José Ricardo Bezerra e Felipe Bezerra
No Evangelho deste 17º Domingo do Tempo Comum, Ano A (Mt 13,44-52), Jesus conclui o discurso das parábolas do Reino, no capítulo 13 de São Mateus. Depois das parábolas do semeador, do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, Ele nos entrega mais quatro parábolas para tentar dizer, com imagens do nosso dia a dia, a que pode ser comparado o Reino dos Céus: A um tesouro escondido, a um comprador de pérolas preciosas, a uma rede lançada ao mar e ao mestre da Lei que se torna discípulo. São parábolas curtas, quase de dois versículos, mas, quando as tomamos para ler, meditar e rezar, elas vão nos surpreendendo e revelando coisas novas e velhas.
Escolhemos cinco pontos para a sua meditação e oração ao longo desta semana. Como sempre, deixamos também o Evangelho e os passos da Lectio Divina no fim deste texto, para que você mesmo reze com a Palavra. Se você fala coreano, mandarim ou árabe, procure a gente: enviamos o material diretamente para você, porque ainda não temos essas línguas no portal ComShalom, mas em todas as outras o texto está disponível.
Acompanhe também no nosso podcast, com legendas no seu idioma: https://youtu.be/7G45BRj8wO0.
1. O tesouro escondido
“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44).
Esse tesouro tem tamanho valor que vale a pena vender tudo, e com alegria adquiri-lo. Mas há um detalhe: o homem encontra o tesouro num campo que ainda não é seu; por isso precisa de tempo e de todo um caminho até que aquele tesouro seja realmente dele. É assim também com o Reino: nós o encontramos, mas ele ainda não é plenamente nosso, e vale a pena fazer tudo para consegui-lo.
Chama a atenção que o tesouro fica, por um tempo, escondido, para depois ser revelado. Não se trata de algo reservado a poucos, como se fosse um saber secreto (a Igreja sempre recusou essa tentação gnóstica): trata-se do ritmo próprio de Deus, que esconde e revela na hora certa. São as coisas “escondidas aos sábios e entendidos deste mundo e reveladas aos pequeninos” (Mt 11,25). São Paulo é um belo exemplo dessa paciência de Deus: tocado pela graça no caminho de Damasco (cf. At 9,1-19), recolheu-se por um tempo, retirando-se à Arábia, antes de começar mesmo a pregar (cf. Gl 1,15-18). Foi preciso que Barnabé o encontrasse e o apresentasse aos Apóstolos (cf. At 9,26-27; 11,25-26). Houve todo um tempo de preparação: o tesouro não foi revelado de imediato.
E aqui Jesus nos dá uma chave preciosa: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Como saber qual é o nosso tesouro? Repare do que a sua boca mais fala, “porque a boca fala daquilo que o coração está cheio” (cf. Mt 12,34). Se você fala muito de Deus, é porque o seu coração está cheio de Deus; se fala muito de outras coisas, é sinal de onde anda o seu coração. Até as distrações na oração podem ser um bom termômetro: muitas vezes o coração corre, sem querer, para onde está o nosso tesouro. Quando isso acontecer, em vez de só se condenar, traga também isso para a oração e diga: “Senhor, este é o meu tesouro; eu quero que sejas Tu. Desapega-me das coisas que passam e dá-me mais de Ti”. À medida que vamos vendendo tudo, isto é, nos desfazendo da mentalidade velha, vamos ganhando um coração novo, cada vez mais cheio do único tesouro verdadeiro, que é o próprio Jesus.
2. O comprador de pérolas preciosas
“O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.” (Mt 13,45-46).
Se na primeira parábola o acento está no tesouro em si, aqui a perspectiva é a da pessoa, o discípulo, cada um de nós, representado nesse comprador. Uma característica dessa pessoa é o desapego: para ela, vale a pena se desfazer de tudo, porque o Reino vale muito mais. Não dá para ficar com um pé aqui e outro lá, querendo ter tudo. É até o contrário da lógica do mundo, que ensina a nunca concentrar toda a riqueza num só lugar, precisa diversificar os investimentos. No caso do Reino, porém, há um só negócio que vale toda a pena do mundo, e é a vida eterna. Tudo o mais deve ser meio para conseguir chegar até lá.
É a atitude dos Apóstolos e de São Paulo, que se desapegaram de tudo e seguiram Jesus; o jovem rico, ao contrário, não quis renunciar a seus bens e foi se embora triste (cf. Mt 19,16-22). No fundo, é porque “não se pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24): quem adora o dinheiro o espalha em muitos lugares; quem adora o Senhor sabe que Ele é tudo naquele único bem. Como dizia Santa Teresa de Ávila, “é justo que muito custe o que muito vale”. Vale a pena se despojar para ganhar o que tem valor supremo.
