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O vírus do orgulho: como reconhecê-lo em nós

As recomendações para lutar contra esta terrível inclinação são frequentes nas Sagradas Escrituras.

Orgulho
Foto | Unsplash

Iniciamos a Série Especial sobre os vícios. Ontem definimos o que é um vício e porque ele pode ser tão nocivo para as nossas vidas. Nos próximos dias, mostraremos as virtudes necessárias para combatê-los. Mas hoje vamos falar sobre o orgulho e como reconhecer.

Definição

O orgulho é a estima, o amor desordenado de si mesmo, que leva a pessoa a desprezar os outros e elevar-se acima deles, atribuindo a si o que é de Deus.

No Antigo Testamento, a primeira manifestação do orgulho humano aparece na tentativa do homem a ser como Deus, presente no Gênesis, no relato da queda original (cf. Gn 3,1-13) (cf. Dicionário bíblico universal. Pág. 572).

A traição das criaturas

Eva acede a comer o fruto da árvore proibida uma vez que a serpente sugere que este lhes permitirá “ser como deuses” (cf. Gn 3,5).

Mais tarde, no mesmo livro sagrado, vemos que os homens “impelidos pelo seu orgulho, decidem construir uma torre que chegue a tocar o céu” (João Paulo II, audiência geral, quarta-feira, 18 de Maio de 1983).

As recomendações para lutar contra esta terrível inclinação são frequentes na Escritura (cf. Tb 4,14; Is 2,12.17).

No livro do Eclesiástico está escrito: “O princípio do orgulho humano é abandonar o Senhor e ter o coração longe do Criador. Porque o princípio do orgulho é o pecado e o que possui difunde abominação” (Eclo 10,12-13).

No Novo Testamento, o Magnificat exulta “dispersou os homens de coração orgulhoso” (Lc 1,51) e Jesus se enfrenta à hostilidade dos fariseus, cuja incredulidade é fruto da sua orgulhosa autossuficiência, uma vez que estes vivem apoiados apenas pelos seus méritos e no seu rigoroso cumprimento da Lei, ao que o Senhor responde: “Aquele que se exaltar, será humilhado” (Mt 23,12).

A ambição de querer tomar o lugar do Criador

O orgulho leva o homem a colocar-se no lugar de Deus.

Com efeito, o Papa Francisco o chama “o vírus do orgulho” e diz que foi este que contaminou a mente e o coração de Judas Iscariotes (audiência geral quarta-feira, 12 de junho de 2019). Aquele que ao invés de deixar-se conhecer pelo criador, como característica do orgulho, quis reconhecer em si mesmo, que era o criador.

Nesta mesma linha, o Catecismo é contundente ao declarar: “o ódio a Deus nasce do orgulho” (CIC 2094).

A mentira ilusória dos vaidosos

O orgulho é o pecado de Lúcifer. Posto isto, não é difícil reconhecer que o fundamento mais profundo do orgulho é a mentira, do qual o próprio demônio é pai.

Com efeito, o orgulho não passa de uma triste ilusão, de um engano a respeito de si mesmo e de Deus. Consiste no desejo do homem querer atribuir-se algo que não lhe pertence.

O orgulho gera presunção, vanglória, arrogância, vaidade, ambição, entre outras perversões.

Os tipos de orgulho e como reconhecer

Existem diversos tipos de orgulho.

Para elencar alguns, consultaremos o Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus, OCD, que na sua obra Quero ver a Deus, fala do orgulho dos bens exteriores, da vontade e do orgulho espiritual (todas citações a seguir podem ser encontradas em Quero ver a Deus – III Parte, Quarto Capítulo, B, II).

1- O orgulho dos bens exteriores.

Ensina o Frei Maria-Eugênio: “Estes bens são todos aqueles que asseguram honra e consideração, por conseguinte, vantagens e qualidades exteriores: a beleza, a fortuna, o nome, a classe, as honras.

Estes bens constituem uma simples fachada, brilhante talvez, que, encobre -temos consciência disso- muito mal a nossa pobreza interior.

No entanto, gostamos de apoiar neles o sentimento da nossa própria excelência e as exigências de honras e louvores.

O mundo não se deixa enganar a esse respeito e, depois de ter satisfeito as exigências das convenções, reserva-se fazer, interiormente, o severo juízo da justiça”.

O autor deixa claro que este orgulho é o mais tolo, porém o menos perigoso dado que corresponde à realidade mais exterior, de modo que é mais fácil de quebrantar com a luz da humildade.

2- O orgulho da vontade.

“Este orgulho que reside na vontade nutre-se dos bens que a vontade encontra em si mesma, de sua independência, de seu poder de mandar e de seu força, da qual tomou consciência.

Exprime-se por uma recusa a se submeter à autoridade estabelecida, uma confiança em si exagerada e por uma ambição dominadora” diz o Frei.

