Chegamos ao 20º Domingo do Tempo Comum, e o Evangelho deste domingo nos leva para fora das fronteiras de Israel, à região pagã de Tiro e Sidônia, onde uma mulher cananeia vem ao encontro de Jesus (Mt 15,21-28). Na maioria dos lugares, a CNBB transfere a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, do dia 15 de agosto para o domingo. Mas nas cidades e dioceses em que a Solenidade é celebrada no próprio dia 15, o Evangelho é este que a Igreja nos oferece. Embora o Evangelho de Mt 15,21-28 não fale diretamente da Assunção, a fé perseverante da cananeia pode inspirar nossa confiança na oração. A Igreja contempla essa atitude de confiança de maneira eminente em Maria, que, unida ao Filho, permanece Mãe espiritual dos fiéis e intercede por eles sem jamais substituir Cristo.
No centro de tudo está uma mulher pagã que se torna, para muitos em Israel, um exemplo de fé. Ela grita, insiste, prostra-se diante de Jesus e não desiste, mesmo diante do silêncio de Jesus, até ouvir dele: “Mulher, grande é a tua fé.” (Mt 15,28). Como sempre, escolhemos cinco pontos para a sua meditação e oração, que partilhamos no podcast(com legendas no seu idioma). Pegue a sua Bíblia, abra em Mateus 15,21-28, leia com calma a passagem e volte para rezar conosco.
1. “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim”
O primeiro grito da cananeia já é uma pequena profissão de fé: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim” (Mt 15,22). Ao chamá-lo “Senhor”, ela reconhece em Jesus uma autoridade soberana e recorre a ele com confiança; ao chamá-lo ‘Filho de Davi’, reconhece nele o Messias esperado por Israel que São Mateus tanto sublinha, desde a primeira página do seu Evangelho (cf. Mt 1,1) até os cegos de Jericó que assim clamam (cf. Mt 20,30-31) e a entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,9). Como esta mulher, vinda de uma terra pagã, chegou a reconhecer isso, o Evangelho não diz. Mas é para nós um convite a reconhecer, mais uma vez, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado, e por isso podemos depositar nele nossa confiança.
Repare que ela pede piedade dela, e não apenas piedade da filha. Alguns comentadores observam que, ao dizer ‘tem piedade de mim’, a mãe se identifica profundamente com o sofrimento da filha: a dor dela tornou-se também a sua. Ela pede por si, em favor da filha. E este “tem piedade de mim” acaba sendo a oração de tantos e tantos corações, a mesma oração do peregrino russo: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador!”. Quando reconhecemos que somos dignos de misericórdia, muda a nossa maneira de nos relacionarmos com Deus. Diante de Deus não podemos comprar a graça nem exigir sua misericórdia como se fossem uma dívida. Tudo o que oferecemos já é possível porque a própria graça nos precede e nos sustenta. Santo Tomás lembra que a amizade nasce de algo em comum, mas com Deus a nossa parte é só receber. Quando entendemos que a amizade com Deus é pura misericórdia, tudo muda. Aqui fica uma pergunta para a sua oração: você ainda acha que precisa merecer o amor de Deus, ou já reconheceu que ele é gratuito, por pura misericórdia? Há dois domingos meditamos como o Senhor se encheu de compaixão diante da multidão (cf. Mt 14,14); vale reescutar aquele episódio.
2. “Jesus não lhe respondeu palavra alguma”
Vem então um detalhe que incomoda: “Mas Jesus não lhe respondeu palavra alguma.” (Mt 15,23). O silêncio de Deus muitas vezes nos inquieta. Mas quando o Senhor se cala, quando não responde palavra alguma, isso não significa que ele não esteja nos ouvindo. Pelo contrário: Ele ouvia tanto que já incomodava os apóstolos, como eles mesmos vão dizer logo em seguida. Não precisamos afirmar que Jesus estava simplesmente retardando uma decisão já determinada. O silêncio de Jesus não deve ser interpretado como indiferença. Na dinâmica do relato, ele permite que a perseverança e a confiança daquela mulher se manifestem e sejam reconhecidas.
Também na nossa oração o silêncio educa. Santo Agostinho ensina que Deus, às vezes, demora para que cresçamos no desejo e na confiança. Duas passagens iluminam esta cena: a viúva insistente diante do juiz, que o Senhor conta justamente para dizer que é preciso orar sempre, sem desanimar (cf. Lc 18,1-8), e o cego de Jericó, que quanto mais o mandavam calar, mais gritava: Filho de Davi, tem piedade de mim (cf. Mc 10,46-52). O silêncio de Jesus não é ausência; é convite a insistir e a não desistir. Não nos apressemos: Deus conhece nossas necessidades e nos ensina a confiar nele, mesmo quando a resposta não vem no tempo ou na forma que esperávamos.
