Formação

Série Santas Virgens Mártires: Santa Úrsula

Era uma linda menina, meiga, inteligente e caridosa. Cresceu muito ligada à religião, seguindo os princípios da fé e amor em Cristo. A fama de sua beleza espalhou-se e logo os pedidos de casamento surgiram. Mas a decisão pela castidade lhe custou a vida.

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Hoje vamos dar um salto de mais de 100 anos na história da Igreja em relação à matéria da semana passada, recordamos os acontecimentos da vida de Santa Luzia que culminaram em seu martírio e no encontro definitivo com o Senhor. Também vamos nos distanciar algumas milhas da região da Itália, para visitar a Inglaterra do século IV, mais precisamente no ano de 362, no qual nasceu Santa Úrsula, virgem e mártir. Ela era filha do rei da Cornualha, um condado localizado no Sudoeste da Inglaterra, conhecido por ser a terra que abriga as lendas sobre o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, o clássico Tristão e Isolda e cenário de alguns romances de Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e outros escritores britânicos. 

Voltando para a nossa história, há algumas virtudes em comum entre as virgens mártires que já mencionamos nesta série, dentre estas: a coragem, a pureza, a confiança total no Senhor, a resiliência e a graça da perseverança final. Mas havia uma característica exterior também comum a todas elas, que era a beleza. De fato, a beleza atrai, todavia, não qualquer beleza, mas a que vem acompanhada pela verdade e bondade. Deus, quando criou o homem, infundiu em seu coração uma atração particular pelo que é belo, bom e verdadeiro, por isso, sendo Ele a Verdade, a Bondade e a Beleza por excelência, é a maior força pela qual o coração do homem pode ser atraído. Já a beleza de Suas criaturas nada mais é do que uma via para levar à contemplação da beleza divina, como disse Santo Agostinho: 

“Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo. Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandecente e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!”

Nas histórias que circundam a vida dessas virgens mártires, há sempre a menção de uma beleza tão superior que se tornou um atributo cuja fama percorreu várias regiões, como no caso de Santa Úrsula, que passou a ser cobiçada por vários homens que desejavam se casar com ela. O fato é que Deus sempre imprime algum traço de Sua beleza na criação, especialmente no homem, que foi criado à Sua imagem e semelhança. Todavia, tal atributo manifesta-se de maneira muito mais evidente nos que são puros de coração, pois pureza é transparência. Desse modo, ao olhar para o casto, deveríamos ver diretamente a Deus, pois sua vida é como um recipiente de cristal finíssimo, que permite enxergar com perfeição o que está em seu conteúdo ou como as águas dos mares polinésios que, de tão límpidas, permitem ver com clareza toda a beleza dos cardumes e corais que estão submersos.

Da mesma forma, é também a nossa própria pureza de coração que nos permite ver o outro como imagem e semelhança de Deus: “Aos puros de coração é prometida a visão de Deus face a face e que serão semelhantes a Ele. A pureza do coração é condição prévia para a visão. Já desde agora, permite-nos ver segundo Deus, aceitar o outro como um próximo e compreender o corpo humano, o nosso e o do próximo, como um templo do Espírito Santo, uma manifestação da beleza divina” (CIC 2519). 

Por outro lado, a falta de castidade e de pureza são os grandes responsáveis pelo olhar malicioso que não consegue ver os outros como criaturas de Deus, mas como objetos de satisfação dos próprios desejos ou interesses. Portanto, podemos dizer que a falta de castidade nos faz enxergar de modo turvo, o que impossibilita um bom discernimento a respeito do que é belo ou feio; bom ou mau; verdadeiro ou falso. Se pecar significa “errar o alvo”, a falta de castidade, que adoece a visão, nos impede de recalibrar a mira para acertar o alvo, enquanto a luta por um coração puro (que se chama ascese), aliada ao auxílio imprescindível da graça, é capaz de treinar todo o nosso ser para acertar diretamente na maior meta da nossa vida: a conversão à santidade.          

Retornando mais uma vez para a nossa história, tendo a fama da beleza de Úrsula se espalhado pela Europa, seu pai negociou o casamento da filha com o duque Conanus, que era um general de exército pagão aliado do rei. Ocorre que a jovem havia feito um voto secreto de consagração da virgindade a Deus e, além disso, como era cristã, entristeceu-se mais ainda por saber que o pretendente não seguia esta mesma religião. Desse modo, Úrsula pediu ao pai três anos para se preparar para o casamento, no intuito de tentar converter o noivo ao catolicismo ou até mesmo conseguir a dissolução do acordo, para que pudesse manter o voto ao Senhor.

Passado o prazo, nada ocorreu, então, seu pai enviou-a de navio a Colônia, na Alemanha, para as núpcias, juntamente com mais 11 virgens prometidas a alguns soldados do duque Conanus. Entretanto, ao aportar, descobriram que a cidade havia sido tomada pelo exército do rei dos Hunos, Átila, que, de tão perverso em suas investidas contra outros reinos, era conhecido como “o flagelo de Deus”. Ele ordenou que toda a tripulação do navio fosse morta, restando apenas Úrsula, por quem se apaixonou quase imediatamente, propondo-lhe casamento. Entretanto, a jovem recusou, afirmando que já pertencia ao mais poderoso dos reis da Terra, que era Jesus Cristo. Diante da negativa, Átila se enfureceu e degolou-a pessoalmente, no dia 21 de outubro de 383.  

As relíquias de Santa Úrsula estão guardadas em uma igreja de Colônia, juntamente com as 11 companheiras de martírio. Em 1535, Santa Ângela de Mérici fundou uma ordem religiosa chamada Companhia de Santa Úrsula, que objetivava fornecer educação para meninas.  

Ao olhar para a história de cada uma dessas Santas virgens mártires, peçamos a Deus a graça de enxergar, através dos olhos purificados pela fé, a beleza divina estampada em sua oferta e fidelidade a Deus até o fim, e que o Senhor possa também nos conceder um coração puro, atraído por Sua beleza, bondade e verdade acima de todas as outras belezas desta vida, que nada mais são do que degraus que podem nos auxiliar a subir na caminhada rumo ao céu.

Por fim, rezemos juntos esta oração de Santo Agostinho, suplicando a Deus o dom da pureza, para que o próprio Senhor nos torne capaz de vê-Lo: 

Senhor, é a Ti que desejo ir. O que Te peço, ainda, é que digas como alcançar-Te. Se nos abandonas, perecemos. Mas tu não nos abandonas, porque és o sumo bem, a quem todos encontram, quando retamente Te procuram. Ensina-me, pois, ó Pai, a procurar-Te, liberta-me do erro, faze que, na minha busca, nada que não seja Tu apresente-se em meu caminho. Pois, visto ser verdade que a ninguém mais desejo senão a Ti, faze, eu Te suplico, ó Pai, que eu possa encontrar-Te. Mas, se ainda subsiste em mim algum desejo vão, despoje-me dele. Purifica-me, Tu mesmo, e torna-me capaz de Te ver. Permite-me, enquanto tiver de conduzir e levar este meu corpo, que seja puro, magnânimo, justo e prudente, perfeito amante e conhecedor da Tua sabedoria. Torna-me digno da Tua morada e que possa assim vir a habitar no Teu beatíssimo Reino. Assim seja!” (Solilóquios 1,6).

 

Santa Úrsula, rogai por nós!      

Continue lendo:

Santas virgens mártires: pureza e coragem na busca pela santidade

Santa Cecília

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Santa Luzia

 


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