Formação

O zelo de Jesus pela Casa do Pai

Faça conosco a Lectio Divina do Evangelho da Dedicação da Basílica de São João de Latrão em que Jesus expulsa os vendilhões da Casa do Pai

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Rosa, Salvator; Christ Expelling the Money Changers from the Temple; National Trust, Attingham Park;

No Domingo em que a Igreja celebra a Dedicação da Basílica de São João de Latrão, não lemos o Evangelho deste ano C, de São Lucas. Entramos numa Festa que nos recorda que Deus quer habitar entre nós, não apenas em Templos de pedra, mas em cada coração que se abre à Sua presença. A Basílica do Latrão, como também é conhecida, é a Catedral do Papa, como Bispo de Roma, chamada com razão de “Mãe e Cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe”. O Evangelho deste dia (Jo 2,13-22) nos conduz à cena em que Jesus sobe a Jerusalém, entra no Templo, faz um chicote de cordas e expulsa de lá animais, vendedores e cambistas, declarando: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio.” (Jo 2,16c). Ao mesmo tempo, anuncia algo mais profundo: “Destruí este Templo e em três dias o levantarei.” (Jo 2,19b). O evangelista então explica que Ele falava do Templo do seu corpo (cf. Jo 2,21).

No podcast do nosso canal no YouTube (Felizes os que ouvem a Palavra de Deus), refletimos sete aspectos deste Evangelho que podem nos ajudar a compreender como Jesus continua purificando o templo da nossa vida.

  1. Jesus sobe a Jerusalém e ao Templo

Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.” (Jo 2,13)

A subida a Jerusalém não é apenas geográfica — é também espiritual. Da Galileia até a Cidade Santa há quase mil metros de desnível, e essa caminhada dos peregrinos era símbolo da busca do homem por Deus. Subir ao Templo é sempre um ato de fé: é deixar o cotidiano para entrar no sagrado. Assim também nós, cada vez que entramos numa igreja, fazemos essa subida interior. Subimos exteriormente os degraus, mas interiormente precisamos descer — descer na humildade, reconhecer nossas faltas, esvaziar-nos para receber a graça. Toda Eucaristia é um “subir ao altar do Senhor” e um “descer do nosso orgulho”, e Jesus, que sobe ao Templo, nos ensina que a verdadeira adoração nasce de quem sobe com o coração que se abaixa, esvaziado e purificado.

  1. O que Jesus encontra no Templo

Ao entrar no Templo, Jesus encontra o que não deveria estar lá: vendedores de bois, ovelhas e pombas e cambistas com suas mesas e moedas. Havia uma razão prática para tudo isso — os peregrinos vinham de longe e precisavam trocar o dinheiro estrangeiro por moedas do Templo e comprar os animais para os diversos tipos de sacrifícios —, mas o problema não estava na atividade em si, e sim no lugar. Tudo acontecia dentro do espaço reservado à oração dos pagãos, o único ponto do Templo onde os não judeus podiam estar e rezar. O espaço da escuta se transformou em mercado. O diálogo com Deus ficava quase impossível pelo barulho dos animais e das pessoas que ali compravam e vendiam. Jesus reage porque o comércio não deveria ocupar o lugar da comunhão. E hoje, o que Ele encontra no Templo do nosso coração? Não há bois nem cambistas, mas talvez haja distrações, ruídos, justificativas e trocas interiores. Jesus quer entrar e reencontrar silêncio de adoração e escuta, e ainda corações gratos e amor verdadeiro.

  1. O chicote e o zelo de Jesus

Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo.” (Jo 2,15)

Jesus é Deus. Ele não perdia o controle nem agia por impulso. Sua ação é deliberada, pedagógica, cheia de significados. Com o chicote nas mãos, Ele manifesta o zelo ardente do coração do Pai. A emoção de Jesus não é desordem; é amor em forma de indignação. O evangelista diz que depois eles se lembraram da Escritura: “O zelo por tua casa me consumirá.” (Sl 69,10). Essa santa ira mostra que Deus não é indiferente com quem profana o sagrado. Ele reage porque ama. Jesus não aceita que a casa do Pai se transforme em lugar de comércio, e tampouco aceita que o coração do homem se acomode na indiferença e na tibieza. O mesmo Cristo que consola os pecadores é o que, com firmeza e doçura, deseja purificar a nossa vida. Seu chicote é o símbolo de um amor que não se resigna à mediocridade. Quando Ele entra, tudo o que é impuro deve ser retirado.

  1. Tirai isto daqui”: as mesas viradas e as moedas espalhadas

Espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas.” (Jo 2,15)

As mesas caem, as moedas rolam, o barulho se espalha, e aquela antiga ordem é desfeita. Jesus age com firmeza porque quer restituir à casa do Pai a sua finalidade primordial. As mesmas moedas que rolaram pelo chão lembram as trinta moedas que Judas devolverá mais tarde, símbolo de uma relação com Deus mediada por interesse e culpa. “Tirai isto daqui” não é apenas uma frase para os comerciantes, mas um convite pessoal permanente. No Templo do nosso coração há também “mesas” que precisam ser viradas: a “mesa” do orgulho, da autossuficiência, das falsas seguranças. Muitas vezes tratamos Deus como uma máquina de trocas espirituais — “se eu rezo esta novena, Ele me dará tal graça” —, esquecendo que o amor verdadeiro não se compra. A sua oração diante do altar pode ser essa: “Senhor Jesus, entra no Templo do meu coração e dize Tu mesmo: ‘Tirai isto daqui’. Purifica-me do comércio, das distrações e do egoísmo…”

