Formação

Se creres, verás a glória de Deus

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Vicente de Paula Abreu

Mal cheiro… decomposição… morto há quatro dias… Esta era a situação desoladora de Lázaro. Havia muita gente tentando consolar suas irmãs Marta e Maria. Mas, na verdade, todos estavam inconsolados, pois Lázaro era muito querido e falecera ainda novo. Tudo era silêncio e tristeza.
De repente chega um grande grupo na casa e começa um alvoroço. Marta sai correndo para ver o que estava acontecendo. Do lado de fora da casa pára e vê uma multidão se aproximando. Começa a reconhecer os discípulos de Jesus, amigos e simpatizantes do mestre e, finalmente, Ele se destaca no meio deles.

Ao reconhecê-lo, Marta corre ao seu encontro e, deixando extravasar o pranto e a dor, desabafa: “Se estivesses aqui meu irmão não teria morrido”. Responde Jesus: “Teu irmão há de ressuscitar”. Ela, recordando-se de um dos principais ensinamentos dele, diz: “Eu sei que ele há de ressuscitar no último dia”. E Jesus, certamente segurando o rosto de Marta e olhando-a nos olhos com ternura e firmeza, afirma: “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto viverá… crês nisto?”

Marta, não compreendendo o alcance das palavras de Jesus, responde: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem a este mundo”. E vai avisar a Maria que Jesus chegou. Esta, ao saber que Jesus chegara, corre ao seu encontro e lança-se aos seus pés chorando. Também ela desabafa: “Se estivesses aqui meu irmão não teria morrido”. A comoção é tamanha, que Jesus também chora. E pede que o levem ao túmulo.

Chegando lá, ordena: “Tirem a pedra”. Ora, para a sociedade, o que Jesus acaba de ordenar é um grande absurdo. Para eles, quem ao menos passasse perto de um túmulo era considerado impuro. Quanto mais quem o “violasse”, tirando-lhe a pedra. Marta diz: “Senhor, já cheira mal, pois está aí há quatro dias!” Mas Ele responde: “Marta, eu não te falei que, se creres, verás a glória de Deus?”

Tiraram, pois, a pedra. Jesus agradeceu ao Pai e, com um forte grito, ordenou: “Lázaro, vem para fora”. Silêncio total! O que terá passado pelo coração de cada um ali presente nesse momento? Quem terá conseguido piscar os olhos nessa hora? A expectativa do que aconteceria prendia a respiração de todos. E, de repente, “saiu o que estivera morto”. Lázaro ressuscitou, e muitos creram em Jesus.

A morte espiritual

Reler esse texto, ou melhor, reviver a cena da ressurreição de Lázaro, é sempre maravilhoso! Este, certamente, foi o milagre mais espantoso que Jesus realizou em sua vida pública; foi seu último milagre antes de ir a Jerusalém, para a última páscoa e morrer crucificado.

Quem diria… um cadáver, em decomposição há quatro dias, volta a viver! É realmente impressionante! Porém, ao reler e meditar, corremos o risco de parar no tempo, há dois mil anos, pensando que aquilo só aconteceu lá. Isso é um engano! Jesus está vivo e é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ele pode, quando quiser, ressuscitar um morto, como de fato têm testemunhado alguns missionários contemporâneos nossos.

Mas convenhamos, esse é um milagre que Jesus fez e fará para que se manifeste a sua glória e para que creiam nele. Não veremos isto acontecendo a todo momento. Afinal, a morte é parte importante no ciclo natural de nossa vida.

Existe, porém, uma morte que não faz parte do “ciclo natural da vida”. Ela é como que um aborto em nossa existência e dela, mais do que nunca, Jesus quer nos libertar. Trata-se da morte espiritual.
Na verdade, ela é pior que a morte física, pois trava o nosso coração, tornando-o cego às realidades maravilhosas que Deus reservou para nós. Ela é tão sinistra que pode nos matar, mesmo antes da morte física. E isto, sim, devemos temer.