Como sabemos a submissão a Deus através dos seus mediadores, isto é, as autoridades que o próprio Deus coloca no nosso caminho.

Este tipo de orgulho recusa a submissão a Deus, transformando-a em um terrível sofrimento. Coloca toda a sua confiança no poder e na eficácia de seus esforços, esquecendo da palavra de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer”.

3- O orgulho espiritual.

O Frei Maria-Eugênio explica que este orgulho é um dos mais difíceis de extirpar e que não pertence ao caminho do homem que vive sem Deus, mas daquele que trilha um caminho de santidade e tem uma vida espiritual.

Diz o nosso autor:

“O orgulho espiritual ufana-se não só de suas obras como se fossem só dele, mas também dos seus privilégios espirituais.

Pertencer a um estado, a uma família religiosa que tem grandes santos, que possui uma doutrina, uma grande influência, é uma nobreza que cria obrigações e pode também alimentar um orgulho espiritual que esteriliza e cega diante das novas manifestações da Misericórdia divina”.

O Frei sublinha ainda que este tipo de orgulho se aproveita dos dons que o Espírito Santo derrama para encher-se de forma perversa, isto por obra do tentador.

Vejamos a sua explicação: “Os dons espirituais pessoais podem também servir de alimento ao orgulho.

A eficácia da oração

As graças da oração enriquecem o contemplativo, deixam na alma a sua marca profunda, dão uma experiência preciosa, fortificam a vontade, apuram a inteligência, aumentam o poder de ação, asseguram ao espiritual uma radiação poderosa.

Estas graças são sempre recebidas na humildade que criam e na gratidão que provocam. A luz que as acompanha desaparece, seus efeitos na alma permanecem.

Ao orgulho, somos todos tentados, a reconhecer também

A tentação pode vir em seguida, sutil e inconsciente.

Ela vem quase necessariamente, tanto o orgulho é tenaz e o demônio astucioso, para utilizar estas riquezas espirituais a fim de se exaltar e aparecer, para servir uma necessidade de afeto ou de domínio, ou simplesmente para fazer triunfar ideias pessoais.”

Sinais de alerta de possível orgulho em nós

Mencionaremos aqui apenas algumas atitudes que podem servir de sinais de alerta de que o orgulho habita em nós.

É importante deixar claro que os casos que apresentamos aqui não são necessariamente fruto do vício do orgulho, pois, podem ser também fruto de fraquezas, limites, imaturidades que não são em si mesmas pecaminosas.

Contudo, as trazemos para nos avaliar a partir delas e assim reconhecer se as possuímos ou não, para depois identificar se são fruto do orgulho que habita em nós.

Lembremos que a identificação e o reconhecimento são os primeiros passos para a mudança.

1- Autossuficiência.

Um dos sinais do orgulho é a autossuficiência.

Declara o Papa Francisco: “Pessoas orgulhosas não pedem ajuda, não podem pedir ajuda porque têm de ser autossuficientes. E quantas delas precisam de ajuda, mas o orgulho impede que peçam ajuda. E como é difícil admitir um erro e pedir perdão!” (PAPA FRANCISCO AUDIÊNCIA GERAL Sala Paulo VI Quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020).

2- Reticência à correção.

Os orgulhosos, apegados à imagem ilusória que eles têm de si mesmos, fogem de qualquer coisa que deixe em evidência as suas imperfeições (para si e para os outros, especialmente).

Por exemplo, quando seus mestres ou diretores espirituais não lhes aprovam o modo e espírito de proceder, estes, desejos de serem louvados e admirados, julgam não ser compreendidos, questionam a legitimidade dos discernimentos dos seus superiores e, inclusive, duvidam da autoridade espiritual que estes possuem, apenas argumentos ilusórios para enganar-se a si mesmos e fazer prevalecer a sua vontade que tornou-se incontestável.

Logo desejam buscar outro que lhes agrade e lhes permita, em última instância fazer o que eles querem.

Esta reticência à correção demonstra que seu verdadeiro objetivo na vida não é o crescimento nem a perfeição, mas os louvores e a admiração.

3- Desinteresse em aprender.

Como vimos, os orgulhosos não buscam o crescimento, de modo que não tem um verdadeiro interesse em aprender.

Acreditam que sabem suficiente e não julgam que as outras pessoas possam ensinar algo a eles. Isto tanto em relação ao conhecimento, quanto à experiência.

Não se aventuram em fazer coisas que não sabem, a fim de não correr o risco de serem humilhados ou ridicularizados, e se refugiam em fazer apenas aquilo que sabem que fazem bem. Tudo isto as condena a uma triste mediocridade.

É possível ir contra este mal

Façamos um exame de consciência e vejamos se apresentamos estes “sintomas”, a fim de que de reconhecer a que nível sofremos do grande mal do orgulho.

 

Gostou da nossa Série? Acompanhe mais temas, assim como o orgulho, como reconhecer e combater os vícios em nós.  

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