  1. A casa de meu Pai” e o Templo do corpo

Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio.” (Jo 2,16)

O Templo de Jerusalém era o sinal visível da “Glória de Deus” (Shekinah) que indicava a presença de Deus (cf. 1Rs 8,10-13), mas Jesus fala também de outra morada: o Seu corpo., e podemos pensar também no de cada pessoa. São Paulo vai recordar: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16). Cada batizado é Templo do Espírito Santo, uma pequena igreja viva. No entanto, é fácil profanar esse Templo — ora desprezando o corpo, ora idolatrando-o. A fé cristã sempre buscou o equilíbrio: o corpo é bom, criado por Deus, mas é meio e não fim; é instrumento de amor, não vitrine de vaidade ou instrumento para o prazer. Cuidar da saúde é virtude; vender o corpo — seja por dinheiro, por atenção ou por vaidade — é transformar o seu Templo em comércio. Santa Teresa dizia: “Sirvamos o corpo para que ele melhor sirva à alma.” Assim como Jesus zelou pela casa do Pai, somos chamados a zelar pelo Templo do nosso corpo e pela pureza do coração.

  1. Destruí este Templo, e em três dias o levantarei

Quando os judeus perguntam a Jesus que sinal justificaria aquele gesto, Ele responde: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei.” (Jo 2,19b). Eles pensam no edifício de pedra, mas Jesus fala do Templo do Seu corpo. O verbo grego “levantar”, usado aqui, é o mesmo que significa “ressuscitar”. Já neste segundo capítulo de João, o Evangelho aponta para a ressurreição de Jesus. O verdadeiro Templo é Cristo ressuscitado, o lugar definitivo de encontro entre Deus e o homem. Tudo o que era sombra e profecia se cumprirá n’Ele: o sacerdote, o sacrifício (Cordeiro), o altar, o Templo. Cada vez que deixamos Cristo purificar nossa vida, Ele reconstrói em nós o Templo vivo da Sua presença. A casa de Deus não é mais de pedra, mas de carne redimida, e a cada Eucaristia o Espírito renova o milagre: o Templo destruído pelo pecado é levantado pela graça.

  1. Fé na Escritura e na Palavra de Jesus

Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que Ele tinha dito e creram na Escritura e na Palavra que Ele falara.” (Jo 2,22)

A fé nem sempre surge na hora. Às vezes, a compreensão vem depois, quando o Espírito faz recordar as palavras de Jesus. Assim foi com os discípulos: só após a Ressurreição entenderam aquilo que Ele quis dizer sobre o Templo. O Evangelho é vivo e nos alcança no tempo certo. Crer na Escritura e na Palavra do Senhor é confiar mesmo quando não se entende tudo; é permitir que o Espírito Santo transforme lembranças em luz.

O texto da liturgia de hoje não traz, porém se você tomar a sua Bíblia verá que São João termina o capítulo dizendo que vendo os sinais que Ele fazia, muitos creram em seu nome, mas Jesus não se fiava neles, porque conhecia o que havia no coração do homem (cf. Jo 2,23-24). Ele conhece também o nosso coração: sabe onde falta fé, onde sobra ruído, e onde ainda resistimos. E mesmo assim nos ama, nos purifica e nos chama à vida. A fé verdadeira nasce quando deixamos que Ele veja tudo o que há em nós, misérias e pecados e, ainda assim, desejar permanecer com Ele.

Conclusões práticas

  • Escolha um momento da semana para “subir ao Templo” com mais consciência: chegar à santa Missa com antecedência, recolher-se no silêncio, adorar e agradecer.
  • Peça a Jesus que purifique o seu Templo interior, libertando-o das distrações e dos ruídos.
  • Busque um gesto concreto de zelo pela Casa de Deus: ajudar, limpar, respeitar o sagrado.
  • Cuide do seu corpo como morada do Espírito, não como vitrine.
  • E quando for à Comunhão, repita em silêncio: “Senhor, entra no Templo do meu coração e diz: ‘Tirai isto daqui’. Faz-me novo, purifica-me no Teu amor.”

benfeitor shalom

Passos da Lectio Divina de João 2,13-22

Leitura (lectio): Leia João 2,13-22 com calma. Sublinhe as palavras que lhe tocarem: “subiu”, “chicote”, “tirai isto daqui”, “três dias”, “lembraram-se”.
Meditação (meditatio): Onde Jesus te convida a purificar o coração? Que mesas precisam ser derrubadas dentro de ti?
Oração (oratio): “Senhor Jesus, zeloso pela Casa do Pai, purifica o Templo do meu coração. Entra com Teu amor e faz-me novo.”
Contemplação (contemplatio): Permaneça em silêncio, imaginando Jesus entrando no Templo e depois no teu coração.
Ação (actio): Decida-se hoje a viver com zelo — pela Igreja, pela Eucaristia e pela pureza do coração.

Por que celebrar a Dedicação de São João de Latrão?

Porque ela recorda que há uma Casa de Deus sobre a terra, mas também dentro de nós. A Basílica do Latrão, “Mãe e Cabeça de todas as igrejas”, é sinal da unidade da Igreja de Cristo. Celebrar sua dedicação é professar que somos pedras vivas, Templos do Espírito Santo, morada de Deus no mundo. Que o Senhor Jesus, zeloso pela Casa do Pai, purifique novamente o Templo da nossa vida e nos faça amar a Igreja — a de pedra e a de carne — com o mesmo zelo do Seu coração.

Até a próxima semana!

Shalom!

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