A marca que permanece

Algumas marcas se perdem com o tempo, outras atravessam gerações. Há pegadas que o vento apaga, mas existem sinais que ficam gravados no coração e nunca desaparecem. Vivemos numa época em que muitos querem deixar sua marca por meio de números, conquistas e imagens bem construídas, mas o mês missionário nos lembra de algo maior: a única marca que realmente importa é aquela que nasce do amor, uma marca que não carrega o nosso nome, mas revela a presença de Deus por meio da nossa vida. Essa marca não precisa de palco nem de aplausos, porque nasce no cotidiano — na paciência de quem ensina, na escuta atenta que consola, no abraço que devolve coragem, no olhar que lembra ao outro que ele vale a pena. É assim que compreendo a missão que carrego como professor. A sala de aula não é apenas um lugar de fórmulas e conceitos, mas um espaço de encontros. Cada aluno carrega um mundo dentro de si, e muitas vezes é preciso mais sensibilidade do que palavras para entrar nesse mundo com respeito e cuidado. A missão se revela nesses detalhes. Ser missionário não é, necessariamente, atravessar oceanos, mas aprender a atravessar as distâncias que existem entre as pessoas que estão ao nosso redor. E como há distâncias! Há jovens que carregam feridas, que vivem cercados de barulho e, ao mesmo tempo, mergulhados em solidão; há quem precise de alguém que simplesmente os veja. Acredito que a marca que podemos deixar começa assim: com presença. LEIA TAMBÉM | Nascemos para a missão: um convite ao envio missionário A educação é uma missão que transforma tanto quem ensina quanto quem aprende. Já vi alunos encontrarem sentido nas pequenas vitórias, descobrirem força em meio ao fracasso, se levantarem depois de quedas que pareciam definitivas. Nesses momentos, percebo que a missão não se limita ao conteúdo programado, pois ensinar também é acompanhar, provocar reflexões, abrir horizontes, plantar esperança. Às vezes, a lição mais importante não está no quadro, mas no silêncio de quem acredita no outro quando ele mesmo já não acredita em si. Deixar uma marca verdadeira não tem nada a ver com ser lembrado, mas com permitir que Cristo seja lembrado. Não é sobre o reconhecimento que recebemos, mas sobre o bem que fica quando já não estivermos presentes. Num mundo que muda tão rápido, onde tantas coisas são descartáveis, é urgente viver de forma que nossos gestos carreguem peso de eternidade — não pelo tamanho, mas pelo amor com que são feitos. E quando penso no futuro, imagino que muito do que fiz será esquecido. Minhas palavras, meus projetos, meus títulos perderão importância, mas talvez um sorriso que ofereci num dia difícil, uma palavra de incentivo, uma paciência inesperada permaneça. Talvez um jovem que pensei não estar ouvindo tenha levado para a vida um gesto meu, e isso o tenha ajudado a encontrar força para seguir. É assim que vejo a missão: uma semente pequena, muitas vezes invisível, que floresce quando menos esperamos. Por isso, não quero me preocupar em “deixar a minha marca”. Quero ser instrumento para que Deus deixe a Dele. Quero que cada encontro, cada aluno, cada conversa traga um pouco de luz. Quero que as pessoas sintam alívio e esperança depois de cruzar o meu caminho. No fim, é isso que ficará: não o que construímos para nós, mas o que ajudamos os outros a construir; não o que acumulamos, mas o amor que demos; não os resultados que conquistamos, mas as vidas que tocamos. A missão não é uma tarefa reservada a alguns, mas um chamado para todos. E é justamente na simplicidade que ela se torna mais poderosa. Uma vida vivida com amor, sem pressa de aparecer, sem medo de se gastar, deixa marcas que o tempo não apaga. Quando tudo for silêncio e o mundo seguir sem saber quem fomos, essas marcas ainda estarão lá, naqueles que um dia se sentiram amados, fortalecidos, lembrados. Essa é a marca que permanece. Anderson Luis Barbosa da Costa Comunidade de Aliança Missão Rio de Janeiro

Comunhão de Bens: “Arrependimento por todas as vezes que fui infiel”

Meu nome é Witallo Bispo, tenho 21 anos e sou vocacionado Shalom na Missão Maceió. Estou na Obra Shalom há 6 anos. A minha experiência com a comunhão de bens sempre foi um exercício de sair de mim e de me mortificar. Nela, eu percebia o quanto era apegado às coisas materiais. Sempre foi uma dificuldade para mim, desde o tempo que iniciei na obra. Muitas vezes cheguei a enxergá-la como algo impossível, pois não entendia bem a sua necessidade, nem o que de fato significava ou para que servia, e eu nem entendia quando diziam “ficar 15% mais pobre”. Assim, segui na maioria das vezes na infidelidade, dando a comunhão de bens apenas quando sobrava, sem compreender a importância que ela tem. Mas a minha visão mudou. Lembro-me do meu primeiro dia de experiência na célula com a Comunidade de Aliança: a formação era muito propícia, pois estávamos na semana da unidade e o tema era sobre os laços espirituais e a comunhão de bens. A pregadora dizia: “Deus nos criou numa família espiritual, e os laços que nos unem são mais fortes do que os de sangue. Fomos escolhidos por Deus.” Aquilo me ajudou a compreender a dimensão do “somos uma família”. Ela ainda partilhou uma experiência pessoal da época do seu postulantado, onde se viu necessitada, ela que havia feito planos de ser fiel a sua comunhão de bens, se viu na necessidade daquele dinheiro para o sustento da sua familia. Quando ela apresentou isso à comunidade, recebeu auxílio. Foi fiel à comunhão de bens e, ao mesmo tempo, assistida pela própria comunidade diante das dificuldades. E esse gesto alcançou  a sua família, a ponto de seu irmão ingressar também na comunidade tempos depois. Isso foi muito marcante para mim. Depois da formação, meus irmãos de missão também partilharam suas experiências. Fui muito tocado pela simplicidade e pela forma como testemunhavam quantas vezes foram assistidos, sustentados e até salvos porque outros irmãos foram fiéis à comunhão de bens. E não apenas os irmãos locais, mas também missões em outros países, onde pessoas são alcançadas por Deus porque, aqui, alguém foi fiel e contribuiu. Esse gesto se torna sustento de missões. Naquele momento, senti um grande arrependimento por todas as vezes em que fui infiel e não dei a devida importância à comunhão de bens, hoje compreendo a importância, e dou prioridade a ela, mesmo que falte, mas eu preciso ser fiel, um “dar de graça o dom recebido de Deus”, até porque é Ele mesmo quem providencia.    

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