No coração da Igreja, serei Obra Shalom

“A Obra Shalom é uma obra que nasce no coração misericordioso de Cristo como alegres instrumentos do amor e da misericórdia de Deus” – Moysés Azevedo   Uma florzinha do campo foi plantada em um vaso. E por ali, recebeu proteção especial durante muito tempo. Foi colocada num lugar alto, em um abrigo com tecidos especiais em volta. Era frágil. Aquele que cuidava dela sabia bem, e todos podiam ver. Delicada que só, tão pequena, tão sensível, qualquer vento mais impetuoso a levaria dali. Ela permaneceu. Teve tanta chuva. Bateu o maior sol. Veio intensa tempestade. A florzinha do campo perdeu suas folhas e ficou por demais assustada. Sentiu-se desnudada. Vieram dias de provas, de resistência, mas também de perseverança e de coragem. E ela sabe que não conseguiu só. É que neste jardim havia outras plantinhas: belos lírios, e rosas, e girassóis. E quando vinha a secura, a ausência de calor, as outras chegavam mais pertinho e podiam aquecê-la. Ah, como foi essencial a luz que chegou de tantas flores irmãs! Logo ficou amiga de todas e quis ser gigante como outras. Com tanta intensidade, tanta ousadia, não demorou nada para descer do abrigo e fazer parte da linha de frente com “a galera do jardim”. E ela foi tão feliz. Tão feliz. E a florzinha foi tão amada, tão amada, que, apesar de permanecer pequena, cresceu por meio de raízes fortes. Foi por este tempo que chegou o Jardineiro. E a florzinha do campo teve medo. Porque aquela presença pedia algo. Um mistério.  Por que era tempo de partir? Depois de tudo, afinal. Depois de tanta proteção. Tanto cuidado. Tantas provas. E logo agora, que ela era parte da família. O que as  irmãs plantinhas iriam pensar? Ela seria julgada como fraca?  Logo ela, que tirou forças de onde nem tinha só pra caber no jardim. A florzinha fugiu do jardineiro. E foi emudecendo. Sentia uma tristezinha. Um pesar por dentro. Porque a fuga também exigia olhar para si. Fugir do jardineiro era desviar atenção para não ver o que estava bem à vista. A verdade. A verdade. Foi então que ela, agora mais crescida, tão nutrida, colocou todo o ar pra dentro e se permitiu ser vista. Neste dia em que deixou o Sol entrar, o jardineiro, seu criador, orgulhoso e contente, revelou a criatura a ela mesma: “Tu és flor do campo! Por isso agora te planto lá. Tua vida, pequena, o teu respirar, é todo um campo aberto! Vá!” —————————————————————–  A história de um discernimento…. Com essa narrativa, compartilho o discernimento sobre o meu desligamento como postulante da Comunidade de Aliança. Não haveria outra forma de narrar, a não ser da maneira como Deus mesmo contou, ao utilizar tantas vezes a mesma metáfora da “florzinha do campo”. Ela pertence a outro lugar, embora fosse incapaz de imaginar um terceiro caminho, uma terceira via. Demorou a perceber que existe uma missão específica também a quem é Obra Shalom. Se existem espaços na sociedade onde a Comunidade de Vida não alcança, e sim a Comunidade de Aliança, não é difícil entender que existe um terceiro espaço, um terceiro lugar, onde nem uma nem outra chega, mas a Obra já está lá, para esse povo. Ser Obra Shalom, verdadeiramente, plenamente, é  testemunhar o Evangelho com a vida. Não é dar menos. Não é fugir de responsabilidades. Não é ser menor ou maior. É ser exatamente aquilo que Deus chama a ser, no mais profundo da Identidade. É ter coerência e respeito por quem se é,  respondendo a um chamado específico. É frutificar-se no apostolado, colocar vida lá, com a mesma intensidade,  a mesma verdade, e ainda mais disposição. Não haverá em mim sinal visível. Mas nunca é invisível o coração grato que se expressa no sorriso radiante  de quem um dia teve uma profunda experiência com o amor misericordioso. E porque experimentou do Amor, quer que outras almas Dele experimentem. É a felicidade de esquecer-me de mim e dar-me, com a mesma violência de coração.  É ser centro de evangelização a qualquer lugar que eu vá.   Shalom!

Eis-me aqui: Sou jovem em missão

“Eu gostaria de percorrer a terra, pregar o Teu nome e plantar sobre o solo infiel a Tua Cruz Gloriosa, porém, ó meu Amado, uma única missão não seria suficiente para mim, ao mesmo tempo, eu gostaria de anunciar o Evangelho aos quatro cantos do mundo e até nas ilhas mais remotas… Eu gostaria de ser missionária não só por alguns anos, mas eu teria sido desde a criação do mundo e do ser, até a consumação dos séculos.” Santa Teresa de Lisieux Três anos atrás, a própria ideia de ter o desejo de ir plantar Cruzes Gloriosas, do outro lado do mundo, pela eternidade, para mim, teria parecido surpreendente e muito inacessível (para não dizer impossível). No entanto, basta um instante para que a vida mude e eu tenho que admitir algo: desde que eu conheci Jesus, o Filho de Deus, o Ressuscitado, e desde quando eu falo com Ele todos os dias, tive que rever um pouco minha ideia de impossível e dar lugar à expressão “Eis-me aqui, Senhor”. Então, contra todas as probabilidades, desde 1º de outubro de 2018, eis-me aqui como “jovem em missão” com os meus queridos vizinhos italianos. Trezentas páginas não seriam suficientes para descrever a abundância de graças deste tempo de missão, mas por compaixão aos tradutores, eu simplesmente gostaria, com alguns exemplos concretos, de testemunhar que com a graça de Deus, nós podemos ir muito além de nós mesmos. Aqui estão algumas coisas impossíveis que se tornaram possíveis (com mais ou menos sucesso) durante estes poucos meses em Roma: Evangelizar chineses; Fazer três horas de adoração por dia durante três meses; Fazer traduções de textos escritos em italiano e português para o francês, sem saber falar nem italiano, nem português; Almoçar com Bispos e Cardeais; Dirigir em Roma (para não deixar os anjos da guarda desocupados demais) Tirar selfies de dois em dois dias; Ler o Castelo Interior com a impressão de entender alguma coisa; Imitar um varal portátil (stendino em italiano e drying em inglês, acreditem em mim, pode ser útil); Conviver com outras meninas 24h sem me tornar misantropa ou louca; Preparar almoços comestíveis para quinze pessoas em uma hora; Comer macarrão todos os dias, amar isso e ficar viciada ao ponto de ter decoração feita de macarrão em casa; Rezar o rosário; Colocar coca-cola no vinho e beber (meu avô quase me renegou quando confessei que havia cometido essa heresia); Cantar parabéns em húngaro; Aprender a jogar futebol; Começar cada dia lavando o banheiro (e agradecer a Deus por isso); Etc. A lista ainda é longa, mas vou concluir com uma das mais belas e delicadas missões: interceder e rezar por pessoas que eu não conhecia seis meses atrás, aprender cada dia a amá-las, e com isso aprender a conhecê-las, e com isso aprender a compreendê-las. Confio às vossas orações todas as coisas impossíveis que Deus preparou para cada um de nós, a fim de que se tornem possíveis.  Shalom! Maylis Vigoureux – França Tradução: Aline F. Alves Ravazzi

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