Íntegra: Documento preparatório para o Sínodo dos Bispos
SÍNODO DOS BISPOS XV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA Os jovens, a fé e o discernimento vocacional DOCUMENTO PREPARATÓRIO Introdução «Eu disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11): eis o projeto de Deus para os homens e as mulheres de todos os tempos e, portanto, também para todos os jovens e as jovens do terceiro milénio, sem excluir ninguém. Anunciar a alegria do Evangelho é a missão que o Senhor confiou à sua Igreja. O Sínodo sobre a nova evangelização e a Exortação Apostólica Evangelii gaudium abordaram o modo de cumprir esta missão no mundo de hoje; ao contrário, os dois Sínodos sobre a família e a Exortação Apostólica pós-sinodal Amoris laetitia foram dedicados ao acompanhamento das famílias ao encontro desta alegria. Em continuidade com este caminho, através de um novo percurso sinodal sobre o tema: «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», a Igreja decidiu interrogar-se sobre o modo de acompanhar os jovens a reconhecer e a acolher a chamada ao amor e a vida em plenitude, e também pedir aos próprios jovens que a ajudem a identificar as modalidades hoje mais eficazes para anunciar a Boa Notícia. Através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje. Assim como outrora Samuel (cf. 1 Sm 3, 1-21) e Jeremias (cf. Jr 1, 4-10), existem jovens que sabem vislumbrar aqueles sinais do nosso tempo, apontados pelo Espírito. Ouvindo as suas aspirações, podemos entrever o mundo de amanhã que vem ao nosso encontro e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer. Para cada um a vocação ao amor adquire uma forma concreta na vida quotidiana, através de uma série de escolhas que estruturam a condição de vida (casamento, ministério ordenado, vida consagrada, etc.), a profissão, as modalidades de compromisso social e político, o estilo de vida, a gestão do tempo e do dinheiro, etc. Assumidas ou incorridas, conscientes ou inconscientes, trata-se de escolhas das quais ninguém se pode eximir. A finalidade do discernimento vocacional consiste em descobrir como as transformar, à luz da fé, em passos rumo à plenitude da alegria à qual todos nós somos chamados. A Igreja está consciente de que possui «o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas» (Mensagem do Concílio Vaticano II aos jovens, 8 de dezembro de 1965); as riquezas da sua tradição espiritual oferecem muitos instrumentos com os quais acompanhar o amadurecimento da consciência e de uma liberdade autêntica. Nesta perspetiva, com o presente Documento preparatório tem início a fase da consulta de todo o Povo de Deus. O Documento – dirigido aos Sínodos dos Bispos e aos Conselhos dos Hierarcas das Igrejas Orientais Católicas, às Conferências Episcopais, aos Dicastérios da Cúria Romana e à União dos Superiores-Gerais – termina com um questionário. Além disso, está prevista uma consulta de todos os jovens através de um site da Internet, com um questionário sobre as suas expectativas e a sua vida. As respostas aos dois questionários constituirão a base para a redação do Documento de trabalho, ou Instrumentum laboris, que será o ponto de referência para o debate dos Padres sinodais. Este Documento preparatório propõe uma reflexão subdividida em três passos. Começa-se delineando resumidamente algumas dinâmicas sociais e culturais do mundo em que os jovens crescem e tomam as suas decisões, para propor uma sua leitura de fé. Depois, percorrem-se de novo as passagens fundamentais do processo de discernimento, o qual constitui o principal instrumento que a Igreja deseja oferecer aos jovens para descobrir a própria vocação, à luz da fé. Finalmente, salientam-se os pontos fundamentais de uma pastoral juvenil vocacional. Por conseguinte, não se trata de um documento completo, mas de uma espécie de mapa que tenciona incentivar uma procura cujos frutos somente estarão disponíveis no final do caminho sinodal. Nos passos do discípulo amado Como inspiração para o percurso que começa, oferecemos um ícone evangélico: o apóstolo João. Na leitura tradicional do quarto Evangelho ele é tanto a figura exemplar do jovem que decide seguir Jesus, como «o discípulo a quem Jesus amava» (Jo 13, 23; 19, 26; 21, 7). «Fixando o olhar sobre Jesus que passava, [João Batista] disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”. Os dois discípulos ouviram Jesus falar e seguiram-no. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: “O que procurais?”. Responderam-lhe: “Rabi – que quer dizer Mestre – onde moras?”. Retorquiu-lhes: “Vinde e vede”. Foram então e viram onde morava, e naquele dia ficaram com Ele; eram aproximadamente quatro da tarde» (Jo 1, 36-39). Na busca do sentido a dar à própria vida, dois discípulos de João Batista ouvem Jesus dirigir-lhes uma pergunta: «O que procurais?». À sua réplica: «Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?», segue-se a resposta-convite do Senhor: «Vinde e vede» (vv. 38-39). Jesus chama-os a um percurso interior e, ao mesmo tempo, a uma disponibilidade a colocar-se concretamente em movimento, sem saber bem onde é que isto os levará. Será um encontro memorável, a tal ponto que se recorda da hora em que teve lugar (v. 39). Graças à coragem de ir e ver, os discípulos experimentarão a amizade fiel de Cristo e poderão viver diariamente com Ele, fazer-se interrogar e inspirar pelas suas palavras, deixar-se tocar e comover pelos seus gestos. João, em particular, será chamado a ser testemunha da Paixão e Ressurreição do seu Mestre. Na última ceia (cf. Jo 13, 21-29), a sua intimidade com Ele levá-lo-á a apoiar a cabeça no peito de Jesus e a confiar-se à sua palavra. Conduzindo Simão Pedro até à casa do sumo sacerdote, enfrentará a noite da provação e da solidão (cf. Jo 18, 13-27). Ao pé da cruz abraçará a profunda dor da Mãe, a quem será confiado, assumindo a responsabilidade de cuidar dela (cf. Jo 19, 25-27). Na manhã de Páscoa, compartilhará com Pedro