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Seminarista no Marajó testemunha viagem pastoral às comunidades ribeirinhas

Enfrentar maresia, dormir no barco e assistir ao pôr-do sol da Amazônia se torna rotina para o seminarista do Marajó durante as viagens pastorais às comunidades ribeirinhas de Chaves-PA.

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Fernando é seminarista da Comunidade Shalom no Marajó.

Como é a vida de um seminarista para você? Além de muito tempo de estudo, os jovens que se preparam para o sacerdócio também vivem um estágio pastoral junto às paróquias. 

É o caso do Antonio Fernando, seminarista da Comunidade de Vida Shalom. Após concluir seus estudos em Filosofia na Arquidiocese de Fortaleza-CE–CE, ele foi enviado em missão para viver o estágio pastoral na Prelazia do Marajó, especificamente no município de Chaves–PA. 

Entre as responsabilidades dele no município está a coordenação das ações apostólicas da Comunidade Shalom que atua na zona urbana de Chaves por meio do Espaço de Paz. Mas também, outro papel desempenhado por ele é o acompanhamento do padre da Paróquia Santo Antônio, o Pe. Michal Mateusz Mikulski (sacerdote polonês), nas viagens pastorais às comunidades ribeirinhas do município. 

Fernando acompanha Pe. Michael nas viagens ribeirinhas. Imagem: Arquivo pessoal.

Ser seminarista no Marajó é anunciar o Ressuscitado

Membro com promessas no carisma Shalom, Fernando tem a missionariedade como lema da sua vocação.

“Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura.” (Marcos 16, 15)

“Este mandato de Jesus ecoa no meu coração desde o meu envio estágio para a missão da Comunidade em Chaves, Marajó – PA, vivendo o tempo de estágio pastoral, e se renova a cada visita às comunidades ribeirinhas: ir aos mais distantes, onde o acesso é mais remoto e a esses anunciar Cristo Ressuscitado, que é uma Pessoa, que está vivo, fala, ensina, acolhe, perdoa, salva, ama a todos, ama a cada um.

Durante a viagem pastoral, o barco se torna não só transporte como também casa para os missionários do Marajó. Imagem: arquivo pessoal.

Desafios da evangelização no interior do Marajó

São mais de cinquenta comunidades ribeirinhas distribuídas em seis setores a serem visitados ao longo de um ano.

Recentemente, no dia de São João Maria Vianney, o Cura D’Ars, ele chegou de uma dessas viagens missionárias, onde passou por cinco comunidades ribeirinhas: São Francisco – Karina, Nossa Senhora de Fátima – Rio Jurará, São Benedito e São Pedro – Rio Cururu, Nossa Senhora de Nazaré – Vila Sorriso, Rio Santa Maria.

Ao comshalom, ele compartilhou como foi sua experiência:

Embarcamos no Boa Semente (barco motor da Paróquia de Santo Antônio), saímos de Chaves (sede do município) para alguns desses setores, temos uma rota e um cronograma básico para cada comunidade: reunião com a comunidade na chegada ao final da tarde ou noite, encontro no dia seguinte pela manhã com pregação do Padre e depois faço a preparação para confissão e uma pregação espontânea. Após encerradas as confissões, temos a Santa Missa e diante da preparação daquela comunidade dentro da Missa, são celebrados o Batismo, Primeira Eucaristia e/ou Matrimônio“.

Na visita às comunidades ribeirinhas, Fernando prepara os fiéis para receber o sacramento da Reconciliação. Imagem: Arquivo pessoal.

Para os seminaristas, o acompanhamento dos sacerdotes nos sacramentos costuma ser parte da rotina. No entanto, no Marajó — onde há escassez de padres — esse serviço nas regiões ribeirinhas é raro: em comunidades ribeirinhas como as de Chaves, os sacramentos são celebrados apenas uma vez por ano.

Isso acontece por três motivos pontuados pelo clero da região: a extensão geográfica do município/Paróquia; quantidade de comunidades; dificuldade geográfica para locomoção. Esta última ocorre devido às mudanças climáticas das localidades. Para a maioria das comunidades, é preciso esperar a chegada do inverno, para evitar viagens fluviais com maresia (ventania forte). Enquanto para outras só é possível viajar durante o verão, por terra.