3. “Manda embora essa mulher…”: a intercessão
Os discípulos aproximam-se e pedem: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós.” (Mt 15,23). A fala dos discípulos é ambígua: pode ser entendida como um pedido para que Jesus a atendesse e a despedisse. Na leitura espiritual recolhida por São Tomás de Aquino na Catena Aurea, a mãe pede misericórdia por si porque a aflição da filha se tornou também a sua. A narrativa mostra claramente que a mulher intercede pela filha e persevera pessoalmente diante de Jesus. Quanto aos discípulos, sua fala permanece ambígua: pode conter um pedido para que Jesus a atenda, mas também pode revelar apenas o incômodo deles diante de sua insistência.
A intercessão é algo normal, corriqueiro, parte da vida cristã e da vida da Igreja. São João Crisóstomo destaca o valor da intercessão e mostra que Deus quis associar a oração dos justos à salvação e à reconciliação dos outros. A Igreja vive essa confiança de modo eminente na Virgem Maria, cuja maternidade espiritual a une singularmente a Cristo e cuja Assunção celebramos nestes dias. À Mãe recorremos com confiança, certos de que sua intercessão materna nos conduz a Cristo e está sempre unida à vontade do Filho.
As Escrituras estão cheias de grandes intercessores: Abraão intercede por Sodoma (cf. Gn 18,22-33), Moisés pelo povo (cf. Ex 32,11-14). No livro de Jó, Deus manifesta que acolherá a oração do justo em favor dos amigos: Ide a meu servo Jó, ele orará por vós, e por causa dele eu vos atenderei (cf. Jó 42,8). Não é que a nossa oração nada valha; é que, reconhecendo a nossa pequenez, entregamos também a nossa súplica nas mãos daqueles que já estão diante de Deus. Os Santos que estão na presença de Deus intercedem por nós, pois o nosso Deus não é Deus de mortos, mas de vivos (cf. Mt 22,32), e nós cremos na Comunhão dos Santos (cf. CIC 956).
4. “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”
Jesus responde: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Estaria Jesus faltando com a verdade, já que ele veio para todos? De modo algum. A missão histórica de Jesus dirige-se primeiro a Israel, povo da promessa; depois da Ressurreição, o Evangelho será anunciado a todas as nações (cf. Mt 28,19). O próprio fato de ele estar em território pagão, em Tiro e Sidônia, é já uma antecipação dessa missão universal, como também o foi a passagem pela região dos gadarenos (cf. Mt 8,28-34). Não podemos isolar um único versículo do conjunto da Palavra de Deus: a Escritura se lê na sua unidade. Mais tarde, Pedro e Paulo reconhecerão que também aos gentios era necessário anunciar o Evangelho (cf. At 10; At 15).
Diante da resposta de Jesus, a mulher veio e prostrou-se diante dele, dizendo: “Senhor, socorre-me” (Mt 15,25). Aquele “prostrar-se” é um gesto de profunda reverência e súplica, reconhecendo nele aquele que pode socorrê-la, em sintonia com o “Senhor” que ela confessara no início. E aqui está a boa notícia para nós: Jesus também foi enviado a nós, que não somos da “casa de Israel” segundo a carne, mas somos o novo povo de Deus, a Igreja, nascida não da descendência do sangue, mas da fé (cf. Rm 9,6-8; Jo 1,12-13). O Evangelho, que os apóstolos levaram aos gentios, chegou também até nós.
5. “Mulher, grande é a tua fé”
Vem, enfim, o louvor de Jesus: “Mulher, grande é a tua fé; Seja feito como tu queres!” (Mt 15,28). O contraste é forte com a pouca fé de Pedro, que há dois domingos, ao caminhar sobre as águas, começou a afundar e ouviu de Jesus: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). Uma mulher pagã manifesta aqui a grande fé que faltou, naquele momento, ao primeiro dos apóstolos.
Como esta mulher cresceu na fé? Primeiro, pela perseverança e pela insistência na oração, aquele orar sempre sem desanimar de que fala o Senhor (cf. Lc 18,1). Depois, pela humildade que reconhece o próprio lugar. Jesus lhe dissera que não ficava bem tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos, e ela responde: é verdade, Senhor, mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos (cf. Mt 15,26-27). Ela não entra numa disputa orgulhosa com Jesus. Acolhe a imagem apresentada por ele e, com humildade e inteligência, mostra que até as migalhas da mesa dos filhos bastam para socorrer sua filha. Jesus então manifesta a grandeza de sua fé e concede a cura. A humildade é a verdade: dizer eu não mereço não é rebaixamento, é reconhecer que a graça é pura misericórdia. Vem à memória a parábola do rico e do pobre Lázaro, em que os cães lambiam as feridas do mendigo à porta do rico (cf. Lc 16,19-21): também ali o pequeno e desprezado é quem está mais perto do coração de Deus.
