A Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz acolheu, neste domingo (16), a Ordenação Presbiteral de quatro sacerdotes da Comunidade Católica Shalom. A celebração foi presidida pelo Arcebispo de Fortaleza, Dom Gregório Paixão, OSB, e reuniu bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas, familiares e membros da Comunidade Shalom de diferentes lugares.
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Foram ordenados presbíteros:
- Pe. Marcos Lopes Cavalcanti Fernandes, de Cabo Frio (RJ), com o lema: “Faça-se em mim segundo tua palavra!” (Lc 1,38);
- Pe. Alan Freitas Costa, do Rio de Janeiro (RJ), que escolheu como lema sacerdotal: “Reconciliar ambos com Deus” (Ef 2,16);
- Pe. Rogério Ferreira Lima Gomes Alves, de Iguatu (CE), que terá como lema: “Tu guardaste o melhor vinho até agora” (Jo 2,10);
- Pe. Marcos Luann Queiroz e Carvalho, de Fortaleza (CE), cujo lema é: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35).
Também estiveram presentes o fundador da Comunidade Católica Shalom, Moysés Azevedo, e a cofundadora, Emmir Nogueira, junto aos membros da Comunidade de Vida e de Aliança. Ao saudar os presentes, Dom Gregório destacou ainda a presença de Dom José Antônio, arcebispo emérito, e Dom Antônio Carlos, bispo auxiliar, além dos familiares dos quatro ordenandos e das pessoas que acompanharam a celebração pelas redes sociais.

A homilia foi marcada por uma profunda reflexão sobre a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada pela Igreja do Brasil neste dia. A partir da exegese bíblica, particularmente da relação entre o Antigo e o Novo Testamento, o arcebispo conduziu os futuros sacerdotes a compreenderem o próprio ministério como uma continuidade da obra de Deus na história.
Maria, a nova Arca da Aliança
Dom Gregório iniciou sua reflexão a partir de um princípio: tudo aquilo que vemos é imagem de alguma coisa. Os próprios diáconos, afirmou, são imagem de suas famílias, enquanto Cristo é imagem do Pai. Da mesma forma, o Novo Testamento permite enxergar aquilo que já estava anunciado no Antigo Testamento.
A partir dessa chave de leitura, o arcebispo conduziu a assembleia ao mistério da Assunção de Maria. Recordando que o dogma foi proclamado pelo Papa Pio XII em 1950, Dom Gregório afirmou que não basta permanecer apenas no aspecto devocional da solenidade. É necessário mergulhar na riqueza da tradição e das Escrituras para compreender aquilo que Deus revelou progressivamente ao seu povo.
O principal paralelo apresentados foi entre Eva e Maria. A primeira mulher dialoga com a serpente e acolhe o fruto do pecado; Maria, a nova Eva, dialoga com o anjo Gabriel e acolhe em seu ventre o fruto da graça, Jesus Cristo. Enquanto Caim, filho de Adão e Eva, mata o próprio irmão, Cristo vem para salvar seus irmãos. Assim, aquilo que havia sido perdido pelo pecado encontra em Cristo o caminho de redenção.
A reflexão avançou para a imagem da Arca da Aliança. Se no Antigo Testamento a arca guardava as tábuas da Lei, a Palavra de Deus, Maria é apresentada como a nova Arca: nela está o próprio Salvador, a Palavra feita carne. Dom Gregório relacionou ainda a sombra do Altíssimo que repousava sobre a arca com a palavra do anjo Gabriel a Maria: “A sombra do Altíssimo virá sobre você”.
O paralelo aparece novamente na visitação. Assim como Davi recebeu a Arca em uma região montanhosa e exclamou “Como pode vir a mim a arca?”, Isabel pergunta: “Como pode vir a mim a mãe do meu Senhor?”. Diante da presença de Maria, João Batista pula de alegria no ventre de Isabel, em uma imagem que Dom Gregório relacionou à alegria de Davi diante da Arca. Maria permanece ainda três meses na casa de Isabel, assim como a Arca havia permanecido três meses em uma casa antes de seguir para Jerusalém.
A mulher revestida de sol e o destino da Igreja
A partir do livro do Apocalipse, Dom Gregório apresentou a imagem da mulher revestida de sol. Ela aparece como sinal da Igreja e, ao mesmo tempo, da Virgem Maria, que antecipa aquilo que é o destino de todos os cristãos: estar definitivamente com Cristo no Reino de Deus.

Em contraste com a mulher revestida de luz, aparece o dragão, marcado pelas sombras e pelo desejo de destruição. “A mulher traz no seu ventre a vida. O dragão deseja a morte”, explicou o arcebispo. Para ele, a imagem revela o contraste entre a obra de Deus, que gera vida, alegria e construção, e aquilo que busca destruir.
“Tudo em Deus, tudo para Deus”
Foi a partir do Magnificat que Dom Gregório passou a dirigir de maneira mais direta sua reflexão aos quatro futuros sacerdotes. Maria proclama: “Em Deus, meu Salvador, exulto e canto”. Para o arcebispo, a Virgem não canta a própria grandeza, mas a grandeza daquilo que Deus realizou nela.
“E somente reconhecendo a obra de Deus dentro de nós somos capazes de viver o nosso sacerdócio. O sacerdote, portanto, não anuncia a si mesmo, mas manifesta ao mundo o Deus que traz dentro de si”, destacou.
Dom Gregório recordou ainda outra expressão do Magnificat: “Minha alma engrandece ao Senhor”. A partir dela, advertiu que nenhum sacerdote pode se considerar salvador. “Nenhum de nós salva ninguém”, afirmou. O ministro ordenado colabora para conduzir aqueles que evangeliza às mãos do único Salvador, especialmente por meio da Palavra e dos sacramentos.
Também a afirmação de Maria de que “as gerações me chamarão de bendita” foi apresentada como uma experiência que os sacerdotes são chamados a viver: antes de oferecer aos outros aquilo que receberam, precisam experimentar em suas próprias vidas a graça de Deus.
Um sacerdócio para alimentar, cuidar e restaurar
A missão dos novos padres foi apresentada pelo arcebispo em diferentes dimensões. No altar, serão chamados a alimentar o mundo com a Eucaristia, oferecendo aos corações o próprio Cristo, presente em corpo, alma e divindade. Mas o sacerdócio também deverá responder às necessidades concretas das pessoas. “Dar-lhes vós mesmos de comer”, recordou Dom Gregório, relacionando o ministério sacerdotal ao compromisso com aqueles que não têm o necessário e à busca pela justiça.
O arcebispo também recordou o acompanhamento daqueles que se aproximam do fim da vida, especialmente por meio do sacramento da Unção dos Enfermos, e a missão de consolar aqueles que permanecem diante da partida de alguém querido.

Outra dimensão destacada foi a misericórdia. Os sacerdotes serão ministros do sacramento da Reconciliação, chamados a acolher pecadores, perdoar e anunciar uma vida nova. Ao mesmo tempo, Dom Gregório fez uma advertência aos novos padres: a mesma vida sacerdotal que será instrumento de misericórdia também estará sujeita a críticas e acusações.
Por isso, pediu vigilância cotidiana sobre a própria vida. “Estejam prontos para vigiar cada dia os atos de suas vidas”, afirmou, lembrando que o sacerdote deve permanecer atento tanto às próprias fragilidades quanto às situações daqueles que não estarão contentes com o sacerdócio ou com a escolha feita por Deus.
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