Como é a viagem às comunidades ribeirinhas? 

Segundo o seminarista, a viagem para cada comunidade ribeirinha costuma ser longa e a “maresia” – ondas que sacodem o barco – são intensas.

Além disso, o “caminho elevado do chão de madeira/palafitas – que dá acesso à Igreja às vezes não está tão firme. A cabeça fica balançando quando volta para terra firme depois do 5º dia morando no barco… Em meio a tudo isso: a natureza amazônica, o pôr do sol no meio da floresta, o céu todo iluminado de estrelas, os carapanãs (pernilongos)…”

Fotografia de trapiche no Marajó. Imagem: Arquivo pessoal de Fernando.

“Quando saímos rio adentro, às vezes recordo de São Paulo quando fala que sofreu naufrágios, riscos navegando, que estavam acabados, mas não vencidos. Paro, olho para nós que vivemos tudo isso de forma renovada, olho também para mim mesmo e sempre o que me vem junto, a gratidão é o reconhecimento de que não sou digno de tanta graça de tocar neste povo!”

Fernando compara a “aventura missionária” – que ele caracteriza como cheia de diversão e alegria – como o que os doze discípulos devem ter passado com Jesus.

“Parar para rezar entre uma comunidade e outra, e recordar que isso acontece apenas uma vez por ano, enche ainda mais de significado tudo isso, desperta uma santa compaixão: este povo tem Jesus na Confissão e na Eucaristia apenas uma vez por ano! Todos os desafios não são nada diante da missão de levar Jesus a um povo, mesmo que sejam apenas a quinze ou vinte pessoas.”

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O “já e o ainda não” do caminho sacerdotal

O contato com os ribeirinhos e essa experiência de missão extraordinária reforça no seminarista a certeza do seu chamado sacerdotal. “Quando parava e olhava para cada um dos que iam comungar, indo até a fila e recebendo Jesus, ou quando olhava o Padre confessando uma fila grande, me vinha uma santa ânsia em antecipar a graça do sacerdócio para também eu poder levar Jesus a eles, mas este ‘já e ainda não’ é muito fecundo, me fazendo entender melhor o que é ser um Padre, um Pai, e vejo que mesmo ainda não tendo sido ordenando, já sou um pai para esse povo.”

Fiéis da Comunidade São Pedro do Rio Cururu. Imagem: arquivo pessoal.

A veste do seminarista, especialmente o colarinho clerical (clergyman), também atrai os olhares dos ribeirinhos que, na maioria das vezes, acreditam que ele já é sacerdote. Tão logo o tratam como um ministro ordenado, ele esclarece que ainda não o é, mas que está se preparando.

“Desperta sempre mais a convicção de que fui eleito e enviado para isso, para ser já aqui, no hoje da minha vida, Jesus para eles, um pai para esse povo, hoje o meu povo Marajoara.”

O retorno da viagem pastoral 

Para o seminarista, encerrar a visita pastoral no dia do padroeiro dos párocos foi: “um grande sinal divino para lançar mãos na Obra de Deus junto ao povo que Ele me confia, como foi em vida e o é no Céu, o Cura D’Ars.”

Apesar de a messe ser grande: almas foram salvas, novos filhos de Deus foram batizados, novos adolescentes fizeram sua primeira comunhão, famílias foram alcançadas, e nisso tudo, boas sementes foram lançadas e fica Deus no coração deles e no meu”, afirma.

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O encontro com Cristo

A gratidão de Fernando é para com Deus que lhe enviou, mas também pelo povo marajoara que o acolheu e lhe apresentou também o rosto de Deus.

“Eu encontrei Cristo na mesa jantando comigo ou esperando que nós comêssemos para comer depois, eu vi Jesus me acolhendo em sua casa para tomar um café, me dando açaí, me dando um quarto para dormir, sorrindo para mim. Ah… foi Jesus quem esteve ali, e Ele está comigo e fica com eles também.”

Fernando acompanhado dos acólitos da Paróquia de Santo Antônio que também servem nas viagens pastorais. Imagem: Arquivo pessoal.

“Obrigado Senhor por me teres escolhido! E ainda: se depender de mim sempre haverá novos Padres”, Antonio Fernando, seminarista da Comunidade Shalom em Chaves-PA.

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