3. A rede lançada ao mar
“O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam” (Mt 13,47-48).
Agora a perspectiva se abre para a Igreja. A rede é esse povo de Deus, que recolhe peixes bons e maus, que estão juntos neste tempo. Aqui vale um esclarecimento: no Credo professamos que “a Igreja é una, santa, católica e apostólica”. A Igreja é santa porque a sua Cabeça é Cristo e porque é animada pelo Espírito Santo; ao mesmo tempo, ela acolhe pecadores no seu seio e está sempre a caminho da purificação (cf. CIC 825-827). Nós somos esse “povo santo e pecador”, (Oração Eucarística V), membros do Corpo místico, que está a caminho e que, mesmo caindo, buscamos a conversão.
Por isso a rede pega todo tipo de peixe e, como na parábola do joio e do trigo, não se arranca já o joio: deixa-se os dois crescerem juntos (cf. Mt 13,24-30). A separação só virá no fim dos tempos, quando os anjos separarão os maus do meio dos justos (cf. Mt 13,49), como o Filho do Homem separará os cabritos das ovelhas (cf. Mt 25,31-46). Não cabe a nós fazer essa separação agora; cabe ao Senhor, e Ele o fará por meio dos seus anjos. Enquanto isso, somos chamados a olhar a nossa própria situação e a nos converter, aprendendo com a paciência de Deus, que tem paciência conosco (cf. Evangelho do 16º Domingo do TC).
Daí um alerta: quem somos nós para julgar quem é ou não é bom cristão? Na Igreja há bons e maus, como numa academia há quem já é saudável e quem ainda precisa se cuidar, mas todos estão ali lutando. Os que têm consciência de que precisam melhorar não podem ser postos para fora justamente porque querem melhorar; e os que ainda nem percebem que precisam de conversão são os que mais precisam estar dentro. Jesus foi claro: “Não julgueis, para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos” (Mt 7,1-2). Se você usar uma régua muito curta com os outros, cuidado, porque será medido com a mesma régua.
Isso não significa permitir tudo, pois existe a correção fraterna (cf. Mt 18,15). Mas ela tem o seu lugar e a sua medida: corrigimos aqueles que estão diretamente ao nosso lado, sobre os quais temos alguma autoridade ou proximidade, e que se tenha esperança de sucesso, não o mundo inteiro da internet. E deve-se avaliar o quanto a pessoa consegue acolher: primeiro “Deus te ama, Jesus morreu por você”, para depois chegar às verdades morais. Quem não se sabe amado por Deus dificilmente entende as exigências da moral cristã; por isso o discurso apenas moralizante muitas vezes afasta mais do que atrai. Feita a correção com prudência e caridade, o resto é entre a pessoa e o Senhor, que julga e cuida de cada um.
4. “Compreendestes tudo isto?”
“Compreendestes tudo isto?” Eles responderam: “Sim” (Mt 13,51).
Os discípulos respondem que sim, mas provavelmente ainda não compreendiam tudo. É como quando Tiago e João pediram para sentar-se à direita e à esquerda de Jesus, e Ele lhes perguntou se podiam beber o cálice que Ele ia beber: “Podemos”, responderam, sem ter ainda plena consciência de qual cálice era aquele (cf. Mt 20,20-23). A compreensão plena viria depois, com o Espírito Santo. O próprio Jesus dirá na última ceia: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas não o podeis suportar agora; quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará à verdade plena” (cf. Jo 16,12-13). Como tantas vezes na nossa vida: no momento não entendemos, mas “mais tarde compreenderás” (Jo 13,7), disse Jesus a Pedro.
Essa palavra “compreender” nos leva à bela relação entre fé e razão. Santo Agostinho, comentando Isaías 7,9 numa versão que dizia “se não credes, não compreendereis”, ensinava: crê para compreender. Primeiro crer, para depois entender; e, ao mesmo tempo, procurar compreender para crescer sempre mais na fé. É a fé que busca a inteligência (“fides quaerens intellectum”), expressão de Santo Anselmo com raízes em Agostinho. E Santo Tomás de Aquino dirá que “crer é pensar consentindo”: não um consentir sem pensar, mas um pensamento que adere livremente à verdade.
A fé é dom gratuito de Deus, oferecido a todos, mas precisamos crescer nela e na compreensão, porque somos seres racionais. A razão, porém, não pode ser absolutizada, pois há verdades que só a fé nos dá. Aliás, dizer que “só é verdade aquilo que a ciência comprova” já não é, ele mesmo, uma afirmação cientificamente comprovada. Existem realidades verdadeiras que não se podem ver, medir ou pesar: o amor é uma delas. Ninguém consegue colocar sobre a mesa o amor de alguém por outra pessoa, e nem por isso esse amor deixa de ser real. A alma e o amor não são materiais, e é a fé, iluminando a razão, que nos abre a esse horizonte maior.