Podemos supor que a cura tenha acontecido a distância, como no caso do centurião, a quem Jesus louvou por sua fé (cf. Mt 8,10-13), pois o Evangelho diz que, naquela mesma hora, a filha ficou curada, sem mostrar a menina presente. O que fica para nossa vida é uma grande lição de humildade: não tentar comprar a misericórdia nem a graça de Deus alegando nossos méritos, como o fariseu que se vangloriava no Templo (cf. Lc 18,11-12). Quando reconhecemos humildemente nossa necessidade e confiamos na misericórdia de Deus, aprendemos a pedir com perseverança, deixando nossa súplica nas mãos de sua sabedoria e de sua vontade. No caso da cananeia, Jesus confirmou sua fé e concedeu a cura: “Seja feito como tu queres” (Mt 15,28).
Este é também o convite à conversão permanente, que não pertence somente ao tempo da Quaresma ou do Advento, mas a cada dia. A perseverança da cananeia recorda-nos que a conversão não termina depois dos primeiros avanços espirituais. Santa Teresa de Jesus adverte, ao falar das Moradas, que é possível acomodar-se no caminho e confundir certo progresso com a chegada à maturidade. A fé precisa permanecer humilde, vigilante e disponível à graça. Não nos contentemos com uma vida cristã morna, mas peçamos a fé perseverante e humilde da cananeia.
Até a próxima semana!
Shalom!
De segunda a sábado, temos um pequeno vídeo; no domingo, o nosso podcast com o Evangelho Dominical para você meditar e rezar. Inscreva-se no canal e convide outras pessoas, para que mais pessoas amem a Palavra de Deus. Deixe o seu “like” e encaminhe aos seus amigos. Deus te abençoe. Shalom!
Confira o Podcast com legendas que você seleciona no seu idioma
Passos da Lectio Divina
A Lectio Divina é a leitura orante da Palavra de Deus. Reserve um tempo de silêncio, invoque o Espírito Santo e percorra com calma estes passos, rezando você mesmo com este Evangelho.
1. Leitura (Lectio). O que o texto diz?
Leia com atenção a passagem, observando quem age, o que Jesus faz e diz, e como a mulher responde. Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo são Mateus (Mt 15,21-28):
“Naquele tempo, Jesus partiu e retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. E eis que uma mulher cananeia, que viera daquela região, começou a gritar: ‘Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio!’ Jesus, porém, não lhe respondeu nada. Então os discípulos aproximaram-se e pediram: ‘Manda embora esta mulher, porque ela vem gritando atrás de nós!’ Jesus respondeu: ‘Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel.’ Ela, porém, veio e prostrou-se diante dele, dizendo: ‘Senhor, ajuda-me!’ Jesus respondeu: ‘Não fica bem tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos.’ Mas ela disse: ‘É verdade, Senhor! Mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos.’ Então Jesus lhe disse: ‘Mulher, como é grande a tua fé! Faça-se conforme tu desejas!’ E, naquela mesma hora, a sua filha ficou curada.” (Mt 15,21-28)
2. Meditação (Meditatio). O que o texto diz a mim?
Deixe uma palavra tocar o seu coração. Onde preciso insistir na oração e não desistir? Diante do silêncio de Deus, ainda confio? Reconheço que tudo é pura misericórdia, ou ainda quero merecer?
3. Oração (Oratio). O que digo a Deus a partir do texto?
Responda ao Senhor com as suas próprias palavras: faça sua a oração da cananeia, Senhor, tem piedade de mim; apresente as pessoas por quem intercede e peça, pela intercessão de Maria, a graça de uma fé perseverante.
4. Contemplação (Contemplatio). Que olhar novo Deus me dá?
Permaneça em silêncio diante de Jesus, que se deixa vencer pela fé humilde desta mulher, e receba o olhar de misericórdia que ele pousa também sobre a sua vida.
5. Ação (Actio). A que o Senhor me chama hoje?
Escolha um gesto concreto: uma oração perseverante por alguém, um ato de humildade que reconheça o seu lugar diante de Deus, ou um passo a mais na conversão que você vinha adiando.
Por José Ricardo Bezerra e Felipe Bezerra