A nossa ressurreição

Mas o que fazer?! “Tirai a pedra”.
Diante da ressurreição de um morto, afastar uma pedra era coisa muito simples. Entretanto, Jesus não o fez; ao contrário, ordenou que os presentes o fizessem. E eles obedeceram. Correram o risco de tornarem-se impuros ao tocar num túmulo, mas obedeceram. Da mesma forma Jesus nos fala hoje: “Tire a pedra! Reconheça que existe morte dentro de você. Reconheça que você precisa da minha salvação”. Nossa sociedade também tem seus tabus quanto a isso. Entrar em si mesmo, reconhecer a morte, identificar e aceitar nossas máscaras e “cartas escondidas”, é coisa que não se faz. Mas é preciso correr o risco de tornarmo-nos “impuros” e mergulharmos dentro de nós mesmos.

Aí corremos outro perigo: o de querermos purificar a nós mesmos para que então o Senhor faça a sua obra. Situação semelhante seria se aqueles que tiraram a pedra do túmulo de Lázaro quisessem eles mesmos devolver-lhe a vida. Não. Isso é para Deus. Só Ele pode – e quer – fazê-lo. Nosso trabalho é de apenas reconhecer a morte em nós, o homem velho que sempre quer voltar, e de nos apresentarmos a Jesus tal qual nós estamos: cheirando mal, enrijecidos, machucados. O filho pródigo não se limpou antes de voltar para a casa do seu pai. Ele foi como estava: sujo, feio, cheirando mal. Mas o pai o recebeu com festa e o purificou.

Também nós, apresentemo-nos a Jesus como estamos agora. Não queiramos nos purificar para ir até Ele. É Ele quem purifica, é Ele quem dá a vida. E digamos: “Senhor, aqui estou eu. Tu me conheces e sabes de tudo: da morte que existe em mim, das máscaras que uso, das cartas escondidas em minha manga… E é assim que me apresento a ti. Ressuscita-me, Senhor. Devolve-me a vida. Dá-me a tua transparência. Cura-me de tantos traumas, decepções e sofrimentos que me fazem agir assim…”. E Jesus vai segurar nosso rosto com suas mãos, vai olhar nossos olhos com ternura e firmeza e vai dizer: “Não tiveste medo de descer até este túmulo. Pois eu te digo que, se creres, verás a glória de Deus. Eu sou a ressurreição e a vida. Estou em ti. Vieste ao fundo do túmulo e aí me encontraste vivo e ressuscitado por ti, para ti. Dá-me tua morte, recebe minha vida”.

Que nos restará responder senão: “Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vieste a este mundo por amor a mim, e creio que tu podes e queres ressuscitar-me. Que assim seja!”.
E o mundo será melhor, tendo mais pessoas “necessitadas” e transparentes.

Façamos sempre este exercício. Não deixemos que a morte se apodere de nós novamente. Vamos deixar que a cada dia o Senhor nos cure mais e mais, nos ressuscite continuamente a fim de que nossa vida testemunhe que Ele é a ressurreição e a vida.

A confissão pode-nos ser também uma fonte sempre renovadora da ressurreição do Senhor, pois, para confessarmo-nos, é preciso descer ao nosso “túmulo”, reconhecer a morte, a podridão que existe em nós e passarmos pela humilhação de contarmos a alguém (ao sacerdote, que representa Jesus). Contudo, ali também está a palavra de Jesus que diz: “Lázaro, vem para fora”, quando o padre diz: “Eu te absolvo de todos os teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Portanto, não deixemos a ressurreição passar indiferente em nossa vida, como se fosse um acontecimento da vida de Jesus que não nos diz respeito. Apoderemo-nos dela pelo poder do Espírito Santo e deixemos que o Senhor nos revele suas riquezas que estão, desde toda a eternidade, reservadas para nós, para cada um de nós, pessoalmente. Pois a ressurreição que Deus faz em nossa vida, por meio e com Jesus Vivo e Ressuscitado, é uma ressurreição eterna, jamais terá fim!
Não percamos esta oportunidade, mas nos lancemos na


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