5. O mestre da Lei que se tornou discípulo
“Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52).
As coisas novas e velhas são uma referência ao Antigo e ao Novo Testamento. As coisas velhas não estão abolidas nem ultrapassadas; pelo contrário, são a riqueza do Antigo Testamento: Deus uno, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a Lei, a realidade do pecado e a consciência de que somos pecadores. A elas se juntam às coisas novas do Novo Testamento: o Espírito Santo, a Santíssima Trindade, os Sacramentos, a Igreja, o amor do Pai que nos envia Jesus e o próprio Jesus. O mestre da Lei que se torna discípulo aproveita toda essa riqueza antiga e a lê com a luz nova do Evangelho.
Quando olhamos as parábolas de hoje em conjunto, percebemos que o centro de todas é o próprio Jesus: Ele é o tesouro escondido, Ele é a pérola preciosa, Ele é quem, na sua Igreja, lança a rede e julgará no fim, e Ele é o Mestre por excelência, a quem devemos imitar, como diz São Paulo: “sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Cor 11,1).
E não é preciso ser um mestre da Lei para viver isso. Cada um de nós pode olhar para o tesouro do próprio coração e ver como, aos poucos, Deus foi nele guardando coisas novas e velhas: uma oração feita há muitos anos, uma palavra ouvida há décadas e ainda viva no coração, ao lado das coisas novas que Ele nos mostra a cada dia. Deus nunca para de transformar as coisas antigas em novas dentro de nós.
Fechamos aqui os cinco pontos, mas você que chegou até aqui, certamente descobriu ainda outras coisas novas com este Evangelho, que agora pode rezar, agradecer e louvar a Deus. Que a nossa oração seja a de pedir ao Senhor que Ele mesmo seja o nosso tesouro e que a nossa boca fale sempre daquilo de que está cheio o nosso coração.
Até a próxima semana!
Shalom!
De segunda a sábado, temos um pequeno vídeo; no domingo, o nosso podcast com o Evangelho dominical para você meditar e rezar. Inscreva-se no canal e convide outras pessoas, para que mais gente ame a Palavra de Deus. Deixe o seu “like” e encaminhe aos seus amigos, seus familiares e seu grupo de oração. Deus te abençoe. Shalom!
Vídeo do podcast: https://youtu.be/7G45BRj8wO0 (com legendas que você seleciona no seu idioma).
Passos da Lectio Divina
A Lectio Divina é a leitura orante da Palavra de Deus. Reserve um tempo de silêncio, invoque o Espírito Santo e percorra com calma estes passos, rezando você mesmo com este Evangelho.
1. Leitura (Lectio). O que o texto diz?
Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 13,44-52)
“Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.””
2. Meditação (Meditatio). O que o texto diz a mim?
Qual é, hoje, o meu verdadeiro tesouro? Do que a minha boca mais fala revela onde está o meu coração. Estou disposto a “vender tudo”, isto é, a me desapegar do que me prende, para ganhar o Reino, que vale muito mais?
3. Oração (Oratio). O que digo a Deus a partir do texto?
Senhor, nós te agradecemos porque desejas nos apresentar o Reino dos Céus e a Ti mesmo. Na nossa fraqueza e no nosso entendimento tão pequeno, Tu vens até nós, abres o teu coração e enches o nosso de Ti. Enche o nosso coração de Ti, que o nosso tesouro sejas tu mesmo, e que a nossa boca transborde daquilo de que está cheio o coração. Dá-nos, Senhor, um amor profundo pela Tua Palavra e a graça de nela descobrir sempre coisas novas e velhas. Ó Maria, conduze cada um de nós pela mão e enche os tesouros do nosso coração com as graças que recebeste de teu filho Jesus. Amém.
4. Contemplação (Contemplatio). Que olhar novo Deus me dá?
Permaneça em silêncio diante do Senhor, que é Ele mesmo o tesouro escondido e a pérola preciosa. Deixe que o seu coração simplesmente descanse e se alegre em ter encontrado Aquele que vale mais do que tudo.
5. Ação (Actio). A que o Senhor me chama hoje?
Escolha um gesto concreto nesta semana: um desapego, um ato de confiança na paciência de Deus com os outros e consigo mesmo, ou um cuidado maior com a Palavra, guardando no coração uma frase deste Evangelho para rezar ao longo da semana.