobre como os leigos, famílias, sacerdotes podem colaborar de forma efetiva com a missão da Igreja no mundo, o Núncio respondeu que “hoje o desafio principal no mundo é a comunhão”. Segundo ele, a Sinodalidade – capacidade de estar unidos mesmo na diferença, os carismas, são dons do Espírito Santo para a Igreja. Para ele, nossa dignidade do batismo, é uma ajuda para servir à Igreja. O corpo de Cristo recebe dons para servir à Igreja. “Devemos desejar servir, mais e mais a cada dia. Essa é a vocação do nosso batismo!”, disse. Ele completa: “Nossa vida é perfume para os demais. Devemos transmitir o perfume de Cristo, no nosso sacrifício de cada dia! Essa é a missão dos leigos, dos sacerdotes, da comunidade para a humanidade”.
Ainda sobre Sinodalidade, Joana perguntou porque este é um tema tão destacado pela Igreja nos últimos tempos. Segundo o Núncio, Depois do Concílio Vaticano II a Igreja criou instituições de comunhão. Agora a comunhão se dinamiza. A Igreja ganha uma consciência nova, um amadurecimento, que caminha não para uma nova igreja, mas para a fidelidade da continuidade.
“A Igreja é a família de Deus. Tem uma dimensão do passado e do futuro. Uma família de reis e imperadores precisa proteger sua identidade: nossa identidade é o Evangelho, é o Magistério, o Crescimento sacramental. Então o dinamismo (da sinodalidade) não é revolucionário, mas um dinamismo de continuidade, coerência, fidelidade ao Evangelho. Isso se chama Caminho Sinodal. Juntos, com diferentes tarefas, carismas, vivemos essa riqueza do Espírito Santo, todos juntos, como irmãos, como irmãs. Não há divisões hierárquicas com pessoas superiores. O único mestre é Jesus, e por meio do Espírito Santo, nos ensina o caminho comum da família do povo de Deus”, finalizou.
Ao encerrar o CACV, a mensagem de Dom Giambatista Diquattro ressoa como um chamado direto à radicalidade do Evangelho. O desafio, para cada missionário do Shalom, é fazer da própria vida um sinal vivo do Coração de Cristo: um coração compassivo, que se traduz em zelo missionário e na totalidade do dom de si. Em um mundo ferido pela indiferença, o Núncio enfatizou que a Comunidade Shalom é chamada a ser uma “presença que consola, uma voz que protege, um olhar que escuta”, cumprindo a vocação de ser um sinal vivo de uma humanidade reconciliada, onde o amor fraterno é o fundamento e o Coração de Cristo continua a pulsar nos corações de seus